Platão: a analogia da linha dividida

Platão propôs uma escala, um verdadeiro espectro, desde a mera conjectura até o conhecimento genuíno. Em um diálogo entre Sócrates e Glauco n’A República, situado entre a alegoria do Sol e a alegoria da caverna, um modelo do conhecimento e da realidade ilustra como seria possível realmente conhecer alguma coisa.

Nessa gradação do conhecimento há opinião (doxa) e conhecimento fundamentado (episteme). Cada um subdivide-se. A opinião pode ser mera ilusão ou senso comum. O conhecimento fundamentado pode ser um raciocínio elaborado ou uma certeza fundamentada.

Uma imaginação pode até estar certa por sorte, mas é menos provável ou seguro afirmar sua veracidade. Já no outro lado, o conhecimento inteligente é bem mais provável e menos dependente de contingências.

A terminologia em si não importa. Pístis ou episteme são, por vezes, traduzidas como fé. Psique é traduzido como mente ou alma.

O método para passar da conjectura para a inteligência parte das observações das aparências. Com base na alegoria da caverna, ao vermos as sombras projetadas fazemos suposições de semelhaças com aquilo que somos familizarizados (segmento A-B, ou eikasía). Depois, caso aprofundemos na busca do conhecimento, olhamos para as coisas físicas que projetaram a imagem (segmento B-C, pístis). Muitos sentem-se satisfeitos aqui ou nossas necessidades de conhecimento não especializado para nesse ponto. Porém, aqui ainda é domínio da opinião ou das aparências. Trata-se do mundo visível ou sensível.

O verdadeiro conhecimento ocorre no mundo cognoscível ou inteligível. Com base nas observações da pístis, entendemos a relação entre as coisas. Na analogia da caverna, perceberíamos o processo de como os objetos projetam as sombras a partir da fonte de luz e faríamos hipóteses de causalidade ou de existência (segmento C-D, dianoia). Seriam os casos do raciocínios matemáticos, discursivos ou proposicionais. Por fim, ao darmos conta que o objeto projetado seria uma representação cuja forma real existe no mundo, teríamos atingido o conhecimento fundamentado ou inteligência (Segmento D-E, noesis). Aqui existe o mundo inteligível ou cognoscível.

Estamos em um mundo onde distinguir fato de opinião ou conhecimento de imaginação tornaram-se questão de sobrevivência. Em razão disso, essa distinção platônica entre os modos de conhecimento e de realidade servem como ponto de partida para um raciocínio crítico.

A ANALOGIA DA LINHA DO CONHECIMENTO

Sócrates — Considera, então, que existem dois reis, reinando um sobre o campo do inteligível e o outro, do visível: não diga do céu, com receio de pensar que brinco com as palavras. Mas consegue imaginar estes tais gêneros, a visível e o inteligível?
Glauco — Consigo.
Sócrates — Agora, pega uma linha cortada em dois segmentos desiguais, representando um o gênero visível, o outro o inteligível, e corta de novo cada segmento respeitando a mesma proporção. Então, classificou-se as divisões obtidas conforme o seu grau relativo de clareza ou de obscuridade, no mundo visível, um primeiro segmento, a das imagens. Denomino imagens primeiramente às sombras, depois aos reflexos que se veem nas águas ou na superfície dos corpos opacos, polidos e brilhantes, e a todas as representações semelhantes. Compreendes?
Glauco — Lógico que sim.
Sócrates — Considera agora que o segundo segmento corresponde aos objetos que essas imagens representam, ou seja, os animais que nos cercam, as plantas e todas as obras de arte.
Glauco — Estou considerando.
Sócrates — Concorda também em dizer que, no que concerne à verdade e ao seu contrário, a divisão foi feita de tal modo que a imagem está para o objeto que reproduz como a opinião está para a ciência?
Glauco — Concordo plenamente.
Sócrates — Vê agora como deve ser dividido o mundo inteligível.
Glauco — Como?
Sócrates — Na primeira parte desse segmento, a alma [psique], utilizando as imagens dos objetos que no segmento precedente eram os originais, é obrigada a estabelecer suas análises partindo de hipóteses, seguindo um caminho que a leva, não a um princípio, mas a uma conclusão. No segundo segmento, a alma [psique]parte da hipótese para chegar ao princípio absoluto, sem lançar mão das imagens, como no caso anterior, e desenvolve a sua análise servindo-se unicamente das ideias.
Glauco — Não compreendo muito bem o que dizes.
Sócrates — Sem dúvida, compreenderá mais facilmente depois de ouvir o que vou dizer. Sabe, penso eu, que aqueles que se dedicam à geometria, à aritmética ou às outras ciências do mesmo gênero pressupõem o par e o ímpar, as figuras, três espécies de ângulos e outras coisas da mesma família para cada pesquisa diferente; que, tendo pressuposto estas coisas como se as conhecessem, não se dignam justificá-las nem a si próprios nem aos outros, considerando que elas são evidentes para todos; que, finalmente, a partir daí, deduzem o que se segue e acabam por alcançar, de forma consequente, a demonstração que tinham em vista.
Glauco — Sei isso perfeitamente.
Sócrates — Então, sabe também que eles utilizam figuras visíveis e raciocinam sobre elas pensando não nessas mesmas figuras, mas nos originais que elas reproduzem. Os seus raciocínios baseiam-se no quadrado em si mesmo e na diagonal em si mesma, e não naquela diagonal que traçam. O mesmo vale para todas as outras figuras. Todas essas figuras que modelam ou desenham, que produzem sombras e os seus reflexos nas águas, elas as utilizam como tantas outras imagens, para tentar ver esses objetos em si mesmos, que, de outro modo, só podem ser percebidos pelo pensamento.
Glauco — É verdade.
Sócrates — Eu afirmava que os objetos desse gênero pertencem à classe do inteligível mas que, para conseguir conhecê-los, a alma [psique] é obrigada a recorrer a hipóteses, servindo-se destas como de imagens dos mesmos objetos que produzem sombras no segmento inferior, e que, em relação a essas sombras, são tidas e considerados como claros e distintos.
Glauco — Compreendo que o que dizes se refere à geometria e às ciências da mesma natureza.
Sócrates — Percebe agora que entendo por segunda divisão do mundo inteligível aquela que a razão alcança pelo poder da dialética, considerando suas hipóteses não princípios, mas simples hipóteses, isto é, pontos de apoio e trampolins para se elevar até o princípio universal que já não admite hipóteses. Atingido esse princípio, ela se apega a todas as consequências que decorrem dele, até chegar à última conclusão, sem recorrer a nenhum dado sensível mas somente às ideias, pelas quais procede e às quais chega.
Glauco — Compreendo-te em parte, mas não satisfatoriamente, porque tratas de um tema muito difícil. Queres estabelecer que o conhecimento do ser e do inteligível, que é adquirido pela ciência da dialética, é mais claro que aquele que é adquirido pela que denominamos ciências, as quais possuem hipóteses como princípios. É certo que aqueles que se consagram às ciências são obrigados a utilizar o raciocínio, e não os sentidos. No entanto, visto que nas suas investigações não apontam para um princípio, mas partem de hipóteses, julgas que eles não têm a inteligência dos objetos estudados, mesmo que a tivessem com um princípio. Parece-me que chama de conhecimento discursivo, e não inteligência, a geometria e outras ciências do mesmo gênero, considerando esse conhecimento intermediário entre a opinião e a inteligência.
Sócrates — Conseguiu me entender bastante bem. Aplica agora a estas quatro seções estas quatro operações da alma [psique]: a inteligência à seção mais elevada, o conhecimento discursivo à segunda, à crença [pístis] à terceira, a imaginação [conjectura] à última; e dispõe-nas por ordem de clareza, partindo do princípio de que, quanto mais seus objetos participam da verdade, mas eles são claros.
Glauco — Compreendo. Concorda contigo e adoto a ordem que você sugeriu.

PLATÃO. A república. Livro VI.   509d- 511e.  Tradutor desconhecido. Notas minhas.


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