Quando se fala na formação do português, os olhos se voltam para o latim vulgar trazido pelos romanos, para os substratos pré-romanos e para as marcas árabes deixadas durante a ocupação da Península Ibérica. Contudo, uma camada menos visível repousa sob essa superfície românica: a herança dos povos germânicos, entre os quais se destacam os godos.
Povo germânico oriental que, mais do que guerreiro, foi protagonista da transição entre o mundo antigo e o medieval, os godos deixaram no português palavras esparsas e a memória de uma identidade política e religiosa alternativa.
Origem dos godos e Úfilas
A origem dos godos nos chega sobretudo pela tradição registrada pelo historiador Jordanes em sua Getica (c. 551), segundo a qual teriam partido da Escandinávia (Gotalândia, Götaland) e atravessado o Báltico até a região do Vístula. A arqueologia associa esse movimento, com cautela, à cultura de Wielbark. Mais tarde, os godos avançaram para o sudeste, pelo corredor entre o Báltico e o mar Negro, e no século III já pressionavam a fronteira do Império Romano no Danúbio. Nas terras ao norte do mar Negro, consolidaram-se dois grandes grupos: os ostrogodos (godos do leste) e os visigodos (godos do oeste).
Sua conversão ao cristianismo, na vertente ariana (mais precisamente, homeia), os projetou para a história intelectual. O grande nome desse processo é Úlfilas (gótico Wulfila, “lobinho” ou “lobato”), bispo e tradutor do século IV. Nascido c. 311 entre godos de ascendência capadócia, foi consagrado bispo por volta de 341. Foi missionário entre os godos ao norte do Danúbio, que ora ameaçavam, ora serviam aos interesses romanos. Por volta de 348, perseguido, retirou-se com seus seguidores para a Mésia, em território imperial. Para difundir a fé, criou um alfabeto gótico, baseado no grego, com letras tomadas do latim e, possivelmente, do rúnico, e com ele traduziu a Bíblia do grego para o gótico. Dessa tradução sobrevivem boa parte do Novo Testamento e fragmentos do Antigo. O manuscrito mais célebre é o Codex Argenteus (Bíblia de Prata), cópia do século VI feita na Itália ostrogótica e hoje conservada em Uppsala, que é o maior monumento escrito da língua gótica.

Reinos Godos e o Arianismo: A Península sob Outra Fé
Enquanto o Império Romano ocidental sucumbia, os visigodos saquearam Roma em 410, sob Alarico. Em 418 estabeleceram-se na Aquitânia como federados do Império e, a partir daí, expandiram seu domínio sobre grande parte da Hispânia. Derrotados pelos francos em Vouillé (507), perderam quase toda a Gália e fizeram da Península o centro de seu reino.
Na Itália, os ostrogodos fundaram, sob Teodorico, o Grande, um reino (493–553) que marcou a Antiguidade Tardia antes de ser destruído pelo Império Bizantino. Deixaram obras arquitetônicas notáveis, sobretudo em Ravena (o Mausoléu de Teodorico, Sant’Apollinare Nuovo, o Batistério dos Arianos), além de palácios em Pávia e Verona, dos quais pouco resta. Em Roma, a igreja de Sant’Agata dei Goti, no bairro de Monti, foi fundada por volta de 460–470 como igreja ariana e reconsagrada ao culto católico por Gregório Magno, no fim do século VI.
O reino visigodo de Toledo (séculos VI–VIII) manteve boa parte das estruturas administrativas e jurídicas romanas. Para os godos, o Filho era semelhante ao Pai, mas subordinado a Ele, e não consubstancial. Essa diferença teológica funcionou, por quase dois séculos, como marcador de identidade: ser godo significava, em geral, ser ariano; ser hispano-romano significava ser católico. A separação se desfez quando o rei Recaredo anunciou sua conversão ao catolicismo (587), confirmada pelo Terceiro Concílio de Toledo (589), o que unificou religiosamente o reino. Já nessa época, porém, a população goda se romanizava linguisticamente.
Convém lembrar que, no território do atual Portugal e da Galiza, os germânicos mais relevantes por mais de um século foram os suevos, que mantiveram na Galécia um reino próprio (411–585) até serem incorporados por Leovigildo.
