Intelectualismo e literatura como estética

A tendência de exibir livros e, implicitamente intelectualismo, nas redes sociais e na cultura pop ganhou contornos concretos nos últimos anos. Tais contornos cristalizaram-se na figura da literary it-girl, um arquétipo que condensa leitura, estética e performance pública. Esse tipo social, no qual uma figura feminina toma dianteira, não surge de forma espontânea. Antes, resulta de uma transformação gradual do livro em objeto simbólico, capaz de sinalizar gosto, sensibilidade e pertencimento através do tilintar de colares de prata sobre camisas de linho cru ou do toque seco de uma edição da The Drift em mãos.

A leitura deixa de ocupar apenas o espaço privado e passa a integrar a cena. Como uma cozinha que transforma o ato biológico de alimentar-se em prática carregada de sentido, o livro deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser forma de vida visível.

Seria um juízo apressado pensar em Adorno e Horkheimer, os mestres na crítica da indústria social. O renascimento da “pessoa culta” revela-se como pseudo-individualidade no pensamento dos dois homens. A indústria cultural oferece a ilusão de singularidade. “Não sou como as outras, eu leio teoria”. Todavia, como todo adolescente rebelde que segue religiosamente tendências contraculturais, seria submeter-se a uma conformidade total. Nisso, cada tote bag de lona pesada e cada filtro de foto “dark academia” segue um gabarito algorítmico e intercambiável, desenhado para integrar o sujeito ao consumo.

A estética dessa figura é imediatamente reconhecida em jovens, geralmente na faixa dos vinte ou trinta anos, cujo visual combina o despojamento de tecidos naturais com o peso tátil de volumes de Sally Rooney, Ottessa Moshfegh ou Clarice Lispector. Roupas amplas, tons neutros, óculos escuros de acetato mesmo sob a luz amarelada de uma livraria. O conjunto produz uma impressão de espontaneidade que depende, na prática, de uma composição rigorosa. O efeito buscado é sugerir uma vida interior intensa sem abandonar a visibilidade, transformando o ato de ler no que Marshall McLuhan descreveria como uma extensão sensorial na “aldeia global”. Como no mantra de McLuhan, o meio é a mensagem. O livro, classicamente um meio “quente” que exige o silêncio e a concentração do corpo, é transposto para o ambiente “frio” e participativo das redes sociais. A experiência literária é reconfigurada pelo som do vapor das máquinas de espresso e pelo brilho das telas; o conteúdo das ideias torna-se secundário ao efeito sensorial da performance. Às posadoras, o gesto de segurar o objeto comunica pertencimento antes da primeira página.

Mas essa leitura confronta-se com outra.

Deixando as lamúrias pedantes de homens ressentidos pela feminização da intelectualidade, a literary it-girl deixa de ser apenas efeito discursivo. Consideremos a materialidade. Mas consideremos de modo que sirva a alguma coisa.

A crítica cultural tradicional vê o livro como símbolo, como capital cultural convertido em distinção. Afinal, quem tem tempo para ler, tem tempo de sobra para ser afluente. O livro pesa, mas seu peso é apenas social. Para Jane Bennett e Karen Barad, porém, a matéria não é inerte. O livro físico exige determinada postura do corpo: o peso do volume de Sally Rooney sobre as coxas cruzadas numa cadeira de madeira do Café Secreto, a necessidade de virar páginas com mãos que cheiram a café, a impossibilidade de rolar infinitamente como num feed. A leitora de e-reader pode ajustar o tamanho da fonte, ler no escuro, carregar mil títulos. A leitora de livro físico na cena literária carrega um objeto que a limita e a ancora. Isso não é apenas estético: é biomecânico. O livro físico força pausas. A quebra de capítulo é também quebra de postura. A necessidade de marcar o lugar com um cartão-postal ou um lenço de seda cria ritmo.

Barad fala em intra-ação: sujeito e objeto emergem juntos, não preexistem separados. A literary it-girl não existe antes do livro que segura. O livro que segura não é o mesmo livro quando segurado por outras mãos, noutro corpo, noutra luz. A intra-ação é literal aqui: a luz natural filtrada pelas grandes vidraças do café não ilumina apenas a página, mas produz a leitora como figura fotogênica. O livro torna-se legível como prop porque a luz já o tornou assim. A câmera do iPhone, os algoritmos do Instagram, o design da tote bag de lona pesada—tudo isto participa ativamente na formação do que chamamos “literary it-girl”. A agência é distribuída, sim, mas não de modo democrático. As plataformas capturam mais valor do que as leitoras.

