A Babyloniaca de Berossus

Um daqueles livros que todo mundo cita, mas ninguém leu. Pelo menos a desculpa é aceitável, infelizmente a Babyloniaca do sacerdote e erudito mesopotâmico Berossus se perdeu. Porém, os fragmentos que nos alcançaram dão mostras de uma obra fascinante.

A junção da cultura helenística com a cultura cuneiforme foi fértil, mas logo a escrita alfabética e abjad dos gregos e arameus substituiriam o complicado sistema de escrita mesopotâmico. Berossus, (ou Beroso, ou ainda, Bêl-re’ušunu para quem lê acadiano) era fruto dessa polinização cruzada. O sacerdote de Bel (Marduk) teria vivido a conquista de Alexandre, o Grande, e durante o reinado de  Antíoco I Soter (281-261 a.C.), o primeiro da dinastia selêucida. Teria vivido na ilha de Cós, onde ensinou astronomia, ou as “artes dos caldeus”, isto é, a astrologia.

Propondo compilar a história dos povos mesopotâmicos com base nos arquivos, Berossus empregava a historiografia dos gregos em três livros. O primeiro livro da história babilônica de Berossus descreve a criação do mundo e da humanidade, similar ao épico Enuma elish e do herói civilizador Oannes, que ensinou as ciências, a escrita e a tecnologia aos seres humanos. O livro segundo conteria a história da Babilônia até o dilúvio até o reinado de Nabonassar (747-734 a.C.). O livro terceiro registra a história até a conquista de Alexandre. Entretanto, a visão de mundo de Berossus não correspondia exatamente às pretensões historiográficas do gregos. Sua Babyloniaca seria um compêndio da sabedoria babilônica, contendo discursos alegóricos cosmogônicos e cosmológicos, bem como crônicas reais. Registra assim, o inicío da civilização não como evento histórico, mas mítico.

O declínio dos estados da Mesopotâmia, afogados entre os impérios do planalto iraniano e os da bacia do mediterrâneo, fez que o interesse pela obra fosse mínimo. Assim, não houve interesses em preservá-la, exceto por citações fragmentárias de partes similares às narrativas mitológicas greco-romanas ou paralelas às narrativas bíblicas. O trecho que se segue é de quinta mão, na melhor das hipóteses. Provêm de uma tradução armênia do Chronicon de Eusébio de Cesareia, uma obra igualmente perdida em sua totalidade. E Eusébio utilizou fontes indiretas, as notas de Abydenus (um discípulo de Aristóteles) das histórias de Cornélio Alexandre Polyhistor, do século I, que por sua vez teria extraído de outros autor, o obscuro Posidônio de Apamea. Jorge Sincelo, um monge e cronista bizantino do século VIII, redigiu uma história universal desde Adão, baseando-se em Eusébio. Além de ser fonte para a Babyloniaca, Jorge é fonte de outra história helenista semelhante, a Aegyptiaca, de Maneton.

O fascínio por Berossus ressurgiu no Renascimento. Um espertalhão, o frade dominicano Giovanni Nanni ou João Ânio de Viterbo, falsificando uma história e atribuíndo-a ao autor caldeu. Até que a escrita cuneiforme fosse decifrada, Berossus foi tido como uma das únicas fontes primárias (!) sobre os antigos mesopotâmicos.

Em português, Santiago Colombo Reghin (2019) traduziu a compilação dos fragmentos editadas em inglês e situou a Babyloniaca em um contexto selêucida e com provável função de dar bases ideológicas de continuidade no novo império.


INTRODUÇÃO

Berossus, no primeiro livro de sua história da Babilônia, informa que ele viveu na época de Alexandre, filho de Filipe. E ele menciona que havia relatos escritos, preservados na Babilônia com o maior cuidado, compreendendo um período acima de 150 mil anos: e que esses escritos continham histórias do céu e do mar; do nascimento da humanidade; e dos reis, e dos feitos memoráveis ​​que eles realizaram.

A GEOGRAFIA DE BABILÔNIA

E, em primeiro lugar, ele descreve a Babilônia como um país situado entre o Tigre e o Eufrates: que abundava em trigo, cevada, lentilhas, grão de bico e gergelim; e que nos lagos foram produzidas as raízes chamadas gongas, que são próprias para alimentação e  semelhantes à cevada. Que também havia palmeiras e maçãs e uma variedade de frutas; também peixes e pássaros, tanto terrestre quanto os que dos pântanos.

Acrescenta que aquelas partes do país que faziam fronteira com a Arábia eram sem água e estéreis; mas que as partes do outro lado eram montanhosas e férteis.

