O ciclo de Baal em Ugarit

Em 1928 um camponês sírio estava arando um campo quando descobriu acidentalmente uma tumba. Ironicamente, não pôde mais cultivar naquela área, pois se revelou ser uma cidade perdida, cujo deus principal, Baal-Hadad, era o protetor da agricultura.

A civilização ugarítica

A cidade descoberta era Ugarit, uma cidade-estado sírio-cananeia que floresceu entre 1800 e 1175 a.C. graças ao comércio, aproveitando de sua localização estratégica na costa norte da Síria.

Sua civilização possuiu uma literatura bem ampla. Com uma língua que é uma variante do antigo fenício ou hebraico, mas escrito em cuneiforme, há nos mitos e lendas ugaríticas menção do deus El, como senhor dos deuses e dos homens. Também surgem várias expressões poéticas paralelas a alguns poemas e salmos bíblicos, como a Canção do Mar (Êxodo 15) e salmos bíblicos (principalmente Salmo 82).

Na crise da Idade do Bronze, por volta do século 12 a.C. a cidade foi destruída por hordas como os povos do mar e nunca reocupada. Suas ruínas localizam-se em Tel Ras Shamra, cerca de dez quilômetros ao norte da moderna Latakia. As escavações arqueológicas francesas (e siro-francesas) desde 1929 (e que continuam até recentemente) fornecem evidências de uma ocupação contínua do local desde o Neolítico (8º milênio aC) até o final da Idade do Bronze (2º milênio aC).

Baal e baalim

A palavra semítica baal, da raiz b’l, significa como substantivo comum “dono”, “marido”, “senhor” e “mestre”. Também é um substantivo próprio para referir-se a diversas divindades semíticas, como Marduk recebe o apelativo Bel em acadiano.

Baal também tem os títulos “Cavaleiro das Nuvens”, “Todo-Poderoso” e “Senhor da Terra”. Ele é o deus da tempestade. Não é de admirar que Baal resida no tempestuoso Monte Zafon, ao norte de Ugarit, e geralmente é retratado segurando um raio.

Baal com o raio, descoberto em Ugarit

Como substantivo próprio refere-se ao deus Baal com domínio sobre as forças naturais, o clima e relações sexuais quando associado com sua consorte Astarte. Outros deuses além desse Baal específico, também eram chamados de “baals” (baalim), além manifestações locais com abundates registros na Bíblia Hebraica: Baal-Hadad na Síria, Baal-Berith em Siquém (Jz 9:4); Baal de Peor em Sitim (Nm 25:3); Baal Zebube de Ecrom na Filístia (2Rs 1:2-3), de onde vem o termo Belzebu (Senhor das Moscas); Baal de Hamom (Ct 8:11). Jezabel favoreceu em Samaria a adoração de Baal, deus de Tiro, o qual seria Baal Meqart ou Baal Shamen (1Rs 18:19).

Baal como Deus na Bíblia Hebraica

Na Bíblia há dezoito menções a baal sem especificar quem seria. Para complicar, até mesmo o Deus de Israel é, em raras ocasiões, chamado de baal. É nesse sentido que o termo parece em nomes de judeus, como o célebre Baal Shem-Tov (c. 1698 – 1760), o fundador do movimento hassídico. O termo hebraico baal-berit também é aplicado ao pai da criança em uma cerimônia de circuncisão (berit). Dentre os versos mais notórios dessa referência de Deus como baal são os seguintes, com traduções literais minhas:

Ou o teu Criador [é] o teu Baal, Yahweh Sabaoth é o seu nome, e o teu Redentor é o Santo de Israel, Deus de toda a terra, é chamado. Isaías 54:5.

Não como o concerto que fiz com seus pais, no dia [que] tomei pela mão para trazê-los fora da terra do Egito que eles romperam meu concerto, e eu era Baal para eles, diz Yahweh. Jeremias 31:32.

El zeloso e [que] vinga,
Yahweh vinga,
Yahweh e Baal furioso vingará,
Yahweh aos seus inimigos
e reservará
Ele [a vingança e a fúria] aos adversários. 
Naum 1:2.

E aconteceu, naquele dia, uma afirmação de Yahweh: Tu me chamarás – meu marido, e não me chamas mais – meu Baal. Oseias 2:16.

A denúncia ao culto a Baal aparece consistemente no período pré-exílico. Aparece no incidente de Peor (Nm 25), no ciclo de Elias e Jezabel (1Rs 16-22), na destruição do templo de Baal em Jerusalém na revolta contra Atalia (2Rs 11:18) e no conflito entre os adoradores de Yahweh e os seguidores de Baal (Jz 6:25-32; 1Rs 18:16-40).

O ciclo de Baal ugarítico

Em Ugarit, Baal aparece como uma divindade interessante. Chamado de Baal-Hadad, é o sucessor do deus El, o rei dos deuses e dos homens. Baal é o protagonista de um ciclo de mitos de Ugarit em uma coleção de tabuletas cuneirformes que são fragmentárias e ninguém sabe a ordem certa de leitura. Segue aqui uma reconstrução resumida.

Desejoso de construir seu palácio, Baal deve enfrentar a desordem, Yam. O deus do caos Yam também é identificado com monstros marinhos, particularmente o monstro de sete cabeças Lotan, comparável ao Leviatã. Esse motivo literário é chamado de Chaoskampf e aparece frequentemente associado em narrativas de criação, porém não na versão de Ugarit.

El transfere poder a Yam, mas ele domina tiranicamente os deuses e os homens. Os dominados reclama para sua mãe, Asserá, a senhora do mar. Eles a convenceram a confrontar Yam, a interceder em seu favor. Para libertá-los, Aserá, a deusa-consorte de El (e depois fundida com Anat), deve resignar-se a Yam.

Baal ficou furioso e jurou aos deuses que destruiria Yam. Munido com armas mágicas feitas pelo deus artesão, Kothar, Baal consegue superar Yam. Então, Baal é proclamado rei sobre os deuses.

Com ajuda das deusas Asserá e Anat, Baal consegue a aprovação de El para construir uma casa. O deus artífice Kothar realiza a construção. Depois de uma discussão sobre janelas (dilema eterna entre arquiteto e cliente), Baal celebra convidando os deuses para um banquete. A casa de Baal é extraordinária. Durante sete dias um incêndio queimou dentro do prédio e, quando cedeu, a casa foi banhada a ouro, prata e lápis-lazúli.

Outro conflito que aparece no ciclo de Baal é a batalha contra Mot, o deus da morte. Mot convida Baal para um banquete, mas o convidado também é o prato principal. Baal é devorado pela Morte. El e Anat lametam sua morte. Anat, ajudada pela deusa-sol Shapash, localiza e traz o corpo ao cume de monte Safão, a moradia de Baal. Anat, que é irmã e consorte de Baal além de patrona do amor e da guerra, demanda que Mot libere o morto. Diante da recusa, Anat destroçou Baal. Assim, Baal consegue retornar ao mundo dos vivos. El descobre em um sonho que Baal está vivo novamente. Mot também reaparece e enfrenta Baal. No entanto, Shapash, a deusa do sol, avisa Mot das consequências. Aparentemente, há uma separação das respectivas esferas de influência.

Aqui, Baal representa a fertilidade agrícola — particularmente a estação chuvosa outonal que segue as secas deletérias do verão — e faz com que as colheitas floresçam.

Importância e recepção

A descoberta da literatura ugarítica levou à óbvia comparação. Fora dos elementos comuns com a Bíblia Hebraica, fruto de um ambiente cultural comum, surgiram especulação de que as religiões abraâmicas e outras deviam mais ainda à mitologia semítica. A superinterpretação com paralelomania das mortes e renascimentos de Osíris, Baal e Adonis não tem base histórica ou textual, remontando das especulações de Frazer. As diferenças entre esses mitos sobressaltam as similaridades. O cientista da religião Jonathan Z. Smith, cuja dissertação de 1969 discute o Ramo Dourado de Frazer, considera esse paralelismo um equívoco baseado em reconstruções imaginativas e textos altamente ambíguos.

Outra importância do ciclo de Baal é que vários de seus textos possuem uma assinatura no colofão. O escriba Ilimilku escreveu (ou reescreveu e expandiu) o épico de Baal. É um dos mais antigos textos com visível voz de autoria identificável.

Estátua de Baal descoberta em Ugarit.

VEJA TAMBÉM

A civilização sírio-cananeia

A Babyloniaca de Berossus

Enuma Elish: o épico babilônico da criação

SAIBA MAIS

CRAIGIE, Peter C. Ugarit and the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1983.

SMITH, Mark S. The Origins of Biblical Monotheism: Israel’s Polytheistic Background and the Ugaritic Texts. Oxford: Oxford University Press, 2001.

WYATT, Nicholas. ‘There’s such Divinity doth Hedge a King’: Selected Essays of Nicolas Wyatt on Royal Ideology in Ugaritic and Old Testament Literature. Londres: Routledge, 2005.

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