O étnico: um glossário

Etnos: morfema grego assimilado como radical em várias línguas significando “povo, nação ou gentes”.

Etna: termo parônimo para referir ao vulcão na Sicília e à loja que imita a IKEA. Sem relação com etnia.

Etnia: um grupo étnico cuja distinção é fundamentada em uma identificação que os solidariza. Ver etnicidade.

Étnica, fricção ou mais propriamente, fricção interétnica: o contato de grupos étnicos minoritários com uma sociedade maior hegemônica. Esse contato, geralmente competitivo (terra, trabalho, bens industrializados, dentre outros) leva a conflitos de configurações diversas que afetam todas as culturas envolvidas. Ao contrário de um mero massacre interétnico ou assimilação, as populações continuam distintas, mas em atrito recorrente. Esse modelo teórico foi proposto nos anos 1960 por Roberto Cardoso de Oliveira no momento em que grupos indígenas no Norte e Centro-Oeste entravam em contato com a frente agrícola e o Estado brasileiro.

Étnica, moda: geralmente representações exóticas do Outro na moda, visto que não há grupo étnico sem moda. Entre os exemplo estão a tatuagem “tribal”, as “estampas étnicas”, as “músicas étnicas” e as “piadas étnicas”. O mais apropriado seria talvez disser moda da alteridade.

Etnicidade: auto-identificação como pertencente a grupo e mútuo reconhecimento de pertença a esse grupo. F. Barth, E.Leach e E.Wolf demonstraram que identidade étnica é contextual. Ou seja, a noção de pertencer a um grupo étnico, nas maiorias das sociedades, só faz sentido em contraste com outras etnias. Para considerar o aspecto dinâmico da etnicidade, imagine o Sr. José Kalunga da Chapada dos Veadeiros em Goiás. Fora de Goiás ele pode se solidarizar e se identificar com os goianos de Atlanta ou com os afro-brasileiros do país. Entretanto, em seu município natal sentiria pouco em comum com as comunidades negras urbanas de outras regiões do Brasil ou com emigrantes brasileiros retornados. No dia-a-dia, dificilmente iria se identificar como “brasileiro” (quiçá exceto durante a Copa). Nos Estados Unidos, o Sr.José Kalunga seria provavelmente tratado como latino-americano ou afro-Americano pela sociedade hospedeira, mas especulativamente ele reteria uma firme identidade como brasileiro ou brazuca.

Etnicização: dissonância cognitiva que explica comportamentos como sendo consequências que possuem a etnicidade como causa primordial. Roupagem nova para o racismo.

Étnico, grupo: grupo distinto face outros grupos pela similaridade cultural interna, história comum, tratamento externo semelhante e marcadores étnicos reconhecíveis.

Étnicos, marcadores (de limites): qualquer traço que sirva para distinguir um grupo étnico em relação aos outros. Cada grupo étnico possui seus próprios marcadores para si e marcadores para distinguir o Outro, sem necessariamente serem critérios objetivos ou universalmente aceitos. Algumas instâncias são os critérios para ser judeu, que normalmente considera-se judeus os filhos de pais judeus que não sigam outra grandes religiões institucionais, embora comunidades ortodoxas restrinjam a identidade judaica somente aos nascidos de mãe judia ou aos que se submetam à conversão formal.

Etnocentrismo: (1) julgar o próprio povo como o normativo, o melhor, o mais certo, mais bonito, o mais lógico, o mais moral que outras etnias. Essa atitude pode levar ao xenocentrismo ou esterofilia, a crença que o estrangeiro, o importado, as coisas dos outros são superiores a sua própria cultura. (2) Julgar outras etnias com parâmetros da minha própria etnia. Oposto ao relativismo cultural.

Etnocídio: esforço sistemático para eliminar um grupo étnico, seja por “limpeza étnica”, o puro e violento genocídio ou com estratégias mais sutis, como erradicar o grupo mediante a desvalorização de suas marcas étnicas. São instrumentos dessa estratégia a proibição da língua, dificultar a reprodução cultural, ridicularizar a visão de mundo, considerar supersticiosa sua religião, impedir auto-organização, desestruturar economia, aliciar lideranças, criar dependência, ignorar a territorialidade étnica, apregoar um assimilacionismo que implique a renúncia da identidade étnica.

Etnociência: é uma perspectiva das concepções nativas sobre a realidade organizado de acordo com critérios próprios de cada etnia. É maneira nativa de se fazer ciência, sem se preocupar com vieses ocidentais. Entre os diferentes campos, a etnobotânica, a etnomedicina, a etnomatemática são os que possuem mais publicações. Geralmente há uma preocupação de produzir taxonomias êmicas nessas etnociências.

Etnodesenvolvimento: política de desenvolvimento de um dado grupo étnico primando pela autonomia. Nessa política, as instituições da sociedade ampla deve apoiar a formação de quadros profissionais (médicos, juristas, políticos e professores) membros do grupo étnico e valorizar os critérios e prioridades de desenvolvimento conduzidos pela própria etnia.

Etnoecologia: um conjunto de percepções e práticas ambientais de um dado grupo étnico. A etnoecologia pode ser disfuncional, como o desastre ecológico de Rapa Nui, ou pode ser funcional na perspectiva êmica, como a prática de queimadas por indígenas brasileiros que controlava pragas e fertilizava o solo em simbiose com a Mata Atlântica.

Etnogênese: processo pelo qual um grupo étnico adquire autoconsciência de identificação. Uma etnia não nasce pronta de uma hora para outra e se perde assim sem rastros. Alguns casos notáveis de etnogêneses são os dos norte-americanos, magiares e tumbalalás. Os norte-americanos resultaram de um melting pot étnico com uma história comum. Os magiares ou húngaros resultaram do encontro entre diversas correntes migratórias da Europa oriental e Ásia central na planície do médio Danúbio consolidados pelo idioma não-indo-europeu. Já os tumbalalás são um interessante caso de etnogênese indígena do Brasil pós-cabralino. Diversos grupos étnicos indígenas aldeados em missões religiosas do médio rio São Francisco foram considerados assimilados no final do século XIX. Esses povos, somados com ex-escravos africanos e colonos, pouco se diferenciavam dos sertanejos, mas alguns marcadores culturais, sobretudo, o ritual do toré, contribuíram para manter uma identidade distinta, reforçada pela marginalização social. No final dos anos 1990, as lideranças tumbalalá articularam o reconhecimento de suas comunidades como indígenas.

Etnografia: método de descrição e análise de um grupo étnico por meio de extensivo trabalho de campo. A origem desse método remonta de várias fontes, como as crônicas de viagem, as recolhas do folcloristas, as Notes and Queries; mas se consagraria como método antropológico a partir dos trabalhos de campo de antropólogos como Westermack, Malinowski e Radcliff-Brown.

Etnográfico, presente: uma suspensão teórica do tempo para fins de análise etnográfica ou etnológica.

Etnohistória: análise diacrônica (portanto, sem um presente etnográfico) de uma etnia, usando fontes etnográficas e históricas.

Etnologia: (1) estudo comparativo de diferentes culturas com bases teóricas e etnográficas através do espaço e tempo para encontrar particularidades e universalidades; (2) estudos de grupos étnicos minoritários dentro da sociedade do próprio pesquisador, tal como em “etnologia indígena brasileira”, “etnologia folclórica escandinava”, “etnologia cigana na Europa” e outras.

Etnometodologia: é tanto o (1) método e o (2) estudo de como cada grupo social constrói o sentido da realidade a partir das experiências cotidianas. Idealizada por Harold Garfinkel, é empregada como método em várias disciplinas como psicologia, sociologia e pedagogia entre outras. Entretanto, a própria etnometodologia foge de teorias e metodologias estabelecidas, sendo desenvolvida e empregada a cada caso estudado. Uma aplicação clássica foi o estudo de Garfinkel das decisões dos júris em Chicago com dados e interpretações oriundos dos próprios participantes.

Etnomusicologia: estudo da música e das performances musicais dentro de perspectivas nativas.

Etnônimo: nome pelo qual cada etnia é conhecida. As significações e limites de um etnônimo são arbitrários. Por exemplo, yankee é usado na América Latina para os norte-americanos ou estados unidenses; já nos Estados Unidos emprega-se esse termo para os nortistas; no Nordeste dos Estados Unidos indica os habitantes da Nova Inglaterra; porém na Nova Inglaterra yankee seria os originários do Maine, New Hampshire e Vermont, que por sua vez nesses estados o termo nomeia os nativos de Vermont; mas no Vermont, yankee seria a população rural do estado.

Etnorracial: a identificação de um grupo étnico a partir de seletos traços fenotípicos ou da construção social “raça” ou “cor”.

Etnorreligioso, grupo: identidade cujos limites marcadores são preeminentemente religiosos, geralmente reforçado por endogamia. São os casos dos Amish, descendentes de vários grupos germânicos que se identificam mais com sua religião que com as sociedades germânicas em geral; dos Sikhs na Índia e Paquistão, cujos costumes religiosos os separam das populações muçulmanas e hindu;  e os Sérvios, Croatas e Bósnios, todos de mesma língua e mesmo nicho histórico-social, mas diferenciados pela religião cristã ortodoxa, católica e muçulmana, respectivamente.

Multietnicidade: sentimento de pertencer a mais de uma etnicidade em uma mesma conjuntura. Um exemplo é o ator canadense nascido no Líbano, Keanu Reeves, cuja mãe é inglesa e seu pai é norte-americano de descendência havaiana, portagee (luso-havaiano), chinesa e irlandesa.

Etologia: é o estudo do comportamento animal. Não relacionado com a raiz etno-.

Etiologia: estudo das origens e causas dos fenômenos. Também sem relação com a raiz etno-. Na medicina o termo é bem conhecido como a investigação das causas das doenças, já na antropologia é empregado sobre os mitos etiológicos, as narrativas explicativas sobre as origens de instituições, como a lendas e mitos de criação.

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