(Rufem os tambores!).
A Commedia dell’Arte, meus caros, traduz-se como teatro do profissional. Nasceu lá na Itália, no comecinho do século XVI, uma época em que o Renascimento estava bombando e a criatividade fervilhava mais que molho de tomate em dia de festa. Era o ápice da improvisação, dos personagens fixos e da espontaneidade.
E não pensem que era coisa pouca, não! Essa trupe de artistas, verdadeiros precursores do show business (sim, eles assinaram um contrato em Pádua, em 25 de fevereiro de 1545, formando uma companhia frater. Anotem a data, é o Dia da Commedia dell’Arte!), espalhou-se pela Europa como fofoca em cidade pequena. Deixou seu dedinho (ou melhor, sua máscara inteira) na obra de gigantes como Shakespeare, Molière, e até na ópera, no vaudeville, nos musicais que a gente assobia no chuveiro e, pasmem, nas sitcoms que você maratona! Aquela piadinha do seu seriado favorito? Pode ter um ancestral de nariz comprido e calça colorida rindo lá do século XVI.

O tempero especial dessa commedia toda? Máscaras expressivas que já entregavam o ouro sobre quem era quem. Improvisação de fazer inveja a muito grupo de stand-up por aí. O roteiro, ou canovaccio, era só um esqueleto, umas três pagininhas com a trama básica, o resto era no talento e na cara de pau dos atores! Muita comédia com gestos e atos, tombos, tropeços, aquela coisa que a gente adora e que prova que uma boa queda é universalmente engraçada. E, claro, os personagens! Ah, os personagens! Tipos reconhecíveis que se dividem em quatro grandes alas, como se fosse desfile de escola de samba:
- Os Criados ou Zanni: a turma do fundão do palco, mas que roubava a cena! Pensem no Arlecchino (o nosso Arlequim), com sua roupa de losangos e sua esperteza que nem sempre dava certo. No Pulcinella (o Punch inglês), aquele narigudo meio corcunda, filósofo de botequim. Na Colombina, a criada esperta, charmosa, que botava ordem na bagunça (e às vezes criava mais). E tantos outros, como Scapino, Brighella, Pedrolino (esse, coitado, todo de branco, o infarinato, ancestral do palhaço de cara branca. Viram só como tudo se conecta?).
- Os Velhos ou Vecchi: aqueles que a gente ama odiar. O Magnifico Pantalone, o ricaço avarento, sempre de olho no dinheiro e, geralmente, sendo passado para trás. Il Dottore, o sabe-tudo de Bolonha, que falava latim macarrônico e citava autores que ele mesmo inventava, um verdadeiro intelectual de Taubaté renascentista. E o Tartaglia, o gago oficial.
- Os Jovens Amantes ou Innamorati: ah, o amor! Lindos, apaixonados, com nomes floridos como Isabella, Flaminia, Flavio, Leandro. Eles não usavam máscara, para mostrar toda a beleza e o sofrimento de um amor quase impossível. Eram os filhos dos Velhos, o que já garantia uma boa dose de confusão e suspiros dramáticos. Shakespeare que o diga com seu Romeu e Julieta – se bem que, se Shakespeare fosse de Verona mesmo, a Julieta seria interpretada por um rapaz.
- Os Capitães Fanfarrões ou Capitani: eram os rambos e chuck norris da época, só que de araque. Cheios de nomes pomposos como Capitano Spavento della Valle Inferno (medo, hein?), contavam lorotas de batalhas heroicas, mas na primeira encrenca… sumiam mais rápido que promessa de político. E tinha a versão feminina, La Signora, vivaz, muitas vezes violenta, geralmente esposa jovem de um dos Velhos, doidinha para pular a cerca.
As origens dessa farra toda? Um mistério! Alguns dizem que veio das farsas romanas, outros dos mimos bizantinos, dos malabaristas medievais, da cultura de mercado com seus charlatões. O que se sabe é que, lá por 1520, já tinha gente fazendo o povo rir com um estilão precursor.
E um viva para as mulheres! Pois é, enquanto na Inglaterra os palcos demoraram um século para ter uma atriz profissional, a Commedia dell’Arte, por volta de 1566, já tinha uma tal de Vincenza Armani arrasando. E depois veio Isabella Andreini, uma superstar, tão famosa que o nome “Isabella” virou sinônimo da principal amante feminina. Com as atrizes em cena, sem máscaras, mostrando seus rostinhos bonitos (segundo relatos, claro!), os dramas ficaram mais sofisticados, cheios de reviravoltas.
Acham que era só teatro de rua? Mito! Eles atuavam onde desse para ganhar uns trocados, de preferência em lugares fechados, para controlar a bilheteria, espertinhos! Mas, claro, as praças também viram muito Arlequim aprontando.
E o nome? “Commedia dell’Arte”? Só veio em 1750, pelas mãos de Carlo Goldoni, um autor que queria reformar o teatro. Ele usou o termo, ironicamente, para criticar o estilo comercializado desses atores. Mal sabia ele que estava entronizando uma lenda! Goldoni, aliás, é acusado por alguns de ter matado a Commedia, ao exigir que os atores usassem seus textos e tirassem as máscaras. Uma pena, mas compreensível, cada um com seu cada qual.
Mas, como dizem os otimistas, a Commedia dell’Arte está vivíssima! Ela sobrevive nos lazzi (aqueles humor pastelão, gags ensaiadas que eram o suprassumo do improviso), na agilidade do ator, na cumplicidade com a plateia, no riso incontido.
Então, da próxima vez que você vir um personagem trapalhão, um velho ranzinza, um casal apaixonado enfrentando perrengues ou um valentão de peito estufado e pouca coragem, são mais que seus colegas de escritório. Lembre-se: eles podem ser netos, bisnetos, trocentonetos de uma trupe italiana que, há 500 anos, já sabia que o melhor tempero da vida é uma boa gargalhada.
SAIBA MAIS
BERTHOLD, Margot. História mundial do teatro. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
FLORENTINO, Adilson e TELLES, Narciso. (Orgs.) Cartografias do Ensino do Teatro. Uberlândia: EDUFU, 2009
RUDLIN, John. Commedia Dell’Arte: An Actor’s Handbook. London: Routledge, 1992.
VENDRAMINI, José Eduardo. A commedia dell’arte e sua reoperacionalização. Transformações, n. 24, p. 47-62, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/qBz5xQFNwJxsyd6XB379nrb/.

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