Há um paradoxo na história intelectual recente. Nossas teorias sobre cultura, linguagem e significado ficaram cada vez mais refinadas. Ao mesmo tempo, o mundo material pareceu importar menos. Durante boa parte do século XX, a filosofia e as ciências humanas aprenderam a desconfiar da realidade dada. A matéria virou superfície de inscrição, efeito de discurso ou produto de interpretação. A natureza, antes fundamento, tornou-se construção social.
Pedras ainda caem. Vírus mutam. Infraestruturas falham. Análises puramente simbólicas não dão conta das consequências. Nesse descompasso entre teoria e realidade surgiu o novo materialismo, junto com a teoria ator-rede. Ambas restauram a densidade ontológica do mundo. O mundo nunca foi só humano.
Jane Bennett, em Vibrant Matter (2010), atribui agência às coisas. Não se trata de intenção, mas de capacidade de produzir efeitos em cadeias causais. Eletricidade nas redes urbanas, microrganismos no corpo, resíduos nas drenagens — todos moldam a vida social. Um apagão distribui causalidade entre humanos, cabos, software e materiais físicos.
Bruno Latour, em Reassembling the Social (2005), define sociedade como rede de entidades. Humanos, tecnologias, organismos, infraestruturas. Todas produzem efeitos coletivos. Objetos não são passivos. Smartphones redefinem atenção e vigilância. Estradas alteram geografia econômica. Vírus forçam políticas públicas. A dicotomia natureza/cultura revela-se artefato conceitual.
O novo materialismo ganha força com Manuel DeLanda e Rosi Braidotti. Eles partem da ontologia relacional de Deleuze e Guattari em Mil Platôs (1980). Entidades emergem de relações e fluxos. Karen Barad, em Meeting the Universe Halfway (2007), fala em “intra-ação”. Entidades co-produzem realidade por meio de práticas materiais. A matéria é processual, não estática.
Donna Haraway explora a inseparabilidade entre humanos, tecnologia e biologia. No Cyborg Manifesto (1985) e no Companion Species Manifesto (2003), humanos co-evoluem com bactérias, máquinas e animais. A autonomia humana perde o centro.
Agência distribuída levanta o problema da responsabilidade. Andreas Malm, em The Progress of This Storm (2018), critica o risco de obscurecer culpabilidades humanas na crise climática. Ele reconhece a potência material, mas mantém a assimetria de poder. O novo materialismo, ao borrar a distinção entre humanidade e natureza, pode impedir responsabilizar o capitalismo. Malm o chama de “idealismo do tipo mais inútil”. Atribui agência a tudo e apoia o status quo com vitalismo. A prosa densa e anti-dualista às vezes vira impenetrável. Rejeita brechas modernas entre matéria e subjetividade. Slavoj Žižek vê nisso reafirmação da vitalidade natural, ignorando violência sistêmica do capitalismo. Críticos eco-marxistas dizem que des-socializa categorias e favorece individualismo neoliberal ao negar controle humano sobre processos.
O novo materialismo dialoga com o realismo especulativo. Quentin Meillassoux pensa o mundo pré-humano em Após a finitude (2006/2008). Graham Harman desenvolve ontologia orientada a objetos (2009). Ray Brassier escreve sobre niilismo em Nihil Unbound (2007). Iain Hamilton Grant revisita Schelling (2006). Timothy Morton descreve fenômenos planetários em Hyperobjects (2013). Aquecimento global transcende percepção individual.
Essas perspectivas ampliam a análise cultural para processos material-semióticos. Infraestruturas agem como agentes sociais. Steven Shaviro, em The Universe of Things (2014), pede pensar realidade além do humano. A matéria sempre atuou. O novo materialismo apenas restaura sensibilidade a isso.
Durante séculos a filosofia ocidental tratou o não-humano como pano de fundo. O novo materialismo mostra que o pano de fundo estava em movimento o tempo todo.
A matéria não espera instruções. Infraestruturas envelhecem. Ecossistemas respondem. Objetos desviam intenções. Tecnologias reorganizam práticas. A realidade não é palco. É participante.
O gesto dessas correntes é simples. O mundo não começou conosco. Não gira em torno de nós. Não terminará quando pararmos de interpretá-lo.
A filosofia, após longo período falando sobretudo de linguagem, volta a ouvir o ruído das coisas. Esse ruído nunca foi só ruído. Era atividade. Resistência. Transformação. Era o mundo agindo.
SAIBA MAIS
BARAD, Karen. Meeting the universe halfway: quantum physics and the entanglement of matter and meaning. Durham: Duke University Press, 2007.
BENNETT, Jane. Vibrant matter: a political ecology of things. Durham: Duke University Press, 2010.
BRASSIER, Ray. Nihil unbound: enlightenment and extinction. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995.
LATOUR, Bruno. Reassembling the social: an introduction to actor-network-theory. Oxford: Oxford University Press, 2005.
MALM, Andreas. The progress of this storm: nature and society in a warming world. London: Verso, 2018.
MEILLASSOUX, Quentin. Após a finitude: ensaio sobre a necessidade da contingência. São Paulo: Loyola, 2010.
MORTON, Timothy. Hyperobjects: philosophy and ecology after the end of the world. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.
SHAVIRO, Steven. The universe of things: on speculative realism. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014.
SKIVEREN, Tobias. Novo materialismo e o desafio eco-marxista: shadowboxing ontológico nas humanidades ambientais. Environmental Humanities, v. 15, n. 2, p. 181-194, 2023. DOI: 10.1215/22011919-10422355. Disponível em: https://read.dukeupress.edu/environmental-humanities/article/15/2/181/380192/New-Materialism-and-the-Eco-Marxist.

Deixe uma resposta