O grito do Ipiranga: 200 anos

A cena foi menos heróica que aquela retratada na pintura de Pedro Américo. Alguns parentes Marcondes meus acompanhavam D. Pedro I no grito do Ipiranga: o Coronel Manoel Marcondes de Oliveira e Melo, o Capitão João Monteiro do Amaral, Sargento Mor Domingos Marcondes Andrade, Alferes Manuel Ribeiro do Amaral, Antonio Marcondes Homem de Melo. Não se engane pelos títulos militares da guarda de honra (e depois da guarda nacional). Eram civis e tropeiros. Certamente não se pareciam nada com os dragões da independência em seus garbosos cavalos. Os Marcondes eram experientes sertanejos acostumados a atravessar com mulas os caminhos pedregosos com altos e baixos da Paulistânia. Como faltavam recursos públicos, a corte convidava os matutos da região a oferecer companhia, animais e pousio para formar a Guarda de Honra do ilustre viajante.

Coube honra ao cunhado putativo de D. Pedro, o tenente Francisco de Castro Canto e Melo. Tinha o cargo de irmão da amante imperial, a Marquesa de Santos, e recebia soldo como Ajudante de Ordem de Dom Pedro. O número (e nomes) dos presentes segundo Canto e Melo foram quarenta. É dele também o registro do grito de “independência ou morte” em tons gloriosos.

A viagem à província de São Paulo também tinha suas conveniências para o príncipe. Deixara a aflita esposa D. Leopoldina e o conselheiro José Bonifácio de Andrada e Silva cuidando das coisas de estado. Depois de deixar São Paulo rumo a Santos, onde no dia 29 de agosto conheceu Domitila de Castro Canto e Melo, sua amante que seria mais tarde enobrecida como Marquesa de Santos, D. Pedro estava de retorno serra arriba.

Ao invés da grande comitiva e gestos exagerados do quadro de Pedro Américo, o comboio de tropeiros pintado por Rugendas seria mais realista.

O coronel Manuel Marcondes de Oliveira e Melo, mais tarde o primeiro barão de Pindamonhangaba, escreveu o seu relato 40 anos após os acontecimentos.

Na volta da jornada a Santos (5 a 7 de setembro de 1822) na parte da manhã do dia 7, D. Pedro ia vestido de uma fardeta de polícia em uma besta baia gateada. O mesmo príncipe achava-se contemplado por uma disenteria que o obrigava a todo o momento a apear-se para prover-se.

A comitiva dividiu-se em duas. A Guarda de Honra seguia adiante, por certo para dar maior privacidade ao príncipe. Estacionou a Guarda na casinhola às margens plácidas do Ipiranga.

Atrás no caminho, D. Pedro recebeu um mensageiro que subiu a serra com umas cartas. Acompanhavam o príncipe meia-dúzia de pessoas mais íntimas, dentre elas o Chalaça, o coronel Marcondes, o novo cunhado-real Canto e Melo, além do padre Belchior.

O padre Belchior Pinheiro de Oliveira, pároco de Pitangui, partidário dos Andradas, era um dos poucos eruditos na comitiva. Ele também registrou os acontecimentos.

A natureza chamou D. Pedro mais uma vez para a moita. Sua alteza apeara e, entregando os documentos ao padre Belchior, deu-lhe ordem de que o seguisse e lesse alto o correio recebido.

Agachado completamente em mato esplêndido, o augusto príncipe escutava o padre. Eