A nossa vizinhança cósmica parece hoje um condomínio bem mapeado. No entanto, o histórico da astronomia e da imaginação humana está repleto de “endereços” que nunca existiram ou que sumiram do mapa. Segue uma lista de planetas míticos, teóricos e puramente delirantes que habitam ou habitaram o nosso Sistema Solar — algo que daria um excelente catálogo de imóveis fantasmas.

Planetas astronômicos históricos e hipotéticos
Propostos por astrônomos, astrofísicos ou matemáticos para preencher lacunas teóricas ou explicar anomalias gravitacionais antes da física moderna.
- Vulcano: no século XIX, o matemático Urbain Le Verrier propôs um planeta entre Mercúrio e o Sol para explicar o movimento estranho da órbita mercuriana. Em 1915, a Relatividade Geral de Einstein provou que era a curvatura do espaço-tempo, e não um planeta, o que causava o desvio. Vulcano foi “demitido” da realidade.
- Theia: o “planeta órfão” do tamanho de Marte que teria colidido com a Terra primitiva há 4,5 bilhões de anos. Não o vemos porque ele se fundiu a nós. Os destroços dessa pancada cósmica formaram a Lua. É a base da Hipótese do Grande Impacto.
- Fáeton (Phaeton): antes de entendermos que o cinturão de asteroides é material que nunca conseguiu se agrupar, acreditava-se que ali existia um planeta que explodiu. Hoje sabemos que a gravidade de Júpiter impediu esse “parto” planetário.
- Anti-Terra (Antichthon): ideia dos pitagóricos de que haveria um planeta exatamente oposto à Terra, escondido atrás do Sol. A mecânica orbital moderna diz que a estabilidade de tal objeto seria impossível sem que percebêssemos sua influência.
O mistério das bordas: planetas transnetunianos
Corpos propostos para explicar o comportamento de objetos no “quintal” gelado do sistema.
- Planeta X (de Lowell): no início do século XX, Percival Lowell buscava um gigante que estaria perturbando Urano. Acabou levando à descoberta de Plutão (1930), mas Plutão era pequeno demais para ser o culpado. As anomalias eram, na verdade, erros de cálculo na massa de Netuno.
- Planeta Nove (o moderno): proposto em 2016 por Mike Brown e Konstantin Batygin. Seria uma “Super-Terra” (5 a 10 massas terrestres) em uma órbita elíptica a 800 UA do Sol. A evidência é estatística: o alinhamento bizarro de objetos distantes no cinturão de Kuiper sugere que algo grande os está “pastoreando”.
- Tyche: um gigante gasoso proposto em 2011 na Nuvem de Oort para explicar a origem de cometas de longo período. Dados do telescópio WISE da NASA basicamente descartaram sua existência.
- Quinto Gigante: modelos de simulação da migração planetária sugerem que o Sistema Solar começou com cinco gigantes gasosos. Um deles teria sido “chutado” para o espaço interestelar após um encontro gravitacional com Júpiter, tornando-se um planeta errante.
Teorias da conspiração e pseudociência
Planetas que surgem de interpretações esotéricas ou medo do apocalipse, sem qualquer base observacional.
- Nibiru (ou Planeta X conspiracionista): popularizado por Zecharia Sitchin a partir de tabuletas sumérias mal interpretadas. Seria um planeta com órbita de 3.600 anos que traz catástrofes. Astronomicamente impossível: se existisse, já teria bagunçado as órbitas dos planetas internos há milênios.
- Nêmesis: proposta em 1984 como uma estrela companheira do Sol (anã vermelha ou marrom) que causaria extinções em massa periódicas ao lançar cometas para dentro do sistema. Buscas infravermelhas extensas não encontraram sinal de Nêmesis.
- Planeta Serpo: parte de uma suposta troca de intercâmbio entre humanos e alienígenas no sistema Zeta Reticuli. Embora fora do sistema solar, é frequentemente citado em lendas urbanas de ufologia governamental brasileira e americana.
- Hercólubus ou Hercólubus que supostamente se aproximava da Terra e causaria o fim do mundo em 1999 e novamente em 2012. Aparentemente, trata-se de uma fusão de diversos relatos imaginativos. Na década de 1940, o chileno Carlos Muñoz Ferrada anunciou que, em 1999, um gigantesco planeta vermelho seria visível da Terra a olho nu, causando catástrofes. Mais tarde, em 1956, foi a vez do médium e advogado brasileiro Hercílio Maes (1913-1993), que o nomeou Hercólubus. Posteriormente, místicos colombianos conhecidos pelos pseudônimos Samael Aun Weor e Rabolú elaboraram sobre o assunto. Este último chegou a escrever um pequeno livro sobre o planeta.
- Clarion: planeta presente nas crenças de contatados de OVNIs e em tradições de canalização nos anos 1950. Aparece nas profecias de Dorothy Martin (Marian Keech) estudadas no clássico da psicologia social When Prophecy Fails e nos relatos do contatado de OVNIs Truman Bethurum.
