No início do século XX, na pacata Getafe, um homem vivia em obscuridade quase eremítica. Juan Bautista Amorós (1856–1912), sob o pseudônimo de Silverio Lanza, cultivava desdenhosa indiferença pelos circuitos literários de Madri. Ele era um mestre esquecido, escritor que preferia a pobreza honrosa ao conforto das convenções. Sua sorte e a da própria literatura espanhola mudariam quando um jovem de dezoito anos, dotado de energia voraz e disposição para o escândalo, decidiu tornar-se seu apóstolo póstumo.
Era Ramón Gómez de la Serna (1888–1963), já com algum lugar na vanguarda espanhola, criador das “greguerías” e expoente do ultraísmo. A tese de Ramón é a de Lanza como um “escritor maldito”, um visionário cuja estética da fragmentação e crítica social radical anteciparam a sensibilidade moderna e o absurdismo.
Publicado para acompanhar uma reedição póstuma das obras de Lanza, o prólogo de Ramón cumpre uma função de reinserir um autor esquecido no debate literário, legitimando-o através do olhar da vanguarda. Ramón, com sua autoridade de inovador, não apenas apresenta Lanza, mas o interpreta, construindo sua imagem como um “fantasma que assombra a literatura espanhola, um herege que se recusou a ser canonizado”. Esta caracterização salienta o isolamento voluntário de Lanza e sua recusa em se conformar às expectativas do mercado literário de sua época. O crítico transforma o autor comparável a figuras como Lautréamont e Dostoiévski.
A análise de Ramón destaca a estética singular de Lanza. Ele elogia a narrativa caótica e antilinear presente em obras como Noticias de ninguna parte (1890), descrevendo seus livros como “labirintos sem fio de Ariadne, onde o leitor deve se perder para se encontrar”. Esta valorização da desestruturação narrativa e da fragmentação é um dos pilares do modernismo que Ramón ajudou a construir. Além disso, Ramón apresenta Lanza como um crítico social perspicaz, um “anticapitalista visionário” que, através de sua obra, teria previsto a alienação da sociedade moderna. Nas palavras de Ramón, Lanza “escrevia contra o século XIX, mas também contra o século XX que ainda não chegara”. O próprio estilo do prólogo reflete a inventividade de Ramón, com o uso de “greguerías aplicadas” – aforismos poéticos e imagéticos – para definir Lanza, como na célebre frase: “Era um homem que carregava um guarda-chuva aberto no céu claro da literatura espanhola”. A ironia e o paradoxo também permeiam o texto, como na reflexão: “Foi um gênio incompreendido, ou talvez um incompreensível genial.”
Ramón Gómez de la Serna, em seu esforço de revalorização, posiciona Lanza como um antecessor de correntes literárias posteriores, notadamente o Realismo Mágico. A desconstrução da realidade promovida por Lanza, com suas narrativas oníricas que mesclam o cotidiano e o absurdo – como em Artuña, rey de Fanzuria, onde um rei governa um país imaginário dentro da Espanha burguesa – e a inversão da lógica em que o impossível é tratado como banal, ecoam em autores posteriores. As “metamorfoses literárias” de Lanza, como a de um funcionário que se transforma em peixe, podem ser vistas como um prelúdio a Kafka. A crítica social veiculada através do fantástico, expondo a hipocrisia da sociedade finissecular espanhola, antecipa métodos que seriam caros a autores como Miguel Ángel Asturias ou Juan Rulfo. Seu estilo fragmentário e o uso de ironia e humor negro também ressoariam em figuras como Julio Cortázar e Alejo Carpentier.
O prólogo também estabelece uma ponte entre Lanza e o surrealismo espanhol emergente nos anos 1920. Ramón destaca em Lanza a “lógica dos sonhos” e o uso de analogias insólitas (“A lua é um botão descosido do casaco da noite”), elementos centrais para os surrealistas como Dalí e Lorca. A Geração de 27, particularmente figuras como Luis Cernuda e Vicente Aleixandre, teria conhecido e se influenciado pela obra de Lanza graças a este prólogo, absorvendo seu desprezo pelas convenções burguesas e sua liberdade formal, que se assemelhava a uma forma de escrita automática. Contudo, é importante notar diferenças: o niilismo individual de Lanza contrasta com o projeto frequentemente coletivo e político de muitos surrealistas.
A intervenção de Gómez de la Serna foi crucial para a redescoberta de Silverio Lanza nas décadas de 1920 e 1930, influenciando gerações posteriores de escritores espanhóis, embora alguns críticos tenham acusado Ramón de supervalorizar um autor considerado “menor” por cânones mais tradicionais. Independentemente dessas polêmicas, o prólogo à obra de Silverio Lanza é mais do que uma simples introdução; é um ato de crítica literária criativa, um elogio à marginalidade como espaço de genuína originalidade e um manifesto indireto das próprias convicções vanguardistas de Ramón Gómez de la Serna, que via na incompreensão um possível sinal de genialidade e na literatura um gesto fundamentalmente subversivo.
O encontro entre o velho mestre e o jovem iconoclasta resultou em texto que transgride as categorias tradicionais: o Prólogo à obra de Silverio Lanza. Mais do que introdução, esse documento de 1905 funciona como manifesto implícito da modernidade. A relação entre Ramón e Lanza estabeleceu-se como transmissão de iconoclasia. Para Ramón, Lanza representava o precursor necessário de sensibilidade futura, situada além da Geração de 98.
O pseudônimo Silverio Lanza evocava santos marginais e a arma arremessada à distância. Constituía estratégia de anonimato militante, na qual a obra deveria bastar por si mesma, sem auxílio de persona pública. Enquanto figuras como Unamuno e Baroja construíam carreiras reconhecíveis, Lanza retirava-se para Getafe e recusava o jogo. Ramón via nessa solidão a condição essencial para o gênio.
A inovação identificada na prosa de Lanza foi o uso do humor como forma de epistemologia. Não era o riso fácil do costume literário espanhol, mas humor negro que inquietava e desconfortava. Rir com Lanza significa reconhecer verdades que a ignorância tornaria confortáveis. Essa estética prefigurava a maior invenção de Ramón: a greguería. Definida pela fórmula metáfora somada ao humor, essa forma breve buscava capturar a realidade sem clichês. Exemplos desse olhar transformador incluem a definição dos parênteses como orelhas das frases e das estrelas como buracos por onde se filtra o além.
O Prólogo de Ramón inverte a lógica do gênero. Em vez da subordinação modesta do prefaciador à obra, Ramón coloca sua descoberta pessoal no centro do texto. Ele inventou Lanza como mito útil para legitimar o próprio projeto literário. Situado no vácuo do desastre de 1898, o texto representou posicionamento geracional radical. Ao escolher precursor que a cultura oficial ignorara, Ramón reivindicou tradição de raros e iconoclastas que atravessa a história espanhola. Silverio Lanza sobreviveu ao esquecimento porque um jovem apaixonou-se por sua prosa estranha e decidiu que o mundo precisava conhecê-la.
O desafio talvez maior do Prólogo seja em seu modelo de leitura intensa. Ramón demonstrou que a crítica pode ser ato de justiça reparadora, independente de validações institucionais. A obra de Lanza prova de que a liberdade expressiva é possível mesmo na marginalidade. Esse texto inaugural de 1905 resgatou um escritor de mérito e fundamentou as bases das vanguardas espanholas. A voz de Ramón, em seu nascimento literário, continua a interpelar leitores sobre a função essencial da literatura.
Jorge Luis Borges, durante sua permanência em Madri entre 1919 e 1921, frequentou o Café de Pombo, onde participava das tertúlias de Ramón Gómez de la Serna. Nesse ambiente, Borges entrou em contato — de forma mediada e distante — com a figura de Silverio Lanza (pseudônimo de Juan Bautista Amorós y Vázquez de Figueroa, 1856-1912), escritor de Getafe que Ramón havia editado e prologado em 1918. Borges, que descreveria Ramón como “garrulous, extrovert, busy man” — espesso, carnal, sufocante —, não compartilhava da proximidade pessoal do gomézdelaserniano com o excêntrico. Contudo, leu o prólogo de Ramón, incluído posteriormente em sua Biblioteca Personal (nº 51), onde este último elevava Lanza a uma “cifra mágica” e descrevia sua escrita como feita com “tinta vermelha”.
A leitura de Borges permite inferir que identificou em Lanza — precursor respeitado, não desafiador, da Geração de 98 — uma linhagem de excentricidade que a literatura em castelhano comportava. Lanza, que Rubén Darío havia chamado de “cuentista muy original”, era admirado por Baroja, Azorín e Maeztu, não combatido por eles. Para Borges, o escritor de Getafe não representava um modelo de perfeição estilística, mas a prova de que a estranheza e a invenção radical encontravam lugar no idioma. Isso não implica “veneração” direta, mas uma constatação crítica: a prosa de Lanza exercia uma inteligência que preferia a precisão oblíqua — leia-se: humor desconcertante, ironia, subversão lógica — ao realismo descritivo hegemônico.
A recepção borgeana, mediada pelo prólogo de Ramón, consolidou Lanza como um dos “raros” da tradição hispânica. Rubén Darío já havia sinalizado sua originalidade; Ramón operou uma recuperação editorial consciente. Borges, ao ler esse gesto, pode ter visto na situação de Lanza — homem de família acaudalada que publicou regularmente (de Mala cuna y mala fosa, 1883, a Ni en la vida ni en la muerte, 1890, obra que o levou a ser processado por criticar o caciquismo) — uma forma de integridade possível: a de quem, sem necessitar do mercado literário para subsistir, protegia a obra da mediocridade ambiente. O humor de Lanza, que Ramón descrevera como ferramenta de revelação momentânea (as greguerías), encontrou eco retrospectivo na predileção de Borges por narrativas que subvertem a lógica social e a linearidade psicológica.
A figura de Lanza torna-se, assim, legível como um elo mediado entre a iconoclasia espanhola e a fundação da modernidade literária na América Latina: não porque Borges o tenha declarado mestre, mas porque a leitura do prólogo de Ramón — naqueles sábados de 1919–1921, nos divãs vermelhos do Café de Pombo — ofereceu ao jovem argentino a evidência de que a literatura podia comportar a estranheza sem domesticá-la.

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