A importância de uma educação liberal em contrapeso à educação tecnicista

 russell

Excertos de Bertrand Russell

O problema é como melhor utilizar o nosso comando sobre as forças da natureza. Isso inclui questões inflamadas como a democracia contra a ditadura, o capitalismo contra o socialismo, o governo internacional contra a anarquia internacional, a especulação livre versus o dogma autoritário. As questões do laboratório podem não dar nenhuma orientação decisiva. O tipo de conhecimento que melhor ajuda a resolver esses problemas é uma ampla inquirição sobre a vida humana tanto no passado quanto no presente, além de uma valorização das fontes de miséria ou contentamento como apareceram na história.

Será percebido que o aumento de tecnologia não tem, por si só, assegurado qualquer aumento da felicidade ou bem-estar humanos. Quando os homens aprenderam a cultivar o solo, usaram seus conhecimentos para estabelecer um culto cruel com sacrifício humano. Os homens que primeiro domesticaram o cavalo empregaram-no para saquear e escravizar as populações pacíficas. Quando, nos primórdios da revolução industrial, os homens descobriram como fazer produtos de algodão por meio de máquinas, os resultados eram horríveis: o movimento de Jefferson para a emancipação dos escravos na América, que tinha estado a ponto de ter sucesso, morreu; o trabalho infantil na Inglaterra foi desenvolvido a um ponto de crueldade terrível; o imperialismo cruel na África foi estimulada na esperança de que os africanos poderiam ser induzidos a vestirem-se com produtos de algodão. Em nossos dias, uma combinação de gênio científico e habilidade técnica produziu a bomba atômica, mas ao tê-la produzido, ficamos todos apavorados. E não sabemos o que fazer com ela.

Essas instâncias, desde períodos da história amplamente diferentes, mostram que algo mais que tecnologia é necessário, algo que talvez possa ser chamado de “sabedoria”. É algo que deve ser aprendido, se é que pode ser aprendido, por meio de outros estudos além de os exigidos para a técnica científica. E é algo mais necessário agora do que nunca, porque o rápido crescimento da técnica fez antigos hábitos de pensamento e ação mais inadequados do que dantes.

Não só na filosofia, mas em todos os ramos de estudo acadêmico, há uma distinção entre o que tem valor cultural e o que serve apenas para o interesse profissional. Os historiadores podem debater o que aconteceu com a expedição mal sucedida de Senaqueribe de 698 a.C., mas os que não são historiadores não precisam saber a diferença entre essa e sua expedição bem sucedida três anos antes. Helenistas profissionais podem discutir com proveito uma leitura disputada de uma peça de Ésquilo, mas essas questões não são para a pessoa que deseja, apesar de uma vida agitada, adquirir algum conhecimento do que os gregos conquistaram.

Da mesma forma, os homens que dedicam suas vidas à filosofia devem considerar questões que o público educado geral faz certo em ignorar, como as diferenças entre a teoria dos universais em Aquino e em Duns Scotus, ou as características que uma língua deve ter para ser capaz, sem cair no absurdo, de dizer coisas sobre si mesmo. Tais questões pertencem aos aspectos técnicos da filosofia. E sua discussão não pode não contribuir para a cultura em geral.

O objetivo da formação acadêmica deveria ser como uma especialização que, com o aumento do conhecimento, se tornou inevitável a ser corrigida tanto quanto possível em assuntos com valor cultural como os estudos em história, literatura e filosofia. Deve ser fácil para um jovem que não conhece grego adquirir, mediante traduções, algum entendimento, ainda que insuficiente, de o que os gregos realizaram. Em vez de estudar os reis anglo-saxões repetitivamente na escola, deve tentar dar uma sinopse da história do mundo, trazendo os problemas de nossos dias em relação aos dos sacerdotes egípcios, dos reis da Babilônia e dos reformadores atenienses, bem como com todas as esperanças e desesperos dos séculos seguintes.

–Bertrand Russell. “Philosophy for laymen” em Unpopular Essays.1950.

* Liberal nesse texto não tem conotação política ou econômica. Russell usa o termo ‘liberal’ para o livre-pensamento, ou seja, a livre-inquirição sem prisões dogmáticas.

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