Mas aqui a crítica tradicional para. O que a perspectiva materialista acrescenta é a possibilidade de que esta configuração produza também modos de leitura genuínos, ainda que diferentes.

E esse arranjo se estende aos espaços: cafés com luz natural filtrada por grandes vidraças, livrarias independentes com cheiro de madeira e papel antigo, e eventos de lançamento que lembram encontros de moda. O livro aparece em mãos, em mesas de mármore, em fotografias com grãos de película analógica. A leitura se torna cena compartilhada, acompanhada por música indie e objetos personalizados. Nesse contexto, referências a Joan Didion, Eve Babitz ou Sylvia Plath operam como marcadores de capital cultural, comunicando a adesão a um repertório reconhecível. A inteligência apresenta-se como um atributo visível, integrada a um estilo de vida onde a equação implícita aproxima erudição e desejo.

Essa visibilidade ganha escala com os clubes literários de celebridades, que funcionam como o que os teóricos de Frankfurt chamariam de “cultura administrada”. O Service95, de Dua Lipa, organiza a leitura em ciclos mensais que incluem o som de podcasts e playlists temáticas no Spotify. Em março de 2026, por exemplo, a seleção de Bad Feminist, de Roxane Gay, motivou discussões mediadas pelo brilho constante das notificações digitais, enquanto o Library Science, de Kaia Gerber, e o Reese’s Book Club, de Reese Witherspoon, consolidam a imagem da celebridade leitora em um ciclo de consumo que transforma o labor intelectual em espetáculo visual.

A questão não é se a literary it-girl “realmente” lê. É que leitura nunca foi um só modo. A leitura monástica, século IV, diferia da leitura em voz alta na corte, que diferiu da leitura solitária burguesa, que difere desta leitura em cena. Cada regime produz sua própria atenção, seu próprio corpo, sua própria memória. A leitura fragmentária (não é de se duvidar que muitas adeptas dessa tendência primam pelo skimming, sampling, anotação social nos margens digitais) não é degenerescência da atenção profunda; é outra forma de atenção. Isso a torna mais próxima da leitura pré-moderna, quando os livros eram consultados, não devorados sequencialmente.

A partir de 2025, o movimento expandiu-se para a chamada literary chic, alcançando as passarelas e o mercado de luxo com gravatas frouxas, capas de livros coordenadas com esmaltes vinho tinto e pop-ups de leitura da Miu Miu servindo lanches estilizados. O que antes aparecia como estilo individual assume forma de linguagem compartilhada, onde qualquer usuário pode montar uma dieta cultural em formatos acessíveis. O livro opera como artefato material e signo imaterial. É um objeto que pode ser lido, mas que também precisa ser exibido sob a luz difusa de um final de tarde. O ponto de convergência entre esses elementos é claro: a leitura, tradicionalmente associada ao recolhimento, passa a operar como forma de presença. A estante deixa de ser apenas um arquivo pessoal para se tornar uma vitrine de linguagem.

Nesse cenário, as pessoas estão lendo. Pode ser leituras fragmentárias. Pode ser somente para exibição de proezas intelectuais. Não importa buscar a besteira de “autenticidade” da leitura. Socialmente, ocorre a própria possibilidade de uma vida interior inacessível ao olhar. Se o livro foi, por uma fase do longo século XX, a máquina de fabricar solitude (a tecnologia que nos ensinava a estar sós com nossos próprios pensamentos), sua transformação em acessório de visibilidade marca o fim de um regime de privacidade. Resta saber se ainda conseguiremos ler. Isto é, verdadeiramente ler, com a atenção dispersa e o corpo curvado sobre páginas que ninguém fotografará. Ou se, acostumados ao brilho da tela, teremos esquecido que algumas páginas só se abrem na escuridão.

SAIBA MAIS

A responsabilidade do leitor

Young life: Why I’m desperate to be a literary It-girl

Booktokers: Um fenómeno a mudar hábitos de leitura

The Rise Of The Literary It Girl

Literary It-Girls and Book Clubs Are Trending

BENNETT, Jane. Vibrant matter: a political ecology of things. Durham: Duke University Press, 2010.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Companhia das Letras, 2021.

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