A língua gótica
O gótico é a língua germânica mais antiga com um corpus textual substancial. Sua gramática preserva traços arcaicos do germânico, incluindo um sistema de casos (nominativo, acusativo, genitivo, dativo e vocativo), gêneros gramaticais e uma conjugação verbal complexa, que inclui um passado formado por reduplicação, herança indo-europeia comum ao grego e ao latim. Diferentemente do alemão moderno, o gótico não sofreu a segunda mutação consonantal (alto-alemã). Seu vocabulário, conhecido sobretudo pela Bíblia de Úlfilas, combina palavras germânicas ressemantizadas em sentido cristão, como guþ (Deus), com empréstimos e decalques do grego, como daimonareis (endemoninhado). O léxico guerreiro e jurídico germânico, por sua vez, está entre os mais bem representados nas línguas românicas peninsulares.
O gótico da Crimeia
Um local tardio de sobrevivência do gótico foi a Crimeia. Enquanto os visigodos se instalavam na Hispânia, pequenos grupos permaneceram nas margens do mar Negro. Por volta de 1560–62, o embaixador flamengo Ogier Ghiselin de Busbecq, a serviço dos Habsburgos em Constantinopla, registrou uma lista de palavras de um povo germânico da Crimeia, entre elas ada (ovo), apel (maçã) e goltz (ouro). Hoje a maioria dos estudiosos a considera testemunho de uma variedade germânica oriental aparentada ao gótico, embora se discuta a qualidade do registro e dos informantes. Um dialeto gótico teria, assim, sobrevivido até o Renascimento em plena região tártara e grega.
Herança do gótico no português
Embora não tenha alterado a estrutura latina do idioma, o gótico (e, mais amplamente, o germânico) forneceu um léxico em áreas específicas. Na maioria dos casos, é difícil distinguir a via gótica da via franca, que trouxe muitos germanismos pelo francês e pelo provençal, razão pela qual convém falar em “germanismos” e atribuir ao gótico apenas o que as fontes permitem.
No campo da guerra e do pacto, encontram-se roubar (germânico *raubōn, com paralelo gótico em biraubōn), espiar (germânico *spehōn), trégua (gótico triggwa, “pacto, aliança”) e bandeira (gótico bandwa, “sinal”). Guerra deriva do germânico *werra (“confusão, discórdia”), mas a via de transmissão, gótica ou franca, é discutida.
Na vida social e cotidiana, destacam-se rico (de *rīki, “poderoso”, cf. gótico reiks), agasalhar (de *gasalja, “companheiro”) e luva (gótico lōfa, “palma da mão”). Estaca é atribuída por alguns etimólogos a um gótico *stakka.
A influência também se manifesta nos nomes pessoais. Rodrigo vem do gótico Hrōþirīks (hrōþ-, “fama”, + rīks, “poderoso”), e Afonso é geralmente explicado por Adalfuns ou Hadufuns, formas de interpretação debatida (“nobre pronto” ou “pronto para o combate”). A mesma camada onomástica inclui Fernando, Gonçalo e Ramiro. Os patronímicos em -ez/-es (Lopes, Gonçalves, Rodrigues; em espanhol, López, González) atestam o costume germânico de nomear pelo pai, mas a origem do próprio sufixo é disputada e não se limita ao visigótico.
SAIBA MAIS
FRIEDMANN, Sigismund. La lingua gotica: grammatica, esercizi, testi, vocabolario comparato con ispecial riguardo al tedesco, inglese, latino e greco. Milano: Hoepli, 1896.
GUIMARÃES, Gabriella Veras Rodrigues. Legado visigodo: a influência da língua gótica no período de formação da língua portuguesa. Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 24, n. 72, nov./dez. 2018.
PIEL, Joseph M. O patrimônio visigodo da língua portuguesa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1942.
LEHMANN, Winfred P. A Gothic Etymological Dictionary. Leiden: Brill, 1986.
WRIGHT, Joseph. Grammar of the Gothic Language. Oxford: Clarendon Press, 1910.

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