Na Babilônia, havia uma grande multidão de várias nações, que habitavam a Caldeia, e viviam de um modo sem lei, como as bestas do campo.

O HERÓI CIVILIZADOR OANNES

Oannes

No primeiro ano, apareceu aquela parte do mar Eritreu  [Vermelho, atual golfo Pérsico], que faz fronteira com a Babilônia, um animal desprovido de razão, chamado Oannes. Seu corpo inteiro era o de um peixe; mas que embaixo da cabeça do peixe ele tinha outra cabeça, com pés também embaixo, semelhantes aos de um homem, subordinados à cauda do peixe. Sua voz e linguagem também eram articuladas e humanas; e uma representação dele é preservada até hoje.

Este ser estava acostumado a passar o dia entre os homens; mas não consumia comida deles. Ele lhes deu uma visão sobre letras, ciências e artes de todo tipo. Ele os ensinou a construir cidades, fundar templos, compilar leis e explicar-lhes os princípios do conhecimento geométrico. Ele os fez distinguir as sementes da terra e mostrou-lhes como colher os frutos. Em suma, ele os instruiu em tudo o que poderia  suavizar as maneiras e humanizar suas vidas. Desde então, nada foi acrescentado como forma de aprimoramento às suas instruções. E quando o sol se punha, este ser Oannes se retirava novamente para o mar e passou a noite no fundo; pois ele era anfíbio. Depois disso, apareceram outros animais como Oannes, dos quais Berossus propõe relatar quando se trata da história dos reis. Além disso, Oannes escreveu sobre a geração da humanidade; e de sua política civil. E o seguinte contém que ele contou:

A COSMOGONIA

“Houve um tempo em que não existia nada além de trevas e um abismo de águas.

Nessa água residiam a maioria dos seres hediondos, produzidos de um princípio duplo. Apareceram homens, alguns dos quais equipados com duas asas, outros com quatro. E tinham duas faces: tinham um corpo, mas duas cabeças: a de um homem e a outra de uma mulher; e da mesma forma em seus vários órgãos, tanto homens quanto mulheres. Outras figuras humanas eram vistas com as pernas e os chifres de cabras: algumas tinham pés de cavalo. Enquanto outros serem uniam os quartos traseiros de um cavalo com o corpo de um homem, assemelhando-se à forma dos hipocentauros.

Touros da mesma forma nasciam com cabeças humanas e cachorros com quatro corpos e cauda de peixe crescendo de seus traseiros, cavalos com cabeças de cachorros e homens, e cavalos também com cabeças de cães. Homens também e outros animais, com cabeças e corpos de cavalos e caudas de peixes. Em resumo, havia criaturas nas quais se combinavam os membros de todas as espécies Além disso, os peixes, répteis, serpentes, com outros animais monstruosos, que assumiam a forma e a aparência uma do outro.  Foram preservados esboços de todos no templo de Bel na Babilônia.

A pessoa que os presidia era uma mulher chamada Omorca; que na língua caldeia é Thalatth [Tiamat], no grego Thalassa, o mar; mas que pode igualmente ser traduzido como a lua.

Tudo estava [Tiamat] fundido nessa situação, Bel veio e cortou a mulher em pedaços.  De uma metade dela ele formou a terra e da outra metade os céus. Enquanto isso destruía os animais dentro dela. Tudo isso seria uma descrição alegórica da natureza. Pois, todo o universo provém da umidade e animais são continuamente gerados nela.

Esse deus acima arrancou sua própria cabeça. Os outros deuses misturavam o sangue que jorrou com a terra. Dali foram formados homens. Por essa razão, é que eles são racionais e participam do conhecimento divino. Este Bel, a quem eles chamam de Júpiter, dividiu a escuridão, separou os céus da Terra e ordenou o universo. Mas os animais, não sendo capazes de suportar o domínio da luz, morreram.  Acerca disso, Bel vendo uma vastidão desocupada, embora por natureza frutífera, ordenou a um dos deuses que retirasse sua cabeça e misturasse o sangue com a terra. Assim, daí formou outros homens e animais, capazes de suportar o ar.

Bel também formou as estrelas, o sol, a lua e os cinco planetas.

O DILÚVIO

Após a morte de Ardates, seu filho Xisouthros [Ziusudra] reinou dezoito saroi. No total são dez reis e cento e doze saroi.

Em seu tempo aconteceu um grande dilúvio; cuja história é assim descrita.

