A história da medicina e das ciências da saúde

A história da medicina acompanha a transformação da própria ideia de corpo, doença e cuidado, bem como trocas entre povos e formulações de políticas públicas em saúde. Durante milênios, médicos, sacerdotes, alquimistas, anatomistas, farmacologistas e terapeutas disputaram explicações sobre sofrimento humano. Cada período reorganizou o modo como sociedades interpretavam sangue, febre, loucura, contágio, sexualidade, morte e cura.

Muitas das tradições médicas confundiam-se com mitologia e religião. Por volta de 1900 a.C., os papiros de Kahun, no Egito, registraram descrições de distúrbios comportamentais atribuídos a um “útero errante”. O corpo feminino aparecia como organismo instável e móvel. Medicina e mito ainda formavam um mesmo sistema explicativo. Apesar das interpretações mitológicas, já havia tentativas de reproduzir diagnósticos e tratamentos que funcionavam.

E as tradições acumularam milênios de experimentação por tentativa e erro. É o caso da farmacologia tradicional chinesa, a Matéria Médica, conjunto de conhecimentos que reúne milhares de substâncias utilizadas para diagnosticar, prevenir e tratar doenças. Essas substâncias incluem ervas, minerais e produtos de origem animal. Sua prescrição baseia-se na crença de propriedades energéticas e funcionais, além de efeitos bioquímicos.

Entre 460 e 370 a.C., temos o registro de Hipócrates preocupando-se menos com uma medicina da esfera sobrenatural e mais com a observação racional. Doenças passaram a serem vistas primordialmente como resultado de causas naturais ligadas ao ambiente e ao equilíbrio interno do corpo. A medicina hipocrática, no entanto, tinha uma base teórica tão mística quanto a religião grega, a teoria humoral. Saúde significava equilíbrio entre quatro fluidos: sangue, fleuma, bile negra e bile amarela. O médico deveria restaurar harmonia interna por meio de dieta, sangrias, exercícios e controle dos hábitos.

A medicina grega também desenvolveu escolas rivais. Os dogmáticos buscavam causas ocultas e raciocínios abstratos inspirados em Hipócrates. Os empíricos rejeitavam especulações invisíveis e defendiam observação direta da experiência clínica. Os metódicos interpretavam doenças como estados de contração ou relaxamento excessivo dos “poros” do corpo e procuravam métodos universais simples. Os ecléticos combinavam teorias de diferentes tradições sem fidelidade a um único sistema.

Entre 300 e 250 a.C., Herófilo, em Alexandria, demonstrou que o cérebro, e não o coração, constituía o centro do sistema nervoso. Erasístrato estudou o sistema vascular e aprofundou investigações anatômicas. A dissecação humana começou a desafiar crenças filosóficas antigas sobre funcionamento corporal.

Entre 130 e 200 d.C., Galeno de Pérgamo tornou-se a principal autoridade médica do mundo mediterrânico. Expandiu a teoria hipocrática para um sistema abrangente de anatomia, fisiologia e terapêutica. Como suas dissecações baseavam-se sobretudo em animais, Galeno cometeu vários erros anatômicos. Mesmo assim, sua síntese dominou a medicina ocidental e islâmica por cerca de quinze séculos. Discordar de Galeno equivalia a desafiar a própria ordem intelectual da medicina.

Plínio, o Velho, exemplificou a mistura antiga entre farmacologia, magia e observação natural. Em sua História Natural, recomendava tratamentos que combinavam ervas, superstições e práticas ritualísticas. Para dores de cabeça, sugeria amarrar na cabeça uma corda usada em suicídio. Morreu durante a erupção do Vesúvio enquanto observava o desastre.

A medicina medieval preservou parte da tradição clássica nos mosteiros europeus e a expandiu no mundo islâmico. Entre 541 e 542, a Peste de Justiniano devastou o Império Bizantino e produziu mortalidade em massa. Relatos da época descrevem estados de trauma psicológico que hoje lembram transtorno de estresse pós-traumático. Outra pandemia, a peste negra dos meados do século XIV, mudou a forma de pensar, inclusive com a dúvida sistemática de que a doença era uma benesse purgativa para o avanço moral da pessoa.

