100, 200 anos do hino nacional

Um brado retumbante pelo cem anos da letra oficial e duzentos anos da música do Hino Nacional brasileiro.

O compositor e o poeta vira-casacas

A música do Hino Nacional que temos hoje no Brasil foi popularizada por volta de 1830 pelo maestro Francisco Manoel da Silva (1795-1865). Baseado em marchas marciais, a música refletia os ânimos do país praguejado com revoltas no período regencial que seguiram a abdicação de d. Pedro I. Entretanto, a melodia é um pouquinho mais antiga. Provavelmente Francisco Manoel iniciou a compô-la, então como “Marcha Triunfal” em 1822, nos meados do movimento pela independência do Brasil.

D. Pedro I prometeu (e não cumpriu) dar uma bolsa de estudos na Europa para Francisco Manoel. Sabe lá que amargor o músico remoeu, mas com a abdicação, a melodia de Francisco Manoel serviu para celebrar a queda do imperador caprichoso (e compositor de um concorrente Hino Constitucional). Foi executado no dia 14 de abril de 1831 no Teatro São Pedro do Rio de Janeiro e em 3 de maio na abertura das Câmaras Legislativas, então intitulado “O dia de júbilo para os amantes da liberdade” ou “A queda do tirano”. A dedicatória deixava claro o posicionamento político de Francisco Manoel. “Ao Grande e Heroico dia 7 de Abril de 1831, Hino Oferecido aos Brasileiros por um seu patrício nato”. A melodia passou a ser conhecida como “Hino ao 7 de Abril”.

A letra original para as apresentações de 1831 foi composta pelo poeta piauiense Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva (1787-1852).

Os bronzes tirania
Já no Brasil não rouquejam
Os monstros que nos escravizam
Já entre nós não vicejam.

(Refrão) Da pátria o grito
Eis se desata
Desde o Amazonas
Até o Prata.

Ferros e grilhões e forças
De antemão se preparavam;
Mil planos de proscrição
As mãos dos monstros gisavam.

Refrão

Amanheceu finalmente
A liberdade no Brasil …
Ah! não desça à sepultura
O dia sete de abril.

Refrão

Este dia portentoso
Dos seja o primeiro.
Chamemos rio de abril
O que é Rio de Janeiro.

Refrão

Arranquem-se aos nossos filhos
Nomes e idéias dos lusos
Monstros que sempre em tradições
Nos envolveram, confusos.

Refrão

Ingratos a bizarria,
Invejosos de talentos,
Nossas virtudes, nosso ouro,
Foi seu diário alimento.

Refrão

Homens bárbaros, gerados
De sangue judaico e mouro,
Desenganai-vos, a pátria
Já não é vosso tesouro.

Refrão

Neste solo não viceja
O tronco da escravidão
A quarta parte do mundo
As três da melhor lição.

Refrão

Avante honrados patrícios
Não há momento a perder
Se já tendes muito feito
Idem mais resta a fazer.

Refrão

Uma prudente regência
Um monarca brasileiro
Nos prometiam venturosos
O porvir mais lisonjeiro.

Refrão

E vós donzelas brasileiras
Chegando de mães ao estado
Dai ao Brasil tão bons filhos
Como vossas mães tem dado.

Refrão

Novas gerações sustentam
Do povo a soberania
Seja isto a divisa deles
Como foi de abril um dia.

Refrão

O nacionalismo exacerbado que cantava o fim da escravidão e igualdade das raças pressupunha o fim da limpeza de sangue, incorporando judeus e mouros no cadinho brasileiro. Índios e africanos, obviamente, continuaram a ser escravizados. Isso sem contar a machismo condescendente que ignorava os papeis de mulheres como Maria Felipa de Oliveira, D. Leopoldina, Maria Quitéria e Sóror Joana Angélica de Jesus na independência.

Os tempos mudaram, a política também. Então, para não ficar em descompasso em 1841, um poeta desconhecido fez novas letras para celebrar a maioridade e reinado de d. Pedro II, sendo então conhecido como “Hino da Coroação”.

Negar de Pedro as virtudes
Seu talento esquecer
É negar como é sublime
Da beça aurora, o romper


(Estribilho) Da pátria o grito
Eis se desata
Do Amazonas
Até o Prata.
Da pátria o grito
Eis se desata (2x)

Menos chauvinista, Ovídio Saraiva refez a letra para minimizar o preconceito antilusitano.


Amanheceu finalmente
A liberdade ao Brasil
Não, não vai à sepultura
O dia Sete de Abril. (3x)


(Estribilho) Da pátria o grito
Eis se desata
Do Amazonas
Até o Prata.
Da pátria o grito
Eis se desata (2x)
Do Amazonas
Até o Prata.(2x)

Sete de Abril sempre ufano
Dos dias seja o primeiro
Que se chame Rio d´Abril
O que é Rio de Janeiro.(3x)

Estribilho

Uma regência prudente
Um monarca brasileiro,
Nos prometem venturoso
O porvir mais lisonjeiro.(3x)

Estribilho

Neste solo não viceja
A planta da escravidão;
A quarta parte do mundo
Deu às três melhor lição.(3x)

Estribilho

Lançados por mãos d´escravos
Não tememos ferros vis,
Ferve amor da liberdade
Até nas damas gentis.(3x)

Estribilho

Novas gerações sustentem
Da Pátria o vivo esplendor,
Seja sempre a nossa glória
o dia libertador.(3x)

Novo regime, novo hino

Quando o império bambo caiu, não fazi sentido um hino adulador da monarquia. A lenda diz que governo provisório fez um concurso público para um novo Hino Nacional e em 20 de janeiro de 1890 o Marechal Deodoro da Fonseca escutou os concorrentes, mas teria sentenciado: “prefiro o velho”.

Na verdade, já em 1888 o partido republicano brasileiro tinha seu hino. Com a Proclamação da República foi idealizado um concurso. Só que havia riscos de candidaturas de compositores populares, com influências africanas, para horror do crítico Oscar Guanabarino. Por fim, foi oficializado somente a música de Francisco Manoel junto de um novo Hino da Proclamação da República, com letra de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) e melodia de Leopoldo Américo Miguez (1850-1902), que hoje parece ninguém lembrar mais, mas alguns poucos reconhecem o refrão.

Então, o povo cansando de cantar o hino nacional com “tã-tã-tã-tã-tã-tã-tã-tarã” levou a um novo concurso em 1909. A nova poesia, de Joaquim Osório Duque-Estrada (1870-1927), venceu. Todavia, somente em1922, o presidente Epitácio Pessoa oficializou em lei a nova letra.

A parte deletada do Hino Nacional

Poucos sabem, mas parte instrumental da introdução do Hino Nacional Brasileiro possuía uma letra atribuída a Américo de Moura Marcondes de Andrade, presidente da província do Rio de Janeiro nos anos de 1879 e 1880.

A letra da introdução é a seguinte:

Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz Cumpri o dever na guerra e na paz À sombra da lei, à brisa gentil O lábaro erguei do belo Brasil Eia! Sus, oh, sus!

A interjeição latina “sus” é um encorajamento. Essa parte introdutória provavelmente popularizou-se no final do Império, mas já nos meados do século XX caiu em desuso.

Como na versão abreviada na Copa e outros eventos esportivos, nada impede que com o tempo o hino acabe reduzido. Espero que não.

SAIBA MAIS

Pereira, Avelino Romero Simões. «Hino Nacional Brasileiro: que história é esta?». Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, 1995 (38):21-42.

Westin, Ricardo. “Antes da versão atual, letra do Hino Nacional bajulava Pedro II”. Arquivo S: Agência Senado, 2017.

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