Perguntaram-me como traduzir a palavra self. A pessoa insistia que “eu” bastava. Não bastava, expliquei, porque o inglês fez daquilo um substantivo, uma coisa que se pega com a mão e se põe em cima da mesa para examinar, e o português nunca quis fazer o mesmo. Preferimos rodeios. Dizemos “o eu”, “o sujeito”, “si mesmo”, “o indivíduo” e ficamos girando em torno do assunto como quem tem medo de tocar. Em francês existe amour-propre, que serve tanto para autoestima quanto para aquele enredamento neurótico que a pessoa tem consigo, quando não consegue mais sair de dentro de si. Gostamos mais do verbo reflexivo do que do substantivo. A pessoa se examina, se cuida, se ilude. Raramente dizemos que ela tem um self, como quem tem um relógio.

No mundo anglo-saxão é consenso que o self surgiu com a modernidade. Culpam o renascimento, a reforma e o capitalismo. Mas o conceito é bem menos universal, bem menos domesticado.
Os indianos antigos, por exemplo, nunca trataram isso como problema pessoal. Para eles a alma individual, o Atman, era a mesma substância do absoluto, o Brahman, só que disfarçada. Conhecer-se de verdade era perceber que aquela separação nunca existiu de fato. Veio o budismo depois e disse que nem alma unificada havia, que o eu é ilusão, um conjunto de eventos que se juntam e se desmancham, e que a gente insiste em chamar de pessoa por preguiça de pensar direito.
Os gregos também nunca fecharam essa conta. Tinham um vocabulário fragmentado, pneuma, logos, nous, psyche, cada palavra cuidando de um pedaço da experiência, sem que ninguém sentisse falta de juntar tudo num nome só. Platão imaginava a alma presa dentro do corpo como um pássaro numa gaiola que não é dele. Aristóteles preferia pensar que cada coisa carrega dentro de si a própria vocação, e que viver bem é realizar essa vocação até o fim.
Foi Agostinho quem primeiro se sentou para se olhar por dentro com aquela atenção quase indiscreta. Nas Confissões ele se descreve dividido, puxado entre o que Deus pede e o que ele deseja, e ali nasce, sem que o autor patrístico tivesse essa intenção, o primeiro retrato de uma pessoa em conflito consigo mesma, sem que precise haver inimigo do lado de fora.
Depois veio o renascimento e resolveu que essa unidade existia sim, e que cabia ao próprio homem decidir o que fazer com ela. Pico della Mirandola escreveu que não temos lugar fixo no mundo e que somos livres para nos moldar como quisermos. Logo, o racionalismo troumbou com o sujeito que raciocinava. Descartes chegou com uma frase que ainda hoje qualquer estudante recita sem pensar direito no que ela custou para ser dita: penso, logo existo. A mente virou coisa separada do corpo, capaz de duvidar de tudo menos de si mesma.
Harold Bloom, muito depois, foi longe demais e disse que foi Shakespeare quem inventou a personalidade moderna, porque seus personagens mudavam de ideia enquanto falavam, se ouviam pensar em voz alta e saíam de cena diferentes de como entraram. Pode ser exagero de crítico apaixonado. Mas é bonito de imaginar.
A unidade recém-inventada não durou muito intacta. Locke disse que nascemos como uma tábula rasa, em branco e que a memória é quem cola os pedaços da nossa identidade. Hume foi mais longe e negou que exista qualquer coisa por trás da memória, chamou o eu de teatro, um lugar onde as percepções entram e saem de cena sem que haja ator nenhum lá no fundo, sustentando o espetáculo. Kant tentou salvar alguma coisa com a ideia de um ego transcendental, uma condição necessária para que a experiência aconteça, mesmo que esse ego nunca apareça diretamente para ninguém, nem para si mesmo.
Aqui cabe uma observação. Em latim, a forma comum de falar de si era o pronome ego, simplesmente “eu”, sujeito de uma frase, não objeto de estudo. O inglês transformou self em substantivo, algo que se possui. As línguas latinas guardaram o ego como pronome, algo que simplesmente se é. Quando Freud escreveu sobre a mente dividida, usou o alemão Ich, “eu”, sem cerimônia nenhuma. Foram os tradutores que depois passaram esse Ich para o latim ego, e assim a psicanálise ganhou um vocabulário técnico bem mais frio do que o alemão original pretendia.
Freud dividiu a mente em id, ego e superego, e sugeriu que a maior parte do que chamamos de nós mesmos acontece nos bastidores, movida por desejos que preferimos não conhecer de perto. Jung ampliou o mapa com um inconsciente coletivo, arquétipos que a espécie inteira carrega e que moldam quem cada um se torna, sem pedir licença. Depois vieram Heidegger e Sartre dizer que não existe essência nenhuma esperando para ser descoberta, que a existência vem primeiro e cada um precisa se inventar sozinho, com a própria liberdade, sem manual e sem desculpa.
Na França do fim do século passado, essa ideia de um eu que se autocria começou a soar ingênua. Foucault disse que o “homem”, como categoria universal, é invenção recente, produto de instituições e relações de poder que decidem, em cada época, o que pode ser pensado sobre uma pessoa. Lacan, pelo lado da psicanálise, propôs que o eu nasce como ficção no chamado estágio do espelho, quando a criança vê pela primeira vez sua imagem reunida num corpo só e confunde aquilo com uma totalidade que na verdade nunca teve. Dessa confusão nasceria uma vida inteira tentando se reconciliar com o outro.
Nos Estados Unidos, gente como Christopher Lasch e Tom Wolfe olhava para o mesmo fenômeno de outro ângulo e batizava aquilo de Década do Eu, quando a busca por autorrealização escorregou para uma obsessão de aperfeiçoamento pessoal, deixando qualquer senso de responsabilidade coletiva para depois.
E chegamos ao presente, em que o eu ganhou dois interlocutores novos, a biologia e a máquina. Richard Dawkins escreveu que a verdadeira unidade de sobrevivência não é o indivíduo, é o gene, e que o corpo é só o veículo que o gene usa para se copiar adiante. Já bastava para incomodar quem gosta de se ver como dono da própria vontade. A tecnologia completou o serviço. Hoje fala-se menos de essência e mais de conectividade, o sujeito descrito como um nó, uma central por onde passam dados, afetos, capital. O eu digital complica ainda mais essa história. Às vezes é extensão de quem somos. Às vezes é coisa que um algoritmo monta em nosso nome e solta no mundo com vida própria, sem pedir licença nenhuma. A identidade vira protocolo, um conjunto de regras de acesso que permite que alguém seja reconhecido dentro de uma rede.
Quem insiste que “eu” basta não está errado, para conversar basta mesmo. Mas fico pensando que a língua sabia de alguma coisa, lá atrás, quando decidiu não fazer do self um objeto fixo em cima da mesa. Preferiu o verbo. Preferiu o movimento. E cada geração, ao seu jeito, continua tentando se explicar sem nunca terminar a frase.
SAIBA MAIS
MACEDO, Lídia Suzana Rocha de; SILVEIRA, Amanda da Costa da. Self: um conceito em desenvolvimento. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 22, p. 281-290, 2012.
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