Entre os séculos VIII e IX, Hunayn ibn Ishaq traduziu sistematicamente textos médicos gregos para o árabe em Bagdá. Hipócrates e Galeno tornaram-se acessíveis ao mundo islâmico. Esse movimento criou a base intelectual para hospitais, farmacologia e medicina clínica islâmica.

Entre 865 e 925, Rhazes, também conhecido como al-Razi, diferenciou clinicamente varíola e sarampo. Introduziu pomadas de mercúrio e enfatizou observação dos sintomas. Em 1025, Avicena publicou O Cânone da Medicina. A obra sintetizou galenismo grego e observação clínica islâmica. Universidades como Salerno, Montpellier e Pádua adotaram o livro como texto fundamental, posição que se manteve até o século XVII por toda a Europa.

Em 1242, Ibn al-Nafis descreveu a circulação pulmonar e contradisse a teoria galênica segundo a qual o sangue atravessaria o septo cardíaco. Nicholas Myrepsus compilou no século XIII o Dynameron, enorme coleção farmacológica bizantina que preservou terapias humorais por meio da prática farmacêutica.

Entre os séculos XV e XVIII, anatomia, química e dissecação corroeram a ordem aristotélico-galênica. Em 1534, Thomas Elyot publicou The Castle of Health, compêndio médico em inglês voltado para leitores leigos. Em 1541, Paracelso argumentou que doenças provinham de agentes químicos externos e introduziu terapias minerais. A iatroquímica substituiu parte da medicina humoral por modelos químicos do corpo.

Em 1543, Andreas Vesálio publicou De humani corporis fabrica. A obra revolucionou a anatomia por meio da dissecação direta de cadáveres humanos. Com ilustrações que ainda nos impressona pelo valor artístico, Vesálio demonstrou erros anatômicos de Galeno acumulados durante séculos. Em 1546, Girolamo Fracastoro propôs que “sementes” invisíveis transmitiam doenças contagiosas. Sua teoria do contágio atacava diretamente o humoralismo ao sugerir que enfermidades vinham do exterior. Fracastoro também escreveu o poema Syphilis sive morbus Gallicus, origem do nome sífilis. Essa concepção antecedeu a bacteriologia moderna em vários séculos. Antes da aplicação ampla dessas teorias, os sistemas públicos de abastecimento de água do século XIX eram vetores da disseminação de febre tifoide e do cólera.

Em 1628, William Harvey demonstrou a circulação do sangue e provou que o coração atuava como bomba mecânica. O corpo humano começou a ser interpretado como sistema hidráulico regulado por fluxo e pressão.

No fim do século XVIII, Joseph Priestley e Antoine Lavoisier destruíram a antiga química dos quatro elementos ao identificar oxigênio e explicar combustão. Terra, ar, fogo e água deixaram de funcionar como fundamentos científicos. Como a teoria humoral derivava dessa cosmologia elementar, o sistema hipocrático perdeu sustentação lógica.

Em 1793, Edward Jenner desenvolveu uma vacinação eficaz contra varíola. A variolização ou inoculação, prática antiga do vale médio do Nilo, tinha chegado à Inglaterra por meio de Lady Mary Wortley Montagu. A imunologia nasceu da observação de que infecção prévia por varíola bovina podia proteger contra formas letais da doença humana.

A erradicação da varíola constituiu uma das intervenções médicas mais importantes da história humana. A vacina contra a doença tornou-se marco fundador da medicina preventiva moderna e contribuiu para o aumento da expectativa de vida global. A varíola, que antes matava centenas de milhares de pessoas por ano, foi combatida sistematicamente durante décadas até sua erradicação definitiva em 1980.

A inoculação da vacina teve mais sucesso ao substituir os lancetes por injeções. Tal instrumento remonta dos canudos e bulbo de borracha dos povos da Amazônia, notados pelos europeus no século XVIII.

Ainda sobre instrumentos, o século XIX deslocou a medicina da filosofia natural para laboratório, hospital e saúde pública. Em 1816, René Laennec inventou o estetoscópio. Médicos passaram a ouvir o interior do corpo sem contato direto. Na década de 1840, anestesia com éter e clorofórmio tornou cirurgias e partos menos dolorosos. A cirurgia deixou de ser experiência de choque físico imediato.

