Veblen: a ostentação da classe ociosa

“Ostentação é comprar aquilo que você não quer, para mostrar pra quem você não gosta com o dinheiro que você não tem”.

Esse aforismo anônimo sumariza acertadamente a ideia de Thorstein Veblen dos impulsos que movem o consumismo no livro A Teoria da Classe Ociosa, o qual publicado em 1899 se mantém incomodamente atual.

Os influencers nas redes sociais virtuais e a celebridades que direcionam o consumo no século XXI vindicaram as teses de Veblen acerca da ostentação.

Mais citado como um crítico social que um teórico da sociologia ou da economia —provavelmente pelo seu tom satírico — Thorstein Veblen integra uma análise macro, a sociedade, com explicações micro, a psicologia individual.

O autor

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Thorstein Bunde Veblen (1857 —1929) não teve uma vida fácil. Até mesmo sua biografia foi distorcida para ampliar sua marginalidade. Seu biógrafo Dorfman (1934) retratou-o como filho de agricultores noruegueses estabelecidos em Cato, Wisconsin que nunca aprendera o inglês padrão (na verdade, falava inglês e outras tantas línguas com fluência), um galanteador inveterado (ainda que seus casos resultaram em seu casamento com a filha do reitor da Carlton College, onde se graduou em economia e filosofia, e em segunda núpcias com uma ex-aluna sua) e que nunca teve um emprego fixo (teve conturbadas posições de docente na Universidade de Chicago, Universidade do Missouri, The New School for Social Research, além de um breve estada no serviço público federal).

Um retrato mais justo é feito por Odner (2012) que traça as influências quakers na família Veblen ainda na Noruega como crucial na sua valorização de modéstia. Seu doutorado na John Hopkins University e Yale foi em filosofia e estudos sociais, com orientação do pioneiro da sociologia William Graham Sumner. Sem encontrar um emprego imediado, retornou à fazenda familiar onde passou o tempo lendo com voracidade. Retornaria a fazer um doutorado, dessa vez em economia, na Universidade Cornell.

Influenciado pela escola historicista alemã de economia, Veblen achou a hegemônica teoria econômica neo-clássica um tanto reducionista por negligenciar fatores históricos, além de reduzir a natureza e instituições humanas a uma caricatura em busca de maximização da utilidade. Também criticava a falta de consideração pelos diferentes interesses de classes.

Essa consciência de classe refletia sua posição política moderadamente socialista. Para Veblen, uma sociedade industriosa e igualitária seria a concretização dos ideais socialistas, resultada do colapso do capitalismo ocioso. Entretanto, desdenhava esquemas futuristas de uma sociedade utópica ou as pretensões marxistas de um comunismo.

Em suas obras mais famosas, Veblen não costumava citar outros autores. Contudo, para o leitor educado, as alusões são familiares. De Karl Marx são visíveis as influências quanto à análise ideológica, às noções de interesses de classes e ao fetichismo da mercadoria. De Darwin e Herbert Spencer deve os conceitos de competição sempre presente por recursos e da evolução da complexidade social.

A teoria da classe ociosa

Veblen inicia seu livro com um esquema evolucionista. A sociedade inicialmente seria igualitária em sua fase de selvageria (aqui faz um apanhado com povos tão díspares em economia e organização social como os andamaneses, todas, ainu, bosquímanos e esquimós), mas na fase cultural da barbárie consolidou-se uma classe ociosa sustentada na propriedade. A primeira apropriação foi a da mulher pelo homem, desse modo, o homem colhe os frutos do trabalho da mulher e a tem como um troféu para ostentar. Isenta do trabalho manual economicamente produtivo, a classe ociosa realiza atividades de lazer, com conotação de alto status e poder; como, por exemplo, a caça. Disso nasceu o esporte.

Se o ócio não for ostensivo, não há razão para exercê-lo. Outra alternativa ao ócio é o consumo ostensivo.

Às classes trabalhadoras resta a emulação pecuniária (grosso modo, inveja mesmo). Os padrões de vida e consumo da classe ociosa são os ideais do andar de baixo. Um trabalhador somente pode emular alguns aspectos da classe ociosa. A ética do trabalho diligente, a honestidade e a obediência são alguns dos poucos meios de emular a classe ociosa (que no fin-de-siècle ainda mantinha o ideal de uma moralidade vitoriana).

A necessidade individual de equiparar-se com o outro move o consumo e ócio ostensivos.  Sobrepor também implica em humilhar os que menos têm. Isso faziam os chefes afortunados dos índios kwakiutl na cerimônia de Potlach, quando queimavam bens preciosos, davam presentes caros a rivais, cantavam-lhes poemas de troças humilhando-os pela incapacidade de retribuir a dádiva.

A classe ociosa vive do lazer conspícuo. Filhos menores, esposa, o clero do homem de negócio cumprem suas funções de gastar e ditar os parâmetros de comportamento e do bom gosto para as classes baixas. O consumo notável, por exemplo, roupas caras cumpre esse propósito. A moda seria a expressão da cultura pecuniária. As vestimentas não teriam uma mera função de agasalhar, mas incorre no propósito simbólico de indicar a classe social. Até a etiqueta e as maneiras da classe ociosa também cumprem o papel de diferenciá-la.

Além do consumo conspícuo, a classe ociosa possui outros meios de exercer seu domínio, principalmente via a política, a religião e a educação.

Politicamente, a classe ociosa está interessada em manter-se no poder, controlando as estruturas do passado que lhe beneficia. Controlando a sociedade constroem instituições (sociais, governamentais, religiosas, jurídicas, educacionais econômicas) modificadas com parâmetros do passado, mantendo a estabilidade social.

Embora a crença na sorte seja comum a todas as classes sociais, o ideal de fortuna justificaria a existência da classe ociosa. Da crença na sorte vem a base da religião, instituição que oferece formas de lazer ostensório nas atividades devocionais.

Além das atividades não economicamente úteis da religião, como as classes altas (especialmente as esposas e filhos dos senhores da classe ociosa) gastam tempo e dinheiro comunicam a posição social familiar.

Outras instituições derivadas, como a educação, também possuem um caráter de lazer conspícuo. A regalia cerimoniosa, títulos pomposos, a cultura livresca, diploma elaborados dos tradicionais programas de educação liberal são mais valorizados que a educação técnica, que efetivamente contribui mais para a sociedade. O ócio proporcionado por essa educação liberal servem antes para a distinção social.

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Valsa em Viena no fin-de-siècle

Considerações por ora

Veblen viveu com desconfiança a Era Progressista. Exposições universais, o barateamento de produtos de consumo de massa, o avanço tecnológico davam a entender que o mundo caminhava para uma prosperidade universal, com os malefícios da industrialização e colonialismo convenientemente esquecido pelas classes no poder. Desse modo, a teoria de Veblen não teve uma aceitação inicial, mas depois ganharia uma recepção mais madura. A teoria de Veblen reflete nas ideias de Adorno a respeito do consumismo e na economia institucionalista que ganhou adeptos após as decepções da crise de 1929. Recentemente, influenciou a antropologia econômica, os estudos de consumo, a antropologia da moda e a Nova Economia Institucional.

Sem o aspecto moralista implicitamente condenatório, a teoria de Veblen retrata bem as sociedades de aparências do século XIX. Atualmente, sem modelos morais, o consumo ostentado por celebridades orientam diversas classes, fazendo nascer causas e morrer marcas. A ampliação do poder comunicativo das mídias de internet fizeram desses influencers a nova classe ociosa. No Instagram parecem em um eterno turismo, tirando fotos de pratos elaborados, paisagens exóticas, roupas casualmente caras. Não se admira que o nome do autor se aplica aos produtos Veblen, bens cujo preço e desejo sobem quando se tornam mais caros porque há um interesse em ostentá-los.

Como seu contemporâneo Weber, Veblen procurou motivações não imediatamente utilitárias para o comportamento econômico. Weber entendia que uma vez atendidas as necessidades básicas, o ser humano ainda buscava adquirir mais do que precisava para ganhar status. Veblen, de certa forma inverte o argumento de Weber quando propõe que o consumo além do que se precisa era para ganhar status.

Em português A teoria da classe ociosa foi publicada pelas editoras Pioneira (1965 coleção Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais), Abril (1983, Coleção os Economistas) e Nova Cultural (1987). Edições todas esgotadas, mas facilmente encontradas nos sebos.

SAIBA MAIS

DORFMAN Joseph. Thorstein Veblen and his America. New York: Viking, 1934.

ODNER, Kurt.  New perspectives on Thorstein Veblen, the Norwegian. In Thorstein Veblen: Economics for an age of crises. Erik S. Reinert e Francesca Lidia Viano (org.), 89–98. London: Anthem, 2012.

VEBLEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa. The Theory of Leisure Class. 1899.

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