O deus Cronos [Enki/Ea] apareceu a ele em uma visão, e advertiu-o de que no décimo quinto dia do mês de Daisios haveria um dilúvio, pelo qual a humanidade seria destruída. Portanto, ele o ordenou a escrever uma história do começo, os intermédios e os fins de todas as coisas; e enterrá-los na cidade do Sol em Sippar.

E [ordenou] construir um barco e levar consigo seus amigos e parentes. E carregar a bordo tudo o que é necessário para sustentar a vida, juntamente com todos os diferentes animais; pássaros e quadrúpedes. E deveria confiar em si mesmo sem medo das profundezas.

Perguntou ao deus “para onde ele deveria navegar?”, obteve a resposta “aos Deuses”, aos quais ele fez uma oração pelo bem da humanidade. Então obedeceu à advertência divina: e construiu um barco de cinco estádios de comprimento e dois de largura. Nele colocou tudo o que havia preparado. Por último, embarcaram ele, sua esposa, filhos e amigos. As coisas dos deuses vieram diretamente até ele.

No terceiro dia depois do dilúvio, [as águas] rapidamente recuaram. Xisouthros enviou pássaros do navio; que, não encontrando comida nem lugar para descansar os pés, voltaram a ele. Após um intervalo de alguns dias, ele os enviou uma segunda vez; mas agora voltaram com os pés tingidos de lama. Ele fez um teste pela terceira vez com esses pássaros; mas eles não voltaram mais: desse modo concluiu que a superfície da terra já havia emergido das águas.

Ele, em seguida, fez uma abertura no barco e, ao olhar para fora, descobriu que estava preso ao lado de alguma montanha. Aí ele imediatamente desembarcou com a esposa, a filha e o piloto. Xisouthros então prestou sua adoração à terra: e tendo construído um altar, ofereceu sacrifícios aos deuses e, com aqueles que haviam saído do barco com ele, desapareceram.

Eles, que permaneceram lá dentro, descobrindo que seus companheiros não voltaram, deixaram o navio com muitas lamentações e invocaram continuamente o nome de Xisouthros. A ele não viram mais; mas eles podiam distinguir sua voz no ar, e podiam ouvi-lo exortando-os a prestar a devida reverência. Também lhes informou que foi por causa de sua piedade que ele foi transladado para viver com os deuses; que sua esposa e filha, e o piloto, obtiveram a mesma honra. Também acrescentou que eles deveriam retornar à Babilônia. Como foi ordenado, que procurassem as escrituras em Sippar, que eles deviam dar a conhecer a toda a humanidade. Também contou que o local em que estavam então era a terra da Armênia. Eles, tendo ouvido essas palavras, ofereceram sacrifícios aos deuses; e tomando o caminho à pé viajaram em direção a Babilônia.

O navio, portanto, ficou encalhado na Armênia, parte dele ainda permanece nas montanhas Korduaians da Armênia. Ainda o povo raspa o betume com o qual fora revestido externamente o barco, trazendo de volta para usar como talismãs.

E quando voltaram para Babilônia, e encontraram os escritos em Sippar, construíram cidades e ergueram templos. E assim Babilônia foi habitada novamente.

George Syncellus. Chronicon 28. – Eusebio de Cesareia. Chronicon 5. 8

A ESCATOLOGIA

Alguns pensam que na catástrofe final a Terra também será sacudida. Por meio das fendas no chão descobrirão as fontes dos rios de águas frescas que fluirão da sua fonte em grande volume. Berossus, o profeta de Bel, afirma que tudo isso ocorre conforme o trajeto dos planetas. Ele assegura e afirma uma data definitiva tanto para esse cataclisma e o dilúvio.

Sêneca Naturales Quaestiones 3.29.1

SAIBA MAIS

BURNSTEIN, Stanley Mayer. The Babyloniaca of Berossus. Sources and Monographs
Sources from the Ancient Near East. volume 1, fascicle 5. Malibu, 1978.

DILLERY, John.  Clio’s other sons: Berossus and Manetho. The University of Michigan Press, 2015.

GMIRKIN, Russell. Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch. Bloomsbury Publishing USA, 2006.

REGHIN, Santiago Colombo. Berossus entre o templo e o império: as relações da Babilônia e os selêucidas a partir da Babyloniaca (séc. III a.C.). Trabalho de Conclusão de Curso de graduação em História.  Universidade Federal de Santa Catarina. 2019.

VERBRUGGHE, Gerald; WICKERSHAM, John. Berossus and Manetho: Native Tradition in Ancient Mesopotamia and Egypt. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996.

VEJA TAMBÉM

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Enuma Elish: o épico babilônico da criação

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