Avanços na maternidade ocorrem em Uganda quando os partos cesarianos foram documentados em 1879 pelo viajante e médico britânico R.W. Felkin. Na região de Banyoro, parteiras e médicas locais já realizavam o procedimento com sucesso, além de empregar práticas de antissepsia e anestesia.

O médico húngaro Ignaz Semmelweis descobriu, em 1847, que lavar as mãos com soluções cloradas antes dos partos evitava a febre puerperal. Suas práticas reduziram drasticamente a mortalidade materna, mesmo que tenha sofrido uma reação obscurantista contra sua descoberta. O cirurgião britânico Joseph Lister expandiu a esterilização médica nas décadas de 1860 e 1870. Conectando os estudos de Pasteur sobre bactérias com a putrefação de feridas, promoveu o uso do ácido carbólico para esterilizar as mãos dos médicos, o ar das salas operatórias e os instrumentos.

Ao longo do século XIX, tuberculose, alcoolismo e sífilis formaram uma “trindade selvagem” que dominava hospitais, prisões e discursos morais. A medicina passou a relacionar doença com pobreza, urbanização e degeneração social.

No final do século XIX, Louis Pasteur e Robert Koch estabeleceram a teoria microbiana das doenças. O paradigma mudou radicalmente. Doenças deixaram de representar desequilíbrios ou miasmas atmosféricos e passaram a ser entendidas como ataques de microrganismos específicos. O domínio intelectual de Hipócrates e Galeno chegou ao fim.

Em 1886, Richard von Krafft-Ebing publicou Psychopathia Sexualis e inaugurou o estudo sistemático da psicopatologia sexual. Em 1895, Wilhelm Röntgen descobriu os raios X e permitiu diagnóstico interno não invasivo. Em 1900, Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos e formulou o inconsciente como estrutura central da vida psíquica.

Em 1903, John Abel identificou a estrutura química da adrenalina. Em 1905, Ernest Starling introduziu o termo “hormônio” para designar substâncias mensageiras do corpo. A endocrinologia reorganizou a compreensão médica do metabolismo, crescimento e comportamento.

Em 1909, o brasileiro Carlos Chagas mapeou a etiologia e o ciclo completo de uma doença. Seria o único cientista na história da medicina a descrever sozinho uma doença infecciosa de ponta a ponta, desde o patógeno, o vetor, os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia. Se a vida talvez lhe fosse um pouco mais longa, quiçá teria encontrado a cura para a doença de Chagas.

Em 1910, Paul Ehrlich desenvolveu o Salvarsan, “Preparação 606”. Seria o primeiro tratamento eficaz contra sífilis e primeiro exemplo moderno de “bala mágica”, substância capaz de destruir um patógeno específico sem destruir o paciente. O conceito de toxicidade seletiva abriu caminho para antibióticos posteriores.

A descoberta e o uso da quinina alteraram história global, colonialismo e farmacologia. Extraída da árvore cinchona, a substância ofereceu o primeiro tratamento realmente eficaz contra malária. Impérios europeus puderam expandir-se por regiões tropicais da África, Ásia e Oriente Médio graças ao controle parcial da doença. Bernabé Cobo descreveu detalhadamente a cinchona no século XVII em sua Historia del Nuevo Mundo. O conhecimento botânico indígena foi incorporado às farmacopeias europeias.

A quinina também participou da construção de hierarquias raciais. No início do século XX, muitos brancos nos Estados Unidos defendiam que negros possuíam “imunidade natural” à malária. Essa crença justificava negligência estatal em políticas de saúde pública para populações negras. Charles S. Johnson demonstrou depois que mortalidade elevada relacionava-se a pobreza, habitação precária e densidade urbana, não a predisposição biológica racial.

A malária também influenciou história da ciência. Em 1858, Alfred Russel Wallace recuperava-se de uma crise de malária na Malásia quando formulou independentemente a teoria da evolução por seleção natural. Wallace enviou suas conclusões a Charles Darwin, estimulando a publicação de A Origem das Espécies.

