A língua gótica e o português

Quando se fala na formação do português, os olhos se voltam para o latim vulgar trazido pelos romanos, para a suavização céltica e para as marcas árabes deixadas durante a ocupação da Península Ibérica. Contudo, uma camada menos visível repousa sob essa superfície românica: a herança dos godos.

Povo germânico oriental que, mais do que guerreiros, foi senhor da transição entre o mundo antigo e o medieval, os godos deixaram no português palavras esparsas e a memória de uma identidade política e religiosa alternativa.

Origem dos godos e Úfilas

A origem e história dos godos é fruto da migração. Originários da Escandinávia (Gotalândia), na Idade do Ferro cruzaram o mar Báltico e se estabeleceram nas planícies do Vístula. Mais tarde, moveram-se pelas planícies que formam um corredor entre o Báltico e o Mar Negro. Foi quando se dividiram em dois ramos, os ostrogodos (godos do leste) e visigodos (godos do sul). Depois, viraram para o sul pressionando as fronteiras do Império Romano ainda no século III, conforme relatado pelo historiador Jordanes.

Sua conversão ao cristianismo, na versão do arianismo, os projetou para a história intelectual. O grande nome desse processo é Úfilas (Wulfila, “Lobinho ou Lobato”), bispo e tradutor do século IV. Na época, os godos estavam estabelecidos nos balcãs. Ora ameaçavam, ora serviam aos interesses romanos do Bizâncio. E Úfilas, para difundir a fé entre os godos, criou um alfabeto gótico, baseado no grego e, supostamente no rúnico. Com ele traduziu a Bíblia do grego para a língua gótica. Desse trabalho sobrevive o Codex Argenteus (Bíblia de Prata), em Uppsala. Seria o maior monumento escrito da língua gótica. Sem Úfilas, nossa compreensão do gótico seria ínfima, e a influência germânica no latim ibérico teria um lastro muito mais tênue.

Reinos Godos e o Arianismo: A Península sob Outra Fé

Enquanto o Império Romano sucumbia, os visigodos que, após saquearem Roma em 410 sob Alarico, estabeleceram um reino que se estendia do sul da Gália a grande parte da Hispânia. Sob a liderança de Teodorico, o Grande, os ostrogodos na península Itálica (493–552), marcando a Antiguidade Tardia antes de serem derrotados pelo Império Bizantino. Deixaram obras arquitetónicas magnificentes em Ravena, Pávia e Verona. A Igreja de Sant’Agata dei Goti é uma das igrejas mais antigas de Roma, localizada no coração do bairro histórico de Monti, e um dos últimos locais de culto do cristianismo ariano.

O reino visigodo de Toledo, entre os séculos VI e VIII, foi o herdeiro direto da romanidade na Península Ibérica. Para os godos, Cristo era uma criação do Pai e não coeterno a Ele. Essa diferença teológica funcionou, durante quase dois séculos, como marcador étnico. Ser godo significava ser ariano; ser romano-hispânico significava ser católico. A divisão se dissolveu em 589, quando o rei Recaredo converteu os visigodos ao catolicismo, unificando política e religiosamente a península. Os anos de separação, contudo, favoreceram a preservação de um vocabulário germânico distinto, que sobreviveria à invasão árabe.

A língua gótica

O gótico é a língua germânica mais antiga com um corpus textual substancial. Sua gramática ainda preserva traços do proto-germânico, incluindo um sistema de casos, composto por nominativo, acusativo, genitivo e dativo, gêneros gramaticais e uma conjugação verbal complexa que inclui um passado formado por reduplicação, eco do grego antigo. Diferentemente do alemão moderno, o gótico não sofreu a mutação consonantal do alto alemão. Seu vocabulário, conhecido sobretudo pela Bíblia de Úfilas, inovou em termos religiosos neológicos, como guda para Deus e daimone para demônio, além de palavras ligadas ao poder e à guerra. São justamente os vocábulos do cotidiano guerreiro e jurídico que sobreviverão nas línguas românicas da Península Ibérica.

O gótico da Crimeia

Um local tardio de sobrevivência e evolução do gótico foi a Crimeia. Enquanto os visigodos se instalavam na Hispânia, um pequeno grupo de godos permaneceu nas estepes do mar Negro, isolado por mais de mil anos. No século XVI, o embaixador flamengo Ogier Ghiselin de Busbecq registrou uma lista de palavras supostamente faladas por um povo germânico na Crimeia. Entre elas estavam ada (ovo), apel (maçã) e goltz (ouro). A autenticidade desses registros é debatida, mas a hipótese permanece atraente. Talvez um dialeto gótico tenha sobrevivido até o Renascimento como um fóssil vivo germânico em terra eslava.

Herança do gótico no português

Embora não tenha alterado a estrutura latina do idioma, o gótico forneceu um léxico de alta frequência em áreas específicas.

  • No campo da guerra e da conquista, encontram-se palavras como guerra (do gótico wirro, confusão), roubar (raubon, saquear), espingarda (spingard, uma besta ou arma de fogo primitiva) e tropa (thorp, reunião de pessoas).
  • No direito e na organização social, destacam-se banco (do gótico banks, assento, termo que deu origem ao banco financeiro), estaca (stakka) e engodo (isca, do gótico ga-waddjan).
  • No léxico cotidiano aparecem vocábulos como fita (faixa, do gótico fita), assoalho (ans + alh, tabuado do chão) e louro (cor, do gótico hlōþs).
  • A influência também se manifesta na toponímia e nos nomes pessoais. Nomes como Rodrigo (Hrod- + -ric, “famoso pelo poder”) e Afonso (Adalfuns, “nobre pronto”), além dos sufixos em -ez presentes em formas como López, González e Rodrigues, constituem uma das heranças mais vivas desse legado. Embora o sufixo seja visigótico, seu significado é “filho de”. Sem os godos, o português não teria essa camada patronímica germânica.

Outra herança indireta é a própria sonoridade do português arcaico. Os visigodos, ao abandonarem o arianismo e se fundirem à população hispano-romana, não impuseram sua língua. Ainda assim, imprimiram certo apreço por palavras curtas, guturais e marcadas por consoantes oclusivas, característica que diferencia o português, por exemplo, do italiano ou do romeno.

SAIBA MAIS

FRIEDMANN, Sigismund, 1852-1917. La Lingua Gotica : Grammatica, Esercizi, Testi, Vocabolario Comparato Con Ispecial Riguardo Al Tedesco, Inglese, Latino e Greco / Del S. Friedmann. Hoepli, 1896, 1896.

GUIMARÃES, Gabriella Veras Rodrigues. Legado visigodo: a influência da língua gótica no período de formação da língua portuguesa. Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 24, n. 72, p. [páginas inicial-final], num./dez. 2018.

PIEL, J. M. O patrimônio visigodo da língua portuguesa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1942.

https://www.germanic-lexicon-project.org

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