Um panorama da filologia

A filologia é a disciplina humanística e científica que investiga o desenvolvimento histórico de um texto. Pelo método da filologia, busca-se estabelecer em um texto sua autenticidade, suas transformações e variantes e sua forma canônica.

Nascida da paixão dos gregos pela palavra escrita e falada, Frínico, um contemporâneo de Ésquilo, diz que “o filólogo é a pessoa que ama as palavras e se interessa pela formação humana.

A editoração cuneiforme atesta o trabalho filológico mesmo antes do período helenístico. Um copista, além de meramente reproduzir, inferia e melhorava aspectos do texto.

Nascida das práticas editoriais de manuscritos na Antiguidade Clássica, a filologia propriamente dita tornou-se um conjunto de técnicas e princípios sistematizados a partir das práticas de manuseio, cópia e edição na Biblioteca de Alexandria. A lexicografia, os glossários, as anotações e aparatos, a corografia (informações históricas, étnicas e geográficas), as etimologias e as abudantes listas são alguns instrumentos de apoio filológico ainda em uso. Assim, nasceu a filologia como a primeira das ciências sociais e a primeira disciplina de humanidades a ter um rigor acadêmico.

A filologia cristã de textos bíblicos remonta da Escola Catequética de Alexandria, da qual destacou-se Orígenes, principalmente com sua edição da Hexapla. A filologia judaica e caraíta deve-se sobretudo ao trabalho dos massoretas.

No Renascimento, a obra de Lourenço Valla deu início a um novo interesse pela disciplina. Nessa época o humanismo — o gosto pela produção literária e artística da história da humanidade — se confunde com a filologia. Com a popularização da imprensa e a demanda por edições de textos da Antiguidade, a disciplina floresceu a partir do século XVI.

A “escolástica” barroca e o iluminismo moveram a filologia para um campo crítico e racionalista. Nasce, então, a moderna filologia desenvolvida por três eruditos alemães: Friedrich August Wolf (1759-1824), Immanuel Bekker (1785-1871) e Karl Lachmann (1793-1851). O método genealógico e estemático desenvolvido por esses autores visava reconstituir as formas mais antigas e seus trajetos de transmissão. Também houve uma separação entre conteúdo e forma, por assim, dizer, com a consolidação da exegese, da hermenêutica e da história como disciplinas distintas da filologia.

Quanto ao objetivo de recuperação dos textos, no século XIX surgiram duas escolas. Uma escola, a de Paul de Lagarde (1827 – 1891), enfocava na reconstituição de um suposto texto original (Urtext), pressupondo que variantes surgiriam durante a transmissão. Em contraste, a escola da crítica das fontes buscava mapear as variantes que convergiriam para um texto arquetípico.

As posições da filologia do século XIX não foram sem questionamentos. Muitos de seus princípios e pressupostos foram criticados por Joseph Bédier (1864 – 1938). Bédier criticava a arbitrariedade e reducionismo do método genealógico. Outras escolas filológicas defendiam simplesmente a anotação crítica do “melhor” manuscrito disponível. No entanto, nunca houve consenso do que seria o “melhor: o mais antigo, o mais completo, o mais autenticado, o mais utilizado…). Outros passaram a defender um método majoritário, um mínimo conteúdo comum dentre várias fontes. Ainda, havia o método conjectural de Richard Bentley (1662 – 1742) que intencionava inferir com suposição e imaginação a melhor forma textual, “corrigindo” inconsistências do textos. Atualmente, há uma prevalência de uma escola eclética, na qual as variantes são consideradas partes integrais de um texto e sua história.

O advento do pensamento humboldiano na linguagem e a emergência de abordagens sincrônicas da linguagem como o estruturalismo de Ferdinand de Saussure afastaram a filologia da gramática e da linguística. Contudo, a filologia ganharia um escopo próprio nas áreas especialistas: os classicistas (latinistas e helenistas), os estudos “orientais” (assiriologistas, egiptologistas), estudos indoeuropeus, estudos clássicos indianos e chineses, biblistas (hebraístas, estudiosos do Novo Testamento, crítica textual, patrística), bem como a filologia de línguas e literaturas modernas. Assim, a filologia aproximou-se dos estudos literários e das “Letras”.

Os métodos e focos variavam desde estudos comparativos, estudos textuais, estudos diacronicos, cultura e contextos, a filologia cognitiva, o deciframento de escritas em línguas desconhecidas, diplomática, paleografia, epigrafia, estudos da materialidade dos textos, história do livro, as humanidades digitais, por fim, o quase sinônimo de filologia: a ecdótica.

O giro hermenêutico e uma fascinação quase antiquária por textos do passado atualmente favorecem o interesse pela filologia. Contudo, ainda se mantém um nicho especialista, com o público dificilmente conhecendo as entranhas de seu processo de trabalho. É uma lástima, pois o senso crítico e um olhar treinado proporcionado pela filologia permite navegar a inundação das informações em que vivemos.

A filologia parte do pressuposto que um texto deve ser ativamente investigado para sua compreensão. A redução do leitor ou audiência a um mero consumidor torna a leitura um evento acrítico. Cresce aí a vulnerabilidade às desinformações, crises de confiança tanto em si quanto em instituições.

Outro benefício da filologia, principalmente desde os trabalhos de Bernard Cerquiglini, é de considerar o texto como um processo e não um produto. A história da recepção e reelaboração de um texto é tão dotada de legitimidade quanto a primeira versão tornada pública. Isso valoriza a agência e responsabilidade do receptor que também será um transmissor: seu entendimento pode modificar seu ser e discursos, portanto, com efeitos na vida individual e social.

Essa disciplina, mesmo em um treinamento mais básico, seria um remédio à imbecilidade, diria o filólogo Umberto Eco. De fato, seus métodos corrigem muitas falácias e evitam superinterpretações que geram falsos parâmetros.

Um professor (ele próprio um experiente exegeta) de que ética em pesquisa é tratar com honestidade e equidade textos e pessoas. Soa como uma boa definição de filologia.

SAIBA MAIS

Bassetto, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica. EdUSP, 2001.

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Turner, James. Philology: The forgotten origins of the modern humanities. Princeton University Press, 2015.

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