As doenças epidêmicas passaram a serem contidas por técnicas das ciências sociais. Um dos casos célebres foi o mapa da cólera de John Snow. Os mapas registram a ascensão das técnicas estatísticas e epidemiológicas como instrumentos de proteção social. Em 1899, Alfred Fournier consolidou a sifilologia como especialidade médica ao utilizar dados epidemiológicos e estatísticos para demonstrar que doenças venéreas atingiam todas as classes sociais. Florence Nightingale avançou na profissionalização do cuidado mediante a enfermagem. Outra contribuição de Nightingale foi o uso de estatísticas, práticas baseadas em evidências e representações gráficas para a gestão de saúde.

Entre 1914 e o século XXI, medicina, química e tecnologia passaram a manipular diretamente os blocos fundamentais da vida. Entre 1907 e 1914, a identificação dos grupos sanguíneos A, B, AB e O por Jan Janský e a descoberta do citrato de sódio como anticoagulante transformaram a transfusão sanguínea em procedimento rotineiro durante a Primeira Guerra Mundial. A insulina foi descoberta em 1921 na Universidade de Toronto, no Canadá, quando Frederick Banting e Charles Best isolaram o hormônio e transformaram o diabetes de doença mortal em condição tratável.

Em 1940, Howard Florey, Ernst Chain e Norman Heatley realizaram testes bem-sucedidos com penicilina. A era dos antibióticos começou. Infecções antes fatais tornaram-se tratáveis.

Em 1929, Hans Berger desenvolveu o eletroencefalógrafo, primeiro instrumento capaz de registrar a atividade elétrica do cérebro vivo. O EEG abriu novas possibilidades para o diagnóstico de epilepsia e tumores cerebrais.

O ultrassom médico teve origem indireta em tecnologias militares. O sonar ativo, desenvolvido em 1917 para guerra antissubmarino, foi posteriormente adaptado para exames médicos. Em 1952, Herman Carr introduziu os princípios da ressonância magnética, utilizando campos magnéticos e ondas de rádio para produzir imagens de tecidos moles. A técnica seria refinada nas décadas seguintes. Em 1972, Godfrey Hounsfield e Allan Cormack desenvolveram a tomografia computadorizada, capaz de combinar raios X de múltiplos ângulos para gerar imagens seccionais do corpo.

A tomografia por emissão de pósitrons introduziu outro avanço importante. Nesse procedimento, voluntários inalam gases levemente radioativos, permitindo que computadores identifiquem quais regiões do cérebro apresentam maior atividade metabólica. Durante a década de 1960, técnicas de biofeedback passaram a converter processos fisiológicos, como atividade das glândulas sudoríparas ou dos vasos sanguíneos, em dados visuais. Isso permitiu que pacientes aprendessem a controlar respostas internas relacionadas ao estresse.

As tecnologias de suporte à vida transformaram a medicina clínica. Em 1943, Willem Kolff desenvolveu o primeiro rim artificial funcional, um sistema rotativo de diálise capaz de remover resíduos do sangue. Em 1953, John Gibbon inventou a máquina coração-pulmão, que oxigena e bombeia o sangue durante cirurgias cardíacas abertas. Em 1959, Rune Elmqvist desenvolveu o marca-passo implantável, pequeno dispositivo alimentado por bateria destinado a regular batimentos cardíacos.

Com o controle infectocontagioso e maior entendimento da imunologia, foram possíveis os transplantes. O primeiro transplante de coração bem-sucedido em humanos foi realizado em 1967, na África do Sul, pelo cirurgião Christiaan Barnard. No Brasil, no ano seguinte, o time liderado por Euríclides de Jesus Zerbini repetiu o feito.

A ética e o direito médico transformaram-se profundamente ao longo do século XX. A formulação do consentimento informado, o impacto do Nuremberg Code, as revelações sobre o Tuskegee Syphilis Study e os debates contemporâneos em bioética alteraram a relação entre médicos, pacientes e instituições científicas. A noção de que intervenções médicas exigem consentimento livre e esclarecido tornou-se princípio central da prática clínica e da pesquisa biomédica.