Tradições esotéricas e mitológicas
Pontos matemáticos ou corpos simbólicos usados em astrologia e espiritualidade.
- Lilith (Lua Negra): não é um corpo físico, mas o apogeu da órbita lunar (o ponto mais distante da Terra). Na astrologia, representa energias ocultas. Algumas seitas antigas acreditavam que era uma segunda lua de poeira que não refletia luz.
- Planetas da Escola de Hamburgo de Astrologia: nomes como Admetos, Ísis e Perséfone são usados por astrólogos uranianos para designar “pontos de energia” além de Netuno. Para a ciência, são endereços inexistentes.
Erros de visão e embustes
Quando a tecnologia da época ou o desejo de fama pregaram peças nos astrônomos.
- Neith (a lua de Vênus): durante os séculos XVII e XVIII, vários astrônomos (incluindo Giovanni Cassini) juraram ter visto um satélite em Vênus. Foi nomeado Neith. Hoje sabemos que eram as lentes embaçadas, reflexos internos nos telescópios ou estrelas distantes ao fundo.
- A “Lua da Lua” (Petite Lune): tentativas de encontrar satélites naturais orbitando a nossa Lua. Nunca confirmados, pois as perturbações da Terra e do Sol tornam órbitas estáveis ao redor da Lua muito difíceis de manter.
Planetas da ficção
Mundos que, de tanto aparecerem em livros e filmes, quase ganham cidadania no imaginário popular.
- Tormance: planeta orbitando a estrela Arcturus, onde se passa o romance de fantasia filosófica e ficção científica A Voyage to Arcturus (1920), de David Lindsay. É um mundo surreal, simbolizando diferentes estados de mente e sistemas filosóficos em uma exploração da natureza do bem e do mal através de uma jornada iniciática.
- Mongo (Flash Gordon): um planeta errante que entra no nosso sistema solar e ameaça a Terra. Um clássico do pulp que desafia todas as leis da gravidade.
- Krypton (DC Comics): o lar do Superman. Embora geralmente situado em outro sistema (orbitando a estrela vermelha Rao), algumas versões clássicas o colocavam perigosamente perto das nossas fronteiras conceituais.
- Remina (Hellstar Remina): no mangá de Junji Ito, um planeta consciente e faminto que viaja pelo espaço devorando outros astros e entra no sistema solar para consumir a Terra.
- Solaris (Stanisław Lem): um planeta-oceano senciente. Embora orbite um sistema binário, tornou-se o epítome do “planeta como personagem” na ficção científica.
- Asteroide B-612: lar do Pequeno Príncipe.
Alguns dos planetas mais famosos de Rick and Morty:
- Terra (Dimension C-137): a dimensão original do Rick protagonista.
- Terra Cronenberg: a Terra transformada em monstros mutantes após experimento fracassado.
- Gazorpazorp: planeta onde homens e mulheres vivem separados; origem de Gazorpazorpfield.
- Planeta Squanch: mundo natal dos Squanchy e palco do casamento de Birdperson.
- Planeta de Unity: planeta controlado pela entidade coletiva Unity.
- Bird World: mundo natal de Birdperson.
- Froopyland: tecnicamente uma dimensão artificial, mas funciona como um “mundo” próprio criado por Rick para Beth.
- Anatomy Park (dentro de Ruben): parque temático microscópico dentro de um corpo humano.
- Planeta Purga: mundo onde ocorre uma noite anual de violência total (paródia de The Purge).
- Planeta dos Cromulons: onde cabeças gigantes organizam o concurso musical interplanetário (“Show me what you got”).
- Planeta dos Testicle Monsters: planeta dominado por criaturas em forma de testículo gigante.
Alguns dos planetas mais famosos de O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams:
- Terra (Earth): construída como supercomputador para descobrir a Pergunta Fundamental à Resposta Última (42).
- Magrathea: planeta industrial que fabrica mundos sob encomenda, lar de Slartibartfast e segredos cósmicos.
- Vogsphere: mundo natal dos Vogons, burocratas poéticos responsáveis por demolir planetas inteiros.
- Betelgeuse Five: planeta de Zaphod Beeblebrox, presidente galáctico com duas cabeças e ego infinito.
- Krikkit: planeta isolado cujos habitantes desenvolvem ódio mortal ao resto do universo.
- Santraginus V: oceânico, famoso por pores do sol alucinantes e ingrediente de coquetéis gargleblaster.
- Lamuella: exílio de Arthur Dent, onde ele faz sanduíches em paz (até o apocalipse voltar).
- Nano: nova Terra erguida por ratos filósofos após a demolição da original.
- Damogran: oceânico, palco do lançamento da Heart of Gold e de uma Terra-protótipo fracassada.
- Eroticon Six: planeta erotizado na caçada por Zaphod, mas que só rende piadas ruins e hyperspace bypasses.
Esses mundos adamsianos provam que o Sistema Solar imaginário é mais bagunçado — e burocrático — que o real.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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- Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Planetas hipotéticos, míticos ou falsos. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/05/23/planetas-hipoteticos-miticos-ou-falsos/. Acesso em: 11 fev. 2026.

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