A trajetória de Bruno Latour (1947–2022) é inseparável de uma pergunta que ele nunca abandonou: como o conhecimento científico é produzido? Não no sentido filosófico clássico, que pergunta pelas condições lógicas da verdade, mas no sentido etnográfico, que pergunta o que os cientistas fazem, com quem se aliam, quais instrumentos mobilizam e por que certas afirmações sobrevivem enquanto outras desaparecem. Essa pergunta, aparentemente simples, levou-o a conclusões que irritaram físicos, filósofos, sociólogos e ambientalistas, muitas vezes ao mesmo tempo.
A teoria ator-rede
A contribuição metodológica mais conhecida de Latour é a teoria ator-rede, desenvolvida junto com Michel Callon e John Law no Centro de Sociologia da Inovação em Paris. O nome é enganoso: a própria teoria nega ser uma teoria no sentido usual. Latour a descreveu como uma “não-teoria” ou uma “sociologia das associações”, cujo objetivo era rastrear conexões em vez de explicá-las por categorias preexistentes.
O princípio central é a simetria radical. A análise deve tratar humanos e não humanos pelo mesmo conjunto de ferramentas analíticas, sem atribuir a priori mais agência a uns do que a outros. Bactérias, máquinas, instrumentos científicos e tecnologias podem ser “atores” ou “actantes”, isto é, entidades que produzem diferença numa rede de associações. Uma bomba de vácuo no laboratório de Robert Boyle não é apenas um cenário para o experimento; ela é parte do argumento. Sem ela, o fato científico não existe. A sociedade, nessa perspectiva, não é um pano de fundo estável sobre o qual os humanos agem; é o resultado provisório e contestado de associações heterogêneas que precisam ser constantemente renovadas.
Pense em como uma estrada de ferro se torna real. Ela não surge da decisão de um engenheiro nem da vontade de um governo. Ela existe porque foram alinhados trilhos, investidores, trabalhadores, concessões legais, mapas geológicos, locomotivas e horários de trem. Se qualquer um desses elementos se desconectar, a ferrovia para de funcionar como rede. O mesmo raciocínio, para Latour, vale para um fato científico: ele existe enquanto a rede de laboratórios, publicações, financiamentos, aparelhos e pesquisadores que o sustenta permanecer ativa. Essa analogia ilustra por que Latour insistia que os fatos não “descobrem” o mundo; eles constroem, peça por peça, as condições de sua própria credibilidade.
Já em 1999, o próprio Latour, junto com Callon e Law, ofereceu críticas ao que a teoria ator-rede havia se tornado: um “sésamo da moda” aplicado indiscriminadamente a tudo, esvaziando o rigor que a abordagem pretendia impor. Essa autocrítica é característica de Latour. Ele raramente deixou suas próprias propostas intocadas por muito tempo.
A ciência como campo de batalha
O trabalho etnográfico de Latour começou com Laboratory Life, publicado em 1979 com Steven Woolgar, baseado em meses de observação no Instituto Salk, na Califórnia. O livro apresentou o laboratório não como um lugar onde a natureza revela seus segredos, mas como um local de trabalho onde afirmações competem por credibilidade mediante negociações sociais, políticas e econômicas. O conhecimento científico, argumentavam os autores, era uma construção artificial, não uma descoberta neutra.
Em A Pasteurização da França, de 1984, e em Ciência em Ação, de 1987, Latour desenvolveu a metáfora que o tornaria famoso e polêmico: a comunidade científica como campo de batalha. Novas teorias, fatos e tecnologias vencem porque reúnem aliados suficientes para sobrepujar as alternativas. Um fato científico se torna “verdadeiro” ao ganhar o combate pela dominância, processo que o imuniza contra desafios futuros. A correspondência com a realidade não é o critério decisivo; a capacidade de mobilizar humanos, instrumentos e instituições é.
Essa posição levou Latour a declarações que seus críticos consideraram simplesmente absurdas. Em 1998, ele afirmou que Ramsés II não poderia ter morrido de tuberculose, pois o bacilo de Koch foi descoberto apenas em 1882 e, portanto, não poderia “propriamente ter existido” antes dessa data. O argumento pretendia ilustrar que as entidades científicas só se tornam reais dentro das práticas que as constituem. Para seus adversários, ele ilustrava apenas que o construtivismo radical era incapaz de distinguir entre a descoberta de uma bactéria e sua criação.