O desenvolvimento da biotecnologia ampliou ainda mais essas discussões. O Human Genome Project redefiniu a genética contemporânea ao mapear o genoma humano. A técnica de PCR revolucionou a amplificação de DNA e permitiu avanços em diagnóstico, medicina forense e pesquisa molecular. O sistema CRISPR de edição genética abriu caminho para intervenções precisas no genoma e reacendeu debates éticos sobre manipulação hereditária e engenharia genética. Os anticorpos monoclonais transformaram terapias contra câncer, doenças autoimunes e infecções, consolidando a medicina molecular como uma das principais fronteiras da ciência contemporânea.

A biotecnologia ampliou ainda mais essas possibilidades. As terapias com células-tronco passaram a utilizar a clonagem terapêutica para produzir células capazes de diferenciar-se em múltiplos tecidos. Essas células, descritas como “faz-tudo” do universo celular, foram identificadas como potenciais instrumentos para tratar doenças como Alzheimer e diabetes.

A fertilização in vitro marcou outro avanço decisivo. Em 1944, John Rock tornou-se o primeiro pesquisador a fertilizar um óvulo humano em laboratório. Em 1978 nasceu o primeiro “bebê de proveta”. Em 1983, Alec Jeffreys desenvolveu a técnica de impressão digital genética a partir de sequências repetitivas variáveis do DNA, transformando a medicina forense e os testes de paternidade.

A edição genética por CRISPR amadureceu durante a década de 2010 e abriu caminho para o tratamento de doenças genéticas antes consideradas incuráveis. Entre 2024 e 2026, interfaces cérebro-computador sem fio desenvolvidas por empresas como Neuralink permitiram que indivíduos paralisados controlassem cursores de computador e membros robóticos.

A cirurgia plástica moderna também resultou de circunstâncias históricas específicas. Muitas de suas técnicas evoluíram para tratar mutilações faciais sofridas por milhões de soldados na Primeira Guerra Mundial. Em 1996, o nascimento da ovelha Dolly demonstrou que mamíferos podiam ser clonados a partir de células corporais adultas. O experimento desencadeou debates contínuos sobre clonagem reprodutiva e terapêutica.

A partir dos anos 1950, psiquiatria e farmacologia reorganizaram entendimento da mente humana. Em 1949, John Cade descobriu efeito terapêutico do lítio sobre mania e transtorno bipolar. Em 1952, clorpromazina tornou-se o primeiro antipsicótico moderno e reduziu delírios e alucinações em pacientes esquizofrênicos. Em 1957, iproniazida e imipramina inauguraram farmacoterapia antidepressiva moderna.

Em 1960 surgiu o primeiro benzodiazepínico, clordiazepóxido, vendido como Librium. A droga substituiu sedativos mais perigosos no tratamento da ansiedade. No mesmo ano, a pílula anticoncepcional separou reprodução e sexualidade de maneira inédita na história humana.

Aaron Beck desenvolveu terapia cognitivo-comportamental entre as décadas de 1960 e 1970. Marsha Linehan criou terapia comportamental dialética para automutilação e transtorno de personalidade borderline entre as décadas de 1970 e 1990. Steven Hayes formulou terapia de aceitação e compromisso nos anos 1980. Psicoterapia passou a organizar-se em protocolos estruturados e verificáveis.

Em 1953, James Watson e Francis Crick publicaram o modelo helicoidal do DNA a partir dos dados produzidos por Rosalind Franklin. A biologia molecular passou a operar diretamente sobre informação genética. Em 1967, Christiaan Barnard realizou o primeiro transplante cardíaco humano.

Em 1981 surgiram os primeiros casos documentados de AIDS. A epidemia reorganizou debates sobre sexualidade, imunologia, biopolítica e pesquisa farmacêutica global.

Em 1987, fluoxetina, comercializada como Prozac, inaugurou a era dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina. Vieram depois sertralina, paroxetina, fluvoxamina, citalopram e escitalopram. Novas classes farmacológicas surgiram: SNRIs, antidepressivos atípicos, antipsicóticos atípicos, estabilizadores de humor, agentes glutamatérgicos e neuroesteroides.

A introdução da clozapina em 1989 redefiniu tratamento da esquizofrenia resistente. Risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol e outras drogas ampliaram possibilidades terapêuticas para esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão.

