
Curitiba foi uma cidade que, por breve período, tentou competir com o Rio de Janeiro e São Paulo na produção de um pensamento emancipado dos dogmas. Foi um lugar onde poetas, maçons, positivistas, neoplatônicos e pitagóricos conviveram em tensão produtiva. Ali, a República era mais que regime político. Era um projeto civilizatório.
Curitiba nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX, tinha uma elite confiante em uma modernidade laica e humanista no coração do Paraná. Compreender o que a cidade se tornou exige compreender o que houve.
A plêiade e o espírito da época
A proclamação da República, em 1889, abriu possibilidades. A separação entre Igreja e Estado, inscrita na Constituição de 1891, criou o ar de que precisava uma geração ansiosa para pensar sem tutela clerical.
Em Curitiba, essa geração floresceu com força própria. Emiliano Perneta, o chamado príncipe dos poetas do Paraná, Emílio de Menezes com humor anticlerical, Euclides Bandeira, Rocha Pombo, Nestor Victor e Teixeira Braga formaram uma constelação literária que não se limitava ao simbolismo. Fundavam revistas, mantinham polêmicas, sustentavam cultura pública laica. O Cenáculo, de 1895, a Esphynge, de 1899, e o Club Coritibano circulavam entre uma intelligentsia decidida a pensar sem imprimatur religioso.
Ao contrário da imagem de intelectuais alheios ao mundo, o grupo ao redor da revista O Cenáculo tomou a liderança da vanguarda social e cultural paranaense. Os cenaculistas emergiram das próprias entranhas da cidade operária. Eram tipógrafos, amanuenses, filhos de operários e autodidatas que conquistaram o papel e a tinta pela voracidade da leitura em uma Curitiba. Essa condição de classe, longe de neutralizar seu engajamento, radicalizou-no: quando a Revolução Federalista eclodiu no Rio Grande do Sul e suas ondas atingiram o Paraná, poetas como Júlio Pernetta, pegaram em armas, enquanto Dario Vellozo, tipógrafo e encadernador, servia na Guarda Nacional, fazendo do simbolismo local uma poesia que respirava o pólvora e a angústia social.
Três décadas depois, brotaria o paranismo. Se os cenaculistas buscavam no misticismo e na poesia francesa uma identidade ainda indefinida, a geração paranista dos anos 1920 e 1930 traduziria para o paladar popular. Valorizaram o pinhão, a erva-mate e a gralha-azul.
Entre esses intelectuais, um se destacava por síntese ousada de anticlericalismo, pedagogia laica, esoterismo filosófico e helenismo. Seu nome era Dario Persiano de Castro Vellozo.
Dario Vellozo: o sacerdote laico
Nascido no Rio de Janeiro, em 1869, Dario chegou a Curitiba aos dezesseis anos. Ligado cedo à literatura e à imprensa, trabalhou como encadernador e tipógrafo no jornal Dezenove de Dezembro e fez amigos entre escritores e professores. Fundou revistas como Azul, de 1893, o Club Coritibano, O Mosqueteiro, A Esphynge e o Cenáculo. Sua figura não se enquadrava em categorias simples. Era maçom e martinista, helenista e espiritualista, pedagogo republicano e adepto de saber iniciático.
Na Curitiba do fim do século, essa combinação parecia coerente. O elemento unificador era a recusa ao dogmatismo romano. Para Dario, espiritualidade e liberdade de pensamento caminhavam juntas.
Entre 1889 e 1920, publicou mais de vinte livros, incluindo poesia, ficção, ensaios e polêmicas anticlericais. Derrocada Ultramontana, de 1905, Voltaire: Polêmica e Crítica, do mesmo ano, e Moral dos Jesuítas, de 1908, expressavam combate ao obscurantismo.
Ao mesmo tempo, obras como Esothéricas, de 1900, e Da Therapeutica Occulta, de 1915, revelavam sua vertente espiritualista. Não via contradição. A gnose era antídoto à fé cega. O saber iniciático era contraponto ao catecismo. Lecionou no Ginásio Paranaense a partir de 1899 e criou a Escola Brasil Cívico em Rio Negro, em 1913, com disciplinas teóricas e cursos profissionalizantes de agricultura, comércio, artes e indústria. Para seus biógrafos, a escola moderna deveria ser laica, pública, profissionalizante e obrigatória. Era o projeto iluminista em clima tropical.
O Instituto Neopitagórico e o Horto de Lysis
O coroamento da trajetória intelectual e espiritual de Dario foi a fundação do Instituto Neopitagórico do Paraná, entidade ainda existente em Curitiba. Representou tradição duradoura de pensamento não dogmático no país.
Dario defendia ideais pitagóricos e no Instituto promovia festas, peças teatrais e musicais inspiradas em cultos gregos. Incentivava a publicação de livros e revistas. O neopitagorismo não era arqueologia. Era programa de formação humana.
Pitágoras simbolizava para ele a síntese entre razão e espiritualidade, ciência e beleza, ética e cosmologia. Considerava que o catolicismo havia sufocado essas dimensões ao longo dos séculos.
As reuniões no Templo das Musas, conhecido como Horto de Lysis, eram encenações rituais de helenismo sonhado. Mulheres com vestes de musas, leituras poéticas, meditações filosóficas e celebrações da Primavera compunham o ambiente.
Fotografias desses encontros revelam qualidade onírica, como se uma Grécia reinventada tivesse brotado no planalto paranaense. A dimensão mística de Dario incluía também o Movimento Martinista.
Recebeu no Horto de Lysis a visita do Conde Albert Costet de Mascheville, fundador da Ordem Martinista do Brasil. Essa convergência entre martinismo, maçonaria, pitagorismo e helenismo não expressava ecletismo sem direção. Buscava uma filosofia perene acima das fronteiras religiosas.
O Instituto sobreviveu ao fundador e existe até hoje. O sítio pitagorico ponto org ponto br oferece cursos de filosofia, mística e autoconhecimento. É herança que atravessou um século de pressões.
O positivismo como projeto político: o Centro Positivista do Paraná
Enquanto Dario desenvolvia sua obra espiritual e filosófica, outros membros da plêiade se dedicavam a projeto político de transformação social marcado pelo positivismo de Comte.
Júlio Perneta, David Carneiro, Nilo Cairo e Benjamin Lins mantinham o Centro Positivista do Paraná, vinculado à Igreja Positivista do Brasil, fundada por Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes no Rio de Janeiro.
O Centro buscava substituir a religião revelada por religião da Humanidade baseada em ciência e solidariedade. Sediado na Rua Marechal Floriano, o Centro foi um dos focos irradiadores da cultura republicana laica paranaense.
Seus membros defendiam ordem científica e progresso moral como horizonte da civilização. Acreditavam que cabia à República construir esse futuro sem amarras clericais.
Foram esses positivistas que fundaram a Universidade do Paraná, em 1912, atual UFPR. Benjamin Lins, Nilo Cairo e Júlio Perneta assinaram o ato de fundação da universidade, comprometida com ciência e saber laico. Era a institucionalização do projeto iluminista no Paraná.
A paisagem esotérica: Rosacruz, Egito e Evola
A Curitiba intelectual não se restringia ao positivismo e ao neopitagorismo. A cidade abrigou instituições que testemunhavam diversidade de tradição heterodoxa.
Rodava pelos arredores de Curitiba, Magnus Sondhal, a quem Raimundo Magalhães Júnior chama de um “maníaco do ocultismo”. O excêntrico islandês-brasileiro também publicou um método de alfabetização aprovado pelos conselhos de instrução pública do Paraná.
O Museu Egípcio da Antiga e Mística Ordem da Rosa Cruz, instalado em Curitiba, é um dos poucos museus dedicados à arte e filosofia do Egito no Brasil. Une preservação cultural, filosofia iniciática e estética distinta.
Mais recentemente, surgiu o Centro de Estudos Evolicanos e Neoplatônicos. Obviamente, não seria algo liberal um movimento dedicado ao pensamento de Julius Evola. Contudo, era um questionamento ao dogmatismo.
O Centro Humanístico Aníbal Silveira completa esse panorama de resistência ao pensamento único, honrando memória de figura importante da vida intelectual livre do Paraná e pioneiro da psiquiatria.
Essas instituiçõespermanecem como fragmentos de tradição de liberdade intelectual que Curitiba, em seu melhor momento, tentou transformar em projeto.
A reconquista clerical
A reação não deu trégua. A Igreja Católica ultramontana percebeu a ameaça que a República laica e a intelectualidade livre representavam. Respondeu com instrumentos que conhecia: educação dos jovens, controle das famílias e alianças políticas. Em Curitiba, isso assumiu formas precisas.
Foi criado o bispado, surgiram revistas e folhas clericais e o Círculo de Estudos Bandeirantes. O Círculo pretendia combater pensamento livre com doutrina tomista e reafirmava a escolástica medieval como horizonte intelectual. A estratégia era clara. Se a geração dos pais escapara ao controle, era necessário alcançar os filhos. O método funcionou.
Às famílias de pais agnósticos ou céticos seguiram-se filhos educados em colégios religiosos, moldados pela doutrina, integrados em redes católicas. O processo lembrava o que Tocqueville descreveu na França pós-revolucionária: desmonte de elites laicas exigia tempo.
A paciência católica era lenta como erosão de rocha. Em poucas gerações, filhos de deístas tornaram-se netos devotos. Curitiba repetiu esse ciclo.
A cidade que havia produzido Dario Vellozo, os positivistas fundadores da UFPR, a constelação simbolista e o fermento neopitagórico tornou-se, ao longo do século XX, uma das capitais mais devotas do Brasil, com colégios confessionais prestigiados, procissões e deferência social às hierarquias religiosas.
SAIBA MAIS
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Atualizado em 29 de abril de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Curitiba: da plêiade simbolista ao ocaso do pensamento livre. Ensaios e Notas, 2022. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2022/04/01/curitiba-da-pleiade-simbolista-ao-ocaso-do-pensamento-livre/. Acesso em: 29 abr. 2026.

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