Nunca fomos modernos
Em Jamais Fomos Modernos, de 1991, Latour formulou seu diagnóstico mais abrangente da cultura ocidental. A modernidade, argumentou, se define por uma contradição que jamais admite. Por um lado, ela “purifica”: separa rigorosamente a natureza da sociedade, os humanos dos não humanos, a ciência da política, o fato do valor. Por outro lado, ela “hibrida”: produz continuamente entidades que misturam esses domínios, como o aquecimento global, os organismos geneticamente modificados e as redes digitais. O buraco na camada de ozônio não é puramente natural nem puramente social; é um híbrido que a modernidade cria mas se recusa a reconhecer como tal.
A tese central, condensada no título, é que essa separação foi sempre uma ficção. Os modernos nunca viveram em domínios separados; sempre habitaram um mundo constituído por misturas de natureza e cultura. O que os distingue de outras formas de organizar a experiência não é a conquista efetiva da separação, mas a negação sistemática de que a hibridização está acontecendo. Latour chamou essa negação de “constituição moderna”, e propôs que ela fosse substituída por uma “antropologia simétrica” capaz de analisar laboratórios e rituais de cura com as mesmas ferramentas, sem privilegiar a priori a racionalidade ocidental.
Essa simetria tinha implicações diretas para a relação entre modernidade e as culturas que ela classificava como “primitivas”. A “Grande Divisão” entre o Nós moderno e o Eles primitivo, que fundava a autoridade da ciência e da política ocidentais, era, para Latour, um mito que a modernidade precisava para se manter. Desfazê-lo não significava negar que a ciência produz conhecimento eficaz; significava recusar a ideia de que ela o produz por uma razão qualitativamente diferente de qualquer outra prática humana.
Ecologia política e gaia
A partir dos anos 2000, o foco de Latour deslocou-se progressivamente para as questões ambientais. Em Políticas da Natureza, de 1999, ele propôs substituir o conceito de “Natureza” como domínio separado e apolítico por um “coletivo” de humanos e não humanos engajados em deliberação política. A mudança terminológica não era cosmética. Para Latour, invocar a Natureza em debates políticos era uma forma de encerrar a discussão antes que ela começasse: o que é “natural” parece fora do alcance da contestação democrática.
Em Diante de Gaia, de 2015, e Onde Aterrar?, de 2018, ele radicalizou essa perspectiva diante da crise climática. Retomando a hipótese Gaia de James Lovelock, que concebia a Terra como um sistema complexo e reativo, Latour descreveu o que chamou de “novo regime climático”: um momento em que a Terra deixou de ser o pano de fundo estável da política humana e se tornou um ator. As mudanças climáticas não eram apenas um problema técnico a ser resolvido pela ciência; eram uma ruptura na ordem geopolítica, exigindo uma reorientação completa das alianças e dos projetos coletivos.
Há uma ironia perceptível aqui. O pensador que passou décadas argumentando que a natureza não existe como domínio separado passou os últimos anos alertando que a Terra reage às ações humanas de formas que tornam urgente levá-la a sério. Seus críticos apontaram a tensão. Latour respondeu, em essência, que reconhecer Gaia como ator não era reificar a Natureza, mas reconhecer que os híbridos de humanos e não humanos que ele sempre descreveu adquiriram escala planetária.
As guerras da ciência e suas consequências
Latour foi uma das figuras centrais das “guerras da ciência” dos anos 1990, conflito entre construtivistas sociais e realistas científicos que extrapolou as revistas acadêmicas e chegou aos jornais. Em Imposturas Intelectuais, de 1997, os físicos Alan Sokal e Jean Bricmont o identificaram como exemplo de “impostura intelectual”: o uso irresponsável de conceitos científicos por pensadores pós-modernos para produzir um efeito de profundidade sem conteúdo real.
Latour reconheceu, anos depois, que sua postura de “desmascaramento” havia se tornado contraproducente. Os argumentos que ele desenvolvera para desafiar a autoridade científica eram reapropriados por negacionistas das mudanças climáticas, que os usavam para desqualificar o consenso científico sobre o aquecimento global. Esse reconhecimento foi honesto e custoso. Significava admitir que uma teoria pode ter consequências políticas que seus criadores não previram e não desejam.
A controvérsia sobre Ramsés II voltou a concentrar as críticas. Para Philippe Stamenkovic, as aplicações da teoria ator-rede “declaram em vez de explicar”, apresentando afirmações como descobertas sem demonstração empírica substantiva. Mais grave, a recusa de Latour em distinguir entre agência humana e não humana obscurecia, segundo críticos como Andreas Malm, as responsabilidades humanas pela crise ecológica. Se bactérias, rios e dióxido de carbono têm agência comparável à dos humanos, quem responde pelo desmatamento? A simetria analítica, argumentavam esses críticos, produzia uma assimetria política: os poderosos saíam ilesos enquanto a culpa se diluía na rede.
Recepções e o problema da aplicação
Nem toda crítica foi de rejeição. Antoine Hennion, colega de Latour no Centro de Sociologia da Inovação, ofereceu uma leitura mais cuidadosa. Para ele, tanto os celebradores quanto os detratores de Latour adotavam um tom dogmático incompatível com a própria prática de Latour, que sempre preferiu discutir com os que resistiam às suas posições do que com os que as aplicavam mecanicamente. O problema com a teoria ator-rede não era que estivesse errada; era que havia sido transformada em um instrumento de confirmação de hipóteses, perdendo a capacidade de surpresa que lhe dera força original.
Essa observação toca num ponto real. Latour sempre tratou seus conceitos como ferramentas provisórias, não como dogmas. Ele foi um dos primeiros a criticar as versões endurecidas da teoria ator-rede e a propor, no projeto posterior sobre os “modos de existência”, uma abordagem mais pluralista, que reconhecia a legitimidade de diferentes regimes de valor, como o direito, a ciência, a religião e a política, sem reduzi-los uns aos outros. Esse projeto tardio, apoiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa entre 2011 e 2015, era uma tentativa de dar conta da pluralidade das práticas humanas sem o relativismo total que seus críticos lhe atribuíam.
A vida de Latour
Bruno Latour nasceu na Borgonha francesa, e morreu em outubro de 2022. Deixou uma obra que permanece entre as mais discutidas e contestadas das ciências humanas contemporâneas. Após uma formação inicial frustrada em teologia católica, doutorou-se em filosofia pela Universidade de Tours em 1975 e passou as décadas seguintes dividido entre o Centro de Sociologia da Inovação da MINES ParisTech, onde trabalhou de 1982 a 2006, e Sciences Po Paris, onde foi professor e vice-presidente de pesquisa até 2017. Em 2013, recebeu o Prêmio Holberg, frequentemente descrito como o equivalente do Nobel para as humanidades e ciências sociais. Em 2021, foi agraciado com o Prêmio Kyoto. Esses reconhecimentos não dissiparam as controvérsias. Quiçá as tenham intensificado.
A influência de Latour se estende por domínios que ele nunca reivindicou como seus. Nos estudos de ciência e tecnologia, a teoria ator-rede tornou-se referência canônica. Na filosofia, alimentou o realismo especulativo e a ontologia orientada a objetos de Graham Harman, que lhe dedicou um livro inteiro. Nas humanidades ambientais, moldou o debate sobre o Antropoceno. Na retórica e nos estudos da comunicação, influenciou análises da produção do discurso científico. Latour também dirigiu exposições no ZKM Karlsruhe, entre elas Iconoclash e Making Things Public, que transpunham suas ideias para o espaço curatorial com eficácia considerável.
A questão de se sua obra “faz sentido” no sentido que seus críticos exigem permanece aberta. Há uma terceira posição, representada por Hennion e outros, que sugere nem celebrar nem condenar Latour em bloco, mas “inventar ao redor” de suas propostas: testá-las, traí-las onde necessário, mantê-las onde iluminam. Essa postura é, curiosamente, a que o próprio Latour adotou diante de seus predecessores. Poucos pensadores do século XX produziram tantos debates tão vivos. Isso, em si, é uma forma de legado.
SAIBA MAIS
HENNION, Antoine. Open comments on Blok & Bruun Jensen’s paper ‘What next for actor network theory? Inventing around Latour on a planet in distress’. Dialogues in Sociology, 2024. DOI: 10.1177/29768667241285710.
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora UNESP, 2000.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
LATOUR, Bruno. A pasteurização da França. São Paulo: Editora UNESP, 2019.
LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004.
LATOUR, Bruno. Reassembling the social: an introduction to actor-network-theory. Oxford: Oxford University Press, 2005.
LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.
ROWLAND, Nicholas J.; PASSOTH, Jan-Hendrik; KINNEY, Alexander B. Bruno Latour: Reassembling the Social: An introduction to Actor-Network-Theory. Spontaneous Generations, v. 5, n. 1, 2011. DOI: 10.4245/sponge.v5i1.14968.
SOKAL, Alan; BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 1999.
STAMENKOVIC, Philippe. The actor-network fantasy. Dialogues in Sociology, 2025. DOI: 10.1177/29768667241312684.



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