Nos anos 2010, psiquiatria ultrapassou sistemas monoaminérgicos clássicos. Cetamina e escetamina demonstraram efeitos antidepressivos rápidos em casos resistentes. Brexanolona e zuranolona introduziram modulação GABAérgica para depressão pós-parto e transtornos depressivos maiores.

A renascença psicodélica alterou pesquisa psiquiátrica contemporânea. FDA concedeu designação de terapia inovadora para MDMA no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático e para psilocibina em depressão resistente. Psicodélicos voltaram ao centro da pesquisa clínica em ambientes terapêuticos controlados.

O estudo do CBD percorreu trajetória semelhante. Roger Adams isolou CBD da Cannabis sativa em 1940. Raphael Mechoulam elucidou sua estrutura química em 1963. Em 1980, Mechoulam conduziu estudos clínicos sobre epilepsia. Entre 2004 e 2018, pesquisas sobre efeitos ansiolíticos, antipsicóticos e neuroprotetores cresceram rapidamente. Em 2018, FDA aprovou Epidiolex para epilepsia severa. Em 2019, ANVISA publicou RDC 327/2019 e regulamentou produtos medicinais derivados de cannabis no Brasil.

A prática das disciplinas da saúde funciona porque integram políticas públicas (ou a falta delas). Em âmbito internacional, a World Health Organization surgiu no período posterior à Segunda Guerra Mundial, momento em que a ciência era vista como força capaz de beneficiar toda a humanidade. A organização ampliou o conceito de saúde pública ao incluir saúde mental e bem-estar social em suas políticas. Em 1951, um relatório elaborado por John Bowlby sobre as necessidades de crianças sem lar alterou profundamente a maneira como governos concebiam o cuidado infantil. O documento influenciou a ampliação da licença-maternidade e reforçou a importância do vínculo entre mãe e filho nas políticas públicas.

Antes do Acordo TRIPS da World Trade Organization, firmado em 1994, tanto India quanto Brasil reconheciam apenas patentes de processo, e não patentes de produto, para produtos farmacêuticos. Isso permitia que empresas nacionais realizassem engenharia reversa e produzissem medicamentos genéricos bioequivalentes de fármacos patenteados em outros países. Esse modelo contribuiu para a formação da base industrial que posteriormente abasteceria grande parte do mundo.

Diante do aumento dos custos do programa universal de tratamento da AIDS pelo SUS, as utoridades brasileiras passaram a discutir abertamente a emissão de licenças compulsórias para produzir antirretrovirais patenteados no país. Em 2000, durante a International AIDS Conference, o diretor nacional do programa de AIDS do Brazil criticou duramente a pressão exercida pelos países ricos contra a produção de medicamentos genéricos e ofereceu ajuda a países africanos para ampliar seus programas de tratamento.

Em novembro de 2001, o Brasil desempenhou papel central na formulação da posição dos países em desenvolvimento para o que se tornaria a Doha Declaration on the TRIPS Agreement and Public Health. O documento afirmou o direito de cada país de definir o que constitui uma emergência de saúde pública e de utilizar licenças compulsórias. A aliança entre pesquisa e política pública em saúde deu salto enorme que, sem ele, não seria possível pensar na contenção da pandemia da COVID-19.

Em 2020, vacinas de mRNA contra COVID-19 validaram décadas de pesquisa genética e imunológica. Em 2024, Neuralink e outras empresas implantaram interfaces cérebro-computador sem fio em seres humanos. A medicina entrou numa fase em que genética, inteligência artificial, neuroengenharia e farmacologia convergem sobre o próprio sistema nervoso.

A ética e o direito médico transformaram-se ao longo das ciências da saúde. A formulação do consentimento informado, o impacto do Código de Nuremberg, as revelações sobre o Tuskegee Syphilis Study e os debates contemporâneos em bioética alteraram a relação entre médicos, pacientes e instituições científicas. A noção de que intervenções médicas exigem consentimento livre e esclarecido tornou-se princípio central da prática clínica e da pesquisa biomédica.

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Às margens da medicina

Atualizado em 25 de maio de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2025)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2025)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. A história da medicina e das ciências da saúde. Ensaios e Notas, 2025. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2025/10/14/a-historia-da-medicina-e-das-ciencias-da-saude/. Acesso em: 25 maio 2026.

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