Candido: Formação da literatura brasileira

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750–1880. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000 [original de 1959].

Uma obra literária existe duas vezes: quando é escrita e quando é lida. Mas para que haja leitura contínua, para que autores se reconheçam em tradições e públicos saibam o que esperar e o que cobrar, é preciso algo mais do que uma série de obras isoladas. É preciso um sistema. A grande contribuição de Antonio Candido de Mello e Souza (1918–2017) neste livro — publicado no mesmo ano de 1959 em que Celso Furtado lançava Formação econômica do Brasil, coincidência que não é apenas cronológica — foi demonstrar que a literatura brasileira só pode ser compreendida como tal a partir do momento em que esse sistema se constituiu: uma interação contínua entre autores, obras e público, capaz de estabelecer tradição e memória. Antes disso, há manifestações literárias; não há literatura.

Candido identifica os momentos decisivos em que a literatura brasileira se constituiu como sistema. Estava em busca de ententer a formação da literatura brasileira como instituição dotada de continuidade, capaz de formar tradição e de alimentar obras sucessivas. Para tal, analisa os dois movimentos que foram centrais para essa formação: o arcadismo do século XVIII e o romantismo do século XIX.

Tese

A literatura brasileira não pode ser reduzida ao conjunto de tudo o que se escreveu no Brasil desde a chegada dos portugueses. Como literatura distinta, seria uma instituição que se forma em condições históricas específicas, a partir de meados do século XVIII. Desde esse século surgem grupos literários com consciência de missão coletiva, público leitor minimamente estável e autores que se reconhecem como participantes de uma tradição. A análise dessa formação revela uma tensão constante. Seria uma dialética, na terminologia que Candido prefere, entre o dado local e os modelos provenientes da Europa. Essa tensão não é um problema a superar; é o motor que impulsiona a literatura brasileira e lhe confere sua fisionomia específica.

A literatura brasileira não é o conjunto de tudo o que se escreveu no Brasil desde a chegada dos portugueses. É uma instituição formada em condições históricas específicas, a partir de meados do século XVIII, quando surgem grupos literários com consciência de missão coletiva, público leitor minimamente estável e autores que se reconhecem como participantes de uma tradição. A análise dessa formação revela uma tensão constante. Seria uma dialética, na terminologia preferida por Candido, entre o dado local e os modelos vindos da Europa. Essa tensão não é um problema a ser superado. É o motor que impulsiona a literatura brasileira e lhe confere fisionomia própria.

Inovação metodológica

O método de Candido resiste à classificação simples. Não é sociologia da literatura em sentido positivista, que explica as obras por seus condicionamentos externos. Não é formalismo puro, que analisa a obra como estrutura autossuficiente. Trata-se de uma dialética entre os dois movimentos. Os fatores sociais e históricos deixam de ser contexto externo e passam a integrar a estrutura interna da obra. A fórmula usada pelo próprio Candido para sintetizar esse procedimento é precisa. O externo torna-se interno, e a crítica deixa de ser sociológica para ser apenas crítica. Na prática, isso significa que uma análise de Cláudio Manuel da Costa não pode ignorar o contexto colonial mineiro. Tampouco pode reduzir o poema a esse contexto. Precisa mostrar como o contexto se converteu em forma.

O próprio autor traçou, retrospectivamente, três fases de seu pensamento. A primeira, nos anos 1940, foi marcada pela busca de condicionamentos e causas, sob influência positivista. A segunda, nos anos 1950, aproximou-se da antropologia social inglesa, de T. S. Eliot e do new criticism norte-americano, com interesse pela ideia de sistema e funcionalidade. A terceira, nos anos 1960, voltou-se para a estruturação. Esse seria o processo pelo qual o condicionante se transforma em elemento interno da obra. Formação da literatura brasileira situa-se na passagem entre a segunda e a terceira fases. Isso explica sua riqueza e algumas de suas tensões internas.

Volume I

O Arcadismo

O movimento inicial de Candido no primeiro volume é de recuperação crítica. O Arcadismo fora tratado por muitos como mera imitação alienada do neoclassicismo europeu. Obras repletas de pastoras imaginárias, cantadas por poetas mineiros em plena colônia tropical. Candido rejeita essa leitura fácil. No bucolismo das cenas pastoris e na clareza da linguagem arcádica, ele identifica um gesto de aproximação com a vida cotidiana simples do país, uma alegoria que também funciona como forma de habitar intelectualmente um território ainda em formação.

Cláudio Manuel da Costa recebe atenção especial como iniciador. Suas Obras poéticas, de 1768, marcam o começo do Arcadismo no Brasil. Nelas, o poeta incorpora elementos da paisagem local às formas europeias, numa negociação que Candido analisa com precisão. Tomás Antônio Gonzaga, com Marília de Dirceu, de 1792, constitui o caso mais rico do período. Candido valoriza a integridade da biografia, a ligação com a Inconfidência Mineira e a ironia final. O poeta que cantou Marília terminou os dias próspero em Moçambique, para onde fora degredado, enquanto outros inconfidentes pagaram preço muito mais alto. O episódio ilumina as contradições de uma elite colonial que sonhava com a independência, embora não dispusesse de base social para sustentá-la.

A Arcádia Ultramarina, fundada em Vila Rica, é analisada como marco institucional. Reuniu os poetas árcades em torno de um projeto comum, ainda moldado por inspirações europeias. É nesse ponto que Candido vê o embrião do sistema. Ainda não seria o sistema pleno, mas a consciência de que havia uma missão literária coletiva a cumprir.

Aos “padres atormentados” da literatura colonial, Candido reserva um espaço que outros críticos ignoraram. Durão, autor de Caramuru, tematizou pela primeira vez a força do exotismo da paisagem tropical. Monte Alverne, com sua oratória religiosa, impulsionou a vida cultural da corte joanina. Junqueira Freire encarna a sensualidade aprisionada sob o hábito de monge, figura que condensa a contradição entre desejo e norma presente em toda a literatura colonial.

Volume II

O Romantismo

O segundo volume é o centro do livro. O Romantismo é o movimento que alinha definitivamente a literatura ao “espírito jovem da nação”, expressão de Candido, e produz uma difusão sem precedentes da produção literária brasileira. É também o momento em que a tensão entre localismo e cosmopolitismo se torna mais consciente e mais produtiva.

O nacionalismo literário que define a primeira geração romântica possui, na análise de Candido, uma ironia constitutiva. O índio idealizado por Gonçalves Dias e José de Alencar como símbolo da brasilidade original foi uma proposta do francês Ferdinand Denis e tinha inspiração claramente europeia. A identidade nacional brasileira foi, em certa medida, importada. Isso não a torna falsa. Revela, porém, o mecanismo pelo qual o cosmopolitismo se disfarça de localismo.

Gonçalves de Magalhães, com Suspiros poéticos e saudades, de 1836, inaugura formalmente o Romantismo brasileiro. Sua importância é mais histórica do que estética. O próprio Candido é generoso, sem ser condescendente, ao estabelecer essa distinção. Gonçalves Dias é o poeta que realiza de modo mais consistente o programa da primeira geração. A “Canção do exílio” torna-se fundadora de uma tradição que se prolonga, e também se parodia, até o século XX.

José de Alencar merece atenção especial. Foi ele quem tornou esteticamente viável o indianismo como matriz da ficção romântica. Ao demolir publicamente A Confederação dos Tamoios, obra do poeta preferido do imperador Pedro II, o jovem Alencar desenvolveu, de forma irônica, a agenda de sua própria obra. A polêmica literária funciona como laboratório criativo. A crítica que destrói prepara o espaço para o que será construído.

A segunda geração romântica encontra em Álvares de Azevedo sua figura mais fascinante. Morto aos vinte anos, com uma obra que Candido descreve como a de uma “mente noturna e povoada de sombras”, Azevedo levou longe a ruptura romântica com os gêneros literários. Misturou poesia, prosa, teatro e ironia com uma liberdade que antecipava procedimentos reconhecidos pela crítica apenas décadas depois. Casimiro de Abreu representa o polo oposto. Sua poesia “de cesto de costura”, diurna, de quintais e pés de laranjeira, deu um tom de família burguesa à vida do Brasil imperial. Esse tom, no julgamento implícito de Candido, possui méritos e limites. Bernardo Guimarães, autor do único poema satanista de nossa literatura, terminou celebrado por A escrava Isaura. Isso revela algo sobre o gosto do período e sobre os caprichos da posteridade.

A terceira geração encontra em Castro Alves seu principal representante. A poesia condoreira permitiu a inclusão do negro como elemento estético, avanço significativo. Candido observa, porém, que os negros descritos por Castro Alves eram quase sempre mulatos, com feições e atitudes tipicamente brancas. O gesto inclusivo trazia seus próprios limites.

Taunay aparece numa observação lateral que vale por muitas análises. Candido menciona a naturalidade com que o sofisticado autor de Inocência relata, em suas memórias, a compra de uma jovem indígena que lhe serviu de inspiração. O episódio concentra, sem comentário excessivo, a distância entre a idealização literária do indígena e o tratamento concreto dispensado à população indígena.

O método em ação

O que distingue a crítica de Candido de uma história literária convencional é esse movimento constante de ir da obra à sociedade e retornar à obra transformado. Ao contrário da sociologia da literatura de tradição positivista, que trata a obra como documento de seu tempo, Candido mostra como o tempo se torna obra. Mostra como as tensões históricas encontram resolução formal, como a ideologia se converte em estrutura narrativa e como o conflito social produz imagem poética. Esse procedimento, que ele chamará de método dialético em escritos posteriores, ainda está em formação. Isso torna a leitura do livro especialmente rica para quem deseja entender o que Candido diz e a maneira como pensa.

Há também uma distinção terminológica importante. Candido recusa o conceito de literatura “engajada”, entendido como submissão mecânica da obra a programas políticos. Em seu lugar, propõe a ideia de literatura “empenhada”. Para ele, a literatura empenhada é movida por tensões e contradições internas, capazes de construir linguagens diversas e visões plurais da realidade. A diferença ultrapassa a semântica. Trata-se de uma posição sobre a relação entre arte e política, presente em toda a sua obra.

Recepção e crítica

A obra consolidou Candido como o principal crítico literário brasileiro do século XX e tornou-se referência obrigatória para estudantes de letras, história e ciências sociais. A crítica mais conhecida veio de Haroldo de Campos, que, em O sequestro do barroco, de 1989, questionou a exclusão do Barroco, sobretudo de Gregório de Matos, da periodização proposta por Candido. O argumento de Campos é que o sistema literário começa antes do ponto estabelecido por Candido e que a exclusão do Barroco revela um viés iluminista na concepção de formação adotada. O debate permanece aberto. É, por si, testemunho da fertilidade do livro. Obras que geram polêmicas produtivas tocam alguma coisa verdadeira.

Candido demonstra, nas páginas finais, como o processo analisado nos dois volumes preparou o terreno para o surgimento, no fim do século XIX, do gênio de Machado de Assis. As melhores realizações do autor, contudo, ocorreriam numa fase que o livro não contempla, embora só possam ser explicadas pelo que veio antes. A conclusão permanece aberta. O sistema que se formou não é um fim. É uma condição de possibilidade. Uma literatura que aprendeu a existir pode, enfim, aprender a ser grande.

O autor

Antonio Candido nasceu em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e cresceu em Minas Gerais e em São Paulo. Formou-se em ciências sociais na USP e construiu ali uma das carreiras acadêmicas mais influentes da história intelectual brasileira, como professor de teoria literária e literatura comparada. Foi militante de esquerda, membro do Partido Socialista Brasileiro, e viveu a ditadura de 1964 sem cassação, embora submetido às restrições impostas pelo regime a intelectuais críticos.

Sua longevidade permitiu que acompanhasse o impacto de sua obra por mais de meio século e que participasse ativamente dos debates que ela gerou. Modesto na forma, rigoroso no método e generoso com os interlocutores, Candido cultivou a rara virtude de fazer da crítica literária um instrumento de compreensão da vida e não apenas dos livros.

Veja também

Sérgio Buarque de Holanda: Raízes do Brasil

Saiba mais

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

CAMPOS, Haroldo de. O sequestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos. Salvador: FCJA, 1989.

SCHWARZ, Roberto. A sereia e o desconfiado: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

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