Lista de leitura do St. John’s College nos anos 1940

O St. John’s College ocupa um lugar singular na história da educação liberal moderna. Em 1937, ao adotar o chamado New Program, a instituição rompeu com o modelo universitário baseado em disciplinas fragmentadas, aulas expositivas e especialização precoce. Em seu lugar, propôs uma forma radical de retorno às fontes. O programa propõe ler diretamente os grandes textos do cânone ocidental, em ordem aproximada de composição, e discuti-los em pequenos seminários orientados pelo método socrático.

O projeto desse liberal arts college de Anápolis (Maryland) e Santa Fé (Novo México) insere-se no movimento mais amplo dos Grandes Livros. Este movimento liga-se a Robert Maynard Hutchins e Mortimer Adler, conexos à University of Chicago. Para esses pensadores, a então crise da educação que viviam resultava da perda de um cânone comum capaz de formar o juízo, a razão e o caráter. A universidade, ao privilegiar a especialização técnica, deixava de oferecer uma formação intelectual integrada. A solução proposta era simples em sua formulação e exigente em sua execução: colocar os estudantes em contato direto com as obras que moldaram a filosofia, a ciência, a política e a literatura do Ocidente.

O diferencial do St. John’s foi organizar todo o currículo em torno dela. Não há departamentos tradicionais, nem cursos optativos no sentido convencional. Em vez disso, nessa instituição de ensino que remonta do século XVII, há uma sequência fixa de leituras que todos os alunos percorrem. A sala de aula torna-se um espaço de investigação compartilhada, no qual o professor atua menos como autoridade e mais como interlocutor. A ênfase recai na leitura atenta, na argumentação e na capacidade de formular perguntas.

O programa também reflete uma concepção específica de tradição canônica. Os textos não são apresentados como relíquias, mas como interlocutores vivos. Homero, Platão ou Adam Smith não aparecem como etapas superadas de um progresso linear. Antes, são vozes que continuam a colocar problemas fundamentais: justiça, verdade, natureza, ordem política, liberdade. Nesse sentido, o movimento dos Grandes Livros não é antiquarista; ele é, antes, uma aposta na permanência de certas questões humanas.

Críticas não faltaram. Apontou-se o caráter eurocêntrico e com privilégio masculino do cânone, a exclusão de outras tradições intelectuais e o risco de transformar a cultura em lista fixa. Também, havia pouco contato com conhecimento científico (STEM) contemporâneo. Em razão dessas críticas, a lista de leitura é atualizada sempre e inclui práticas laboratoriais. Desse modo, a experiência do St. John’s permanece como uma das tentativas mais coerentes de preservar uma ideia forte de educação liberal: formar não apenas especialistas, mas leitores capazes de pensar.

A lista de leitura histórica do programa, como a divulgada em 1940, ilustra essa ambição. Ela percorre, em poucos anos, um arco que vai da épica grega à economia política moderna, passando pela filosofia clássica, pela teologia, pela ciência e pela formação dos Estados modernos.

St. John’s College – Reading List (1940)

Ano 1

  • Homero – Ilíada (1–24)
  • Platão – Ion; Laches
  • Homero – Odisseia (1–24)
  • Platão – Meno
  • Platão – Eutífron; Apologia; Críton
  • Platão – Fédon
  • Ésquilo – Agamemnon
  • Ésquilo – Coéforas; Eumênides
  • Platão – Cármides; Lísis
  • Platão – Simpósio
  • Heródoto – História (1–7)

Ano 2

  • Virgílio – Eneida (1–12)
  • Cícero – De Officiis
  • Tácito – História (2–3)
  • Galeno – Sobre as Faculdades Naturais
  • Bíblia – Gênesis; Êxodo

Ano 3

  • Pico della Mirandola – Sobre a Dignidade Humana
  • Erasmo – Elogio da Loucura
  • Maquiavel – O Príncipe
  • Rabelais – Gargântua e Pantagruel (1–3)
  • Kepler – Epitome da Astronomia Copernicana (Livro 4)
  • Huygens – Sobre a Luz
  • Calvino – Institutas (Livro 2)

Ano 4

  • Constituição dos Estados Unidos
  • Federalist Papers (1–85)
  • Adam Smith – A Riqueza das Nações (1–5)

VEJA TAMBÉM

A faculdade de uma pessoa só: a lista de leitura de Fitzgerald para Sheila Graham

W. H. Auden: 6.000 páginas dos clássicos

Lista contemporânea do St. Johns.

Deixe uma resposta

Um site WordPress.com.

Acima ↑

Conteúdo licenciado para IA via RSL Standard. Uso comercial e treinamento sujeitos a tarifação.

Descubra mais sobre Ensaios e Notas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading