Niebuhr: Cristo e Cultura

Niebuhr.Cristo e Cultura

A relação entre religiões e a cultura ampla tende a ser tópico delicado em sociedades pluralistas. Em tempos de discussão sobre o papel da religião no espaço público político, imposição de crença alheia a outrem e uma pretensa guerra cultural, é necessário discernir quais as posturas disponíveis para interseção entre cristandade e cultura.

Uma tipologia desenvolvida pelo teólogo e cientista social da religião H. Richard Niebuhr subsidia um modo de compreender essa relação nebulosa. Para Niebuhr — usando “Cristo” por metonímia para representar tanto a religião institucionalizada (Igreja) quanto a  construção social da mensagem de Jesus — são cinco as atitudes que as denominações e religiosos esperam tomar quanto à cultura do mundo.

  • Cristo da cultura ou Assimilação: a aceitação tácita que o cristianismo é compatível (e às vezes, se iguala) à cultura de seu ambiente. O mundo existe para usufruto dos filhos de Deus. Essa concordância entre a mensagem cristã e as aspirações do mundo é representada historicamente pelos primitivos apologistas como Justino Mártir e, mesmo por gnósticos, como Basílides e Valentino. Recentemente, seria representada pelos pensamentos de Schleiermacher, Kant e Ritschl.
  • Cristo contra a cultura ou Rejeição: a posição oposta da anterior. Atitude até sectária que considera o “mundano” como inerentemente maligno, portanto, irreconciliável com a mensagem de Cristo. Tudo é impingido pelo pecado e o melhor que o cristão pode fazer é separar-se dessa contaminação. Rejeição expressa por Tertuliano, pelo monasticismo, pelos anabatistas e separatistas como Tolstoy.
  • Cristo acima da cultura ou Síntese: o mundo, sendo criação divina, possui coisas boas e úteis, mas é imperfeito e somente por meio da graça de Deus pode haver uma plenitude. É paradigmático nas teologias de Clemente de Alexandria e Tomás de Aquino.
  • Cristo e a cultura em paradoxo ou Dualismo: “estar no mundo, mas não ser do mundo” -– atitude de tensão entre usufruir o que há na cultura, mas com consciência que toda moeda possui dois lados. É exemplificado pela teologia de Lutero e por Roger Williams.
  • Cristo o transformador da cultura ou Conversão: perspectiva ativa do papel da religião na cultura. A cultura é criação divina, mas o pecado contamina tudo, porém é possível redenção por ato de graça. A busca em transformar a cultura para o que se acreditavam ser melhor traduz-se nas teologias de Agostinho de Hipona, Calvino, Wesley e Jonathan Edwards.

Vale notar que Niebuhr não ordena nenhuma perspectiva como desejável. As duas primeiras são extremas, enquanto as três últimas são intermediárias. Todavia, o teólogo mennonita John Howard Yoder reclama do viés de H. R. Niebuhr em favorecer a visão reformada, o Cristo transformador da cultura. Criticou também o tratamento, para Yoder, caricato dos anabatistas feito por Niebuhr como alienados do mundo.

Yoder considerou problemática a visão essencialista de cultura como um ente discreto e monolítico sem muito sentido em um contexto missionário onde o cristianismo for minoria. Entretanto, Niebuhr utilizou uma concepção antropológica de cultura em voga na época, a qual seria “o processo total de atividade humana e o resultado total dessa atividade para a qual agora toma o nome de cultura ou  civilização é aplicado no discurso cotidiano (…) algo  que compreende linguagem, hábitos, ideias, crenças, costumes, organização social, artefatos herdados, processos técnicos e valores” (1951 p.32).

Essas críticas e outras, apesar de pertinentes, não invalidam o trabalho em si. A tipologia de Niebuhr permite compreender as diferentes expectativas dos grupos religiosos face seu ambiente.

Em uma aplicação latitudinária no cenário religioso brasileiro, diria que os principais tipos são representados por esses respectivo grupos tomando por base os diversos protestantismos:

  • Cristo da cultura ou Assimilação: adeptos da teologia da prosperidade como a Igreja Universal do Reino de Deus ou Silas Malafaia, que visam influenciar no mundo político e esperam aproveitar dessa vida. Outra vertente seriam os episcopais anglicanos e muitos luteranos, vivendo como denominações sem grandes tensões com o cenário brasileiro.
  • Cristo contra a cultura ou Rejeição: adeptos de pequenas igrejas independentes para quem se envolver com política é pecado ou almejar profissões ou ensino superior é vaidade e perigoso. Um exemplo mais próximo seria talvez algumas vertentes do movimento “Obra em Restauração”.
  • Cristo acima da cultura ou Síntese: buscam influenciar o discurso secular, embora insistindo na superioridade da cosmovisão cristã. É típico do calvinismo do Mackenzie. No caso dos presbiterianos, não tentam influenciar diretamente as posturas políticas e sociais, pois acreditam que sua instituição religiosa transcende os interesses momentâneos, mas seus políticos eleitos possuem uma agenda bem definida.
  • Cristo e a cultura em paradoxo ou Dualismo: evangélicos bem estabelecidos socialmente que não querem se envolver com o “mundo”, mas aceitam participação discreta na vida social enquanto bons cidadãos. Membros da Congregação Cristã no Brasil e da Igreja Cristã Maranata estariam nessa tipologia, embora beirando ao “Cristo contra a cultura”.
  • Cristo o transformador da cultura ou Conversão: nessa tendência se encontram os metodistas e os adeptos da Missão Integral. Enfocam tanto mudanças sociais quanto a metanoia do indivíduo.

Helmut Richard Niebuhr (1894 – 1962) nasceu em uma família teuto-americana pietista. Com seu irmão, o renomado teólogo e ativista social Reinhold Niebuhr (1892 – 1971), ocupou cargos pastorais e acadêmicos em vários lugares nos Estados Unidos enquanto formulava sua teologia pós-liberal, teocêntrica e crítica do cristianismo acomodado de classe média americano. Sua linha pensamento consolidou-se na chamada Escola Yale de teologia e ciências da religião. Membro da Igreja Unida de Cristo, Niebuhr construiu pontes entre denominações, além de pontes entre ciências sociais e teologia, entre teologia alemã e americana e entre teologia e ética. As influências de George Herbert Mead, Ernst Troeltsch e Karl Barth são visíveis em seus trabalhos.

Além de Cristo e Cultura, escreveu obras impactantes como The Social Sources of Denominationalism (1929), na qual critica o denominacionalismo faccioso da cristandade americana. As preocupações em implantar agendas políticas dessas denominações era em detrimento ao pleno evangelho. Mesmo vertentes progressistas falhavam em proclamar um cristianismo radical fundado no amor de Deus, substituindo-o por agendas do evangelho social, o que seria “Um Deus sem ira trazendo pessoas sem pecado a um reino sem juízo mediante as ministrações de um Cristo sem a cruz”. (1937, p. 193)

SAIBA MAIS

  • Niebuhr, H. Richard. The Kingdom of God in America. Chicago: Willett, Clark & Company, 1937.
  • Niebuhr, H. Richard. Christ and Culture. New York: Harper and Row, 1951. Em português, Cristo e Cultura. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967.
  • Yoder, John Howard “How H. Richard Niebuhr Reasoned: A Critique of Christ and Culture,” in Glen H. Stassen, D. M. Yeager e  John Howard Yoder (ed.)  Authentic Transformation:  A New Vision of Christ and Culture. Nashville, TN: Abingdon, 1996.
  • Estado e Religião: modelos de interação política

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