Aldo Manúcio e as edições Aldinas

Aldus Manutius

Festina lente – Apressa-te devagar.

Fundada em 1494, em Veneza, pelo erudito humanista Aldo Pio Manuzio ou Manúcio, em latim Aldus Pius Manutius (1449-1515), as edições aldinas marcam o fim da era dos incunábulos. Desde a impressão da Bíblia por Gutenberg em 1450 a primeira geração dos livros impresso seguiam muitos aspectos dos códices manuscritos, mas deixavam muito a desejar em qualidade quando comparados com o trabalho dos copistas. Seria com Manúcio que se firmou o livro “moderno”, tendo a capa dura, folha de rosto com a indicação da editora (In aedibus Aldi), sumário, colofão (um golfinho entrelacado em uma âncora), paginação padronizada e simples, uso de letras capitulares decoradas, o formato octavo que revolucionou o modo ler visto sua portabilidade. Desde então, o livro não era mais um objeto a ser confinado nas bibliotecas.

O humanista e editor

Festina lente

Professor e gramático de grego e latim, o classicista Aldo Manúcio dava aulas para Alberto Pio, sobrinho de Pico della Mirandola que se tornaria senhor da cidade de Carpi, quando apareceu a oportunidade de se estabelecer em Veneza.

Veneza era uma república que já enfrentava suas dificuldades. Veneza, sendo uma república marítima, já mantinha postos comerciais e domínio em várias ilhas gregas, tornando-se um destino natural para vários refugiados. Mas as novas rotas dos concorrentes ibéricos deslocaram o centro do poder do Mediterrâneo para o Atlântico. Se a queda de Constantinopla em 1453 permitiu a vinda de refugiados cultos que trouxeram manuscritos e conhecimentos filológicos gregos, a ameaça otomana para os postos comerciais venezianos no Adriático e Mediterrâneo oriental era cada vez mais perigosa. Ainda por cima teve a praga de 1498. A campanha de Carlos VIII da França na Itália em 1494 resultou no choque com as ambições políticas do devasso papa Alexandre VI. Entre 1497 surge o revolucionário (e anti-humanista) movimento de Savonarola em Florença. Por fim, ainda a Liga de Cambrai entraria em guerra contra Veneza em 1508. A Reforma estava por começar em 1517.

O impressor alemão Giovanni da Speyer abriu a primeira oficina gráfica em Veneza em 1469 e a cidade dos canais se tornou o principal centro de produção de livros impressos. No começo do século XVI, cerca de 150 impressores venezianos produziram cerca de 4.000 títulos, duas vezes a mais que Paris e quase 15% da produção europeia do livro. (LOWRY, 2000). E Manúcio era o principal deles.

Os librarios reagiram criticando a qualidade dúbia do texto impresso. “Agora a gente que não sabe ‘taliano vai te ensinar a falar Tuliano” era o meme da época. A influência dos bibliotecários-copistas era tanta que em 1515 a Biblioteca Marciana recebeu a prerrogativa (impossível de se cumprir) de corrigir todos os textos impressos na cidade.

A reclamação dos librarios não era infundada. Realmente a qualidade dos incunábulos em geral era bem amadora. Mas seria Aldo Manúcio quem moveria uma revolução editorial. Seu trabalho reunia as técnicas tipográficas em franco desenvolvimento em Veneza com um esmerado trabalho filológico que o humanista já tinha experiência

Aldo era um estudioso do grego e amigo de Pico della Mirandola. O amigo humanista recomendou-o como tutor de seus sobrinhos Alberto e Leonello Pio, príncipes da pequena república de Carpi. Para fins didáticos e filológicos, preparou três livros entre 1487 e 1491 para publicação em Veneza. Seu trabalho atraiu alguns editores na cidade dos canais e foi convidado a participar de um empreendimento.

Com financiamento de Alberto Pio de Carpi e apoio de Pier Francesco Barbarigo, sobrinho do doge de Veneza, Manúcio entrou em sociedade em uma oficina tipográfica comprada da viúva de um impressor. Seu sócio foi o habilidoso Andrea Torresano, com cuja filha Manúcio se casaria. Aldus e seus sucessores, Paolo Manuzio e Aldo Manuzio, o Jovem, publicaram vinte e oito primeiras edições de textos gregos e a editora publicaria textos clássicos até 1595.

Começou com a publicação das obras completas de Aristóteles em cinco volumes entre 1495 e 1498, com o trabalho-referência de Ermolao Barbaro (1454 –1493).

Fiel ao princípio ad fontes do humanismo renascentista, sua edição dos clássicos não continha comentários ou aparatos críticos. Auxiliava o leitor um prefácio, que de qualquer forma não ajudava muito o leigo, visto que era em grego e raramente em latim. Fomentava a produção filológica, mas privilegiava o texto grego de um só manuscrito que considerasse melhor. Raramente cotejava com outros manuscritos e isso somente em trechos que suscitavam dúvidas. Com a mente nos clássicos, não desprezou seus contemporâneos. É devido a Manúcio a propagação da literatura vernácula, tendo publicado Dante, Petrarca, Bembo e Erasmo.

A editora Aldina era um misto de oficina, pensão, centro de pesquisa. Com seus contatos, Aldo criou a Accademia Aldina, da qual participaram Erasmo de Roterdã e Pietro Bembo. Entre 1503 e 1508 participaria dessa Academia o helenista Janus. Láscaris que providenciou várias editio princeps gregas, embora não haja nada creditado a ele no catálogo da imprensa aldina. Outro colaborador helenista foi Marcus Musurus.

Encomendou ao tipógrafo Francesco Griffo (1450-1518) uma fonte grega, inspirada na minúscula cursiva dos copistas bizantinos. Também se deve a ele a invenção do tipo itálico, estreando com uma edição de Virgílio, publicada em 1503.

Em 1502 ganhou do Senado de Veneza o monopólio para publicar em grego e em latim com a fonte itálica de Griffo. Francesco Griffo não ficou nenhum pouco contente com essa apropriação exclusiva de sua fonte tipológica e começou a fazer edições “piratas” com a tipologia que criara.

A fama de sua imprensa correu logo. Porém, logo também surgiram os imitadores. Impressores piratas, especialmente em Lyon, passaram a imitar o trabalho de Manúcio. Apesar dos apelos às autoridades, não conseguiu conter a contrafação da concorrência. Contudo, criaria mais uma novidade editorial: o catálogo de suas publicações. Nesse instrumento informava potenciais compradores sobre os títulos novos e dava dicas para distinguir o produto verdadeiro dos livros falsos. E seus clientes eram influentes: Federigo Gonzaga, Isabella d’Este, Lucrezia Borgia e o papa Leão X.

Hypnerotomachia Poliphili

Saiu de suas prensas o enigmático Hypnerotomachia Poliphili (1499), ou A luta de amor no sonho de Polifilo. A obra ganhou destaque pela sua qualidade, consolidando o padrão de Manúcio em termos de design editorial e tipográfico. Atribuída a Francesco Colonna, a obra é uma antecessora das “graphic novels”. Nela o jovem Polifilo busca sua amada, a ninfa Polia, dentro de um sonho. Atravessa por florestas sinistras, cidades e labirintos encontrando seres divinos e mitológicos. Para complicar, há textos em latim, grego, hebraico, árabe e ilustrações que imitam os hieróglifos egípcios. É uma obra síntese do Renascimento: trata do amor, das artes, da Antiguidade Clássica, da filologia, dentre outros aspectos.

* * *

A imprensa Aldina foi responsável pela a segunda fase do Renascimento: aquela que viu a popularização do resgate dos valores estéticos, morais e conceituais da Antiguidade greco-romana. Na esteira de seu trabalho, os livros de Platão, Aristóteles, Cícero, Plínio saíram dos confins das bibliotecas universitárias e conventuais. Surgiu uma cultura clássica secularizada.

 

SAIBA MAIS

Barolini, Helen. 1992. Aldus & His Dream Book: An Illustrated Essay. New York: Italica.

Boorstin, Daniel Joseph. 1985. The Discoverers: A History of Man’s Search to Know World and Himself. New York: Vintage.

Colonna, Francesco. 1499. Hypnerotomachia Poliphili. Venezia: Aldus Manutius. Edição fac-simile. Cotia: Ateliê editorial.

Columna, Franciscus, O.P. 1433-1527, Hypnerotomachia Poliphili / [adc. Leonardus Crassus, Johannes Baptista Scytha, Andreas Maro]. – Venezia : Aldo Manuzio, Dezembro 1499. – [234] f. : il. ; 2º (29 cm)

Dionisotti, Carlo. 1995. Aldo Manuzio: Umanista e Editore. Vol. 18. Milano: Edizioni il Polifilo.

Lowry, Martin. 1979. The World of Aldus Manutius: Business and Scholarship in Renaissance Venice. Oxford: Basil Blackwell.

Manutius, Aldus. 1502. “Aldus Manutius’s Petition against Counterfeiters, Venice (1502).” Primary Sources on Copyright (1450-1900). 1502. http://www.copyrighthistory.org.

Manutius, Aldus. 1503. “Aldus Manutius’s Warning against the Printers of Lyon, Venice (1503).” Edited by L. Bently and M. Kretschmer. Primary Sources on Copyright (1450-1900). 1503. http://www.copyrighthistory.org/cam/index.php.

Michael F. Suarez, S J, M F Suarez, and H R Woudhuysen. 2013. The Book: A Global History. Oxford: OUP. https://books.google.com.br/books?id=sbacAQAAQBAJ.

Nuovo, Angela. 2013. The Book Trade in the Italian Renaissance. The Book Trade in the Italian Renaissance. Boston; Leiden: Brill. https://doi.org/10.1163/9789004208490_001.

Pearson, David. 2011. Books as History: The Importance of Books beyond Their Texts. London; New Castle, DE: The British Library; Oak Knoll Books. https://doi.org/10.1080/00049670.2012.10722689.

Pettegree, Andrew. 2010. The Book in the Renaissance. New Haven, CT: Yale University Press.

Richardson, B. 1999. Printing, Writers and Readers in Renaissance Italy. Printing, Writers, and Readers in Renaissance Italy. Cambridge University Press. https://books.google.com.br/books?id=dnERYEx6Is4C.

Richardson, Brian. 2002. Print Culture in Renaissance Italy: The Editor and the Vernacular Text, 1470-1600. Cambridge University Press.

Satué, Enric. 2005. Aldo Manuzio – Editor. Tipógrafo. Livreiro. Cotia: Ateliê Editorial.

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