Guerras sem sangue

A divisa entre o Paraná e São Paulo às márgens do Rio Itararé vivia sob tensão em outubro de 1930. Vargas vinha de trem desde o Rio Grande do Sul determinado a tomar posse como presidente no Rio de Janeiro. Forças federais e paulistas estacionaram na pacata cidade de Itararé e esperavam o pior. A população fugiu para os campos, mas quando o gaúcho chegou, já haviam deposto o presidente Washington Luíz. A Batalha do Itararé não ocorreu. A lembrada batalha, cuja comicidade valeu o título de barão de Itararé a Aparício Torelli, foi um evento sem sangue no meio das escaramuças (essas sim com baixas) que levaram Getúlio Vargas ao poder. Diferente da chamada Revolução de 1930, houve eventos bélicos que não deixaram viúvas e órfãos.

O porco da discórdia

A divisa da atual Columbia Britânica e estado de Washington não era tão precisa quando em 15 de junho de 1859 Lyman Cutlar, um granjeiro americano na ilha de San Juan (então território de litígio entre os Estados Unidos e Reino Unido), teve sua horta de batatas invadidas por um imenso porco preto.

Irritado, Cutlar despejou sua espingarda sobre o pobre suíno. O dono, o irlandês Charles Griffin, residente do Canadá, reclamou e pediu a idenização de US $ 100.00 (o equivalente a R$ 4.000,00 nos dias de hoje). Cutlar recusou a pagar, afinal o porco invadira suas terras. Griffin argumentou que Cultlar construíra sua chácara nas propriedades da Hudson’s Bay Company e então era seu dever manter suas batatas longe dos porcos. Ameaçado de ser preso, Cutlar apelou para os colonos e militares americanos.

O Brigadeiro-General William S. Harney dispachou 66 soldados americanos para ocupar a ilha. Com a ameaça de ter forças estrangeiras próximas à Vancouver, uma esquadra de cinco barcos britânicos, com 70 canhões e 2.140 homens, se posicionou diante da ilha de San Juan.  De ambos os lados as ordens eram evitar disparar o primeiro tiro, mas revidar com vigor. Provocações seguiram, todavia tanto o governo americano quando o britânico ao saberem do iminente conflito (e motivo crasso para ele), ordenara a retirada de suas forças. Uma provisão diplomática garantiu a posse conjunta da ilha até que uma arbitração internacional resolvesse o caso.

A mais longa guerra

Uma das mais longas guerra da história, ainda que não tenha machucado alguém, foi a Guerra dos 335 anos entre as ilhas de Scilly (Reino Unido) e a República das Províncias Unidas dos Países-Baixos (em inglês: Three Hundred and Thirty Five Years’ War, holandês: Driehonderdvijfendertigjarige Oorlog). A beligerância inciou quando em 30 de março de 1651 o almirante holandês Maarten Harpertszoon Tromp chegou às Ilhas de Scilly, um dos últimos territórios controlados pela facção realista durante a Segunda Guerra Civil Inglesa. Em retaliação aos ataques de navios holandeses por piratas realistas baseados nessas ilhotas próximo à Cornualha, Tromp declarou guerra ao arquipélago.

A guerra civil inglesa acabou e com ela os piratas realistas. O assunto foi esquecido até que em 1985  Roy Duncan, historiador e presidente do concílio das Scilly, descobriu que ainda estavam em guerra declarada com os Países-Baixos. Duncan escreveu a Jonkheer Rein Huydecoper, embaixador neerlandês em Londres e em 17 abril de 1986 foi celebrado o tratado de paz. Parafraseando Huydecoper, agora os habitantes das Scilly poderiam dormir em paz, sem o medo da invasão holandesa.

Brasil x França

Uma guerra não declarada e sem feridos (salvo algumas pobres lagostas) foi o embate entre Brasil e França conhecido como a Guerra da Lagosta entre 1961 e 1963. O salgado conflito iniciou quando a Marinha brasileira apreendeu barcos pesqueiros franceses capturando lagostas na costa do Pernambuco.

Os franceses argumentaram que as lagostam nadavam e portanto estavam em águas internacionais e assim o Brasil teria feito uma agressão injusta. O presidente Jango mobilizou o exército, a força aérea e a marinha do Nordeste contra uma possível invasão de pesqueiros franceses. As lagostas (e a guerra delas) acabaram provavelmente sobre uma mesa de um restaurante francês.

Invasões nada heróicas

A politicamente neutra Suíça por duas vezes violou a soberania do Liechtenstein. O pequeno principado de 35 mil habitantes e sem forças armadas protestou veemente quando em 1985 um foguete de infantaria suíço disparado por um soldado descuidado atingiu outro lado da fronteira e causou um incêndio na floresta. Considerando o tamanho do país, foi um impacto ambiental colossal.

Mas não foi a única agressão internacional dos suíços. Em março de 2007 os suíços provocaram os liechtensteinense com um pelotão de 171 soldados marchando dois kilómetros adentro do território do principado. Quando perceberam que quase estavam chegando à Áustria, deram meia-volta e voltaram correndo à Confederação Hevéltica. Culparam a escuridão, o mapa ser impreciso e a neblina pela invasão.

Algumas invasões por mar foram malfadadas — não estou falando do Dia D na Normandia nem da Baía dos Porcos em Cuba — mas da invasão britânica da Espanha e do francês que invadiu sozinho um território inglês.

Similar à novela de Moacyr Scliar, um exército de um homem só, porém de objetivos menos nobres, comandou uma invasão solitária à Ilha de Sark, um feudo nas Ilhas do Canal — dependências da Coroa Britânica na costa francesa. Em agosto de 1991, um desempregado francês,  André Gardes desembarcou a noite e espalhou cartazes anunciando a ocupação de Sark para o meio-dia do dia seguinte. Ao amanhecer o único policial voluntário da ilha  encontrou-o na praia, limpando sua submetralhadora. Prendeu-o sem esforço e Sark se manteve britânica, como é desde a Guerra dos Cem Anos.

Outra invasão equivocada ocorreu em fevereiro de 2002  quando trinta British Royal Marines invadiram a praia de San Felipe no povoado de pesqueiro de La Linea, na Andalucia. Os dois oficiais da Guardia Civil Española bravamente foram encontrar com os invasores e perguntaram se por acaso eles não intencionavam desembarcar em Gibraltar, território britânico próximo dali.

Os marines se desculparam, não tinham visto a rocha de 426 metros de altura que é Gibraltar.

Guerra sem sangue não implica em não haver vencedores. O Forte de São João Baptista de Ajudá, enclave lusitano nas praias do Benim, foi invandido pela então recente descolonizada república em 1961. Dois idosos residentes (o governador-geral e o chefe-da-defesa, você também pode chamá-los de caseiro e agregado) representantes do império português atearam fogo. Os beninenses apagaram o incêndio e anexaram a feitoria.

Visto assim, essas guerras parecem ridículas, mas quais não são?

One thought on “Guerras sem sangue

  1. Nice blog!

    There are those that would argue that wars without blood aren’t wars…regardless of definitions, these “happy ending” conflicts are so few that they are worth mentioning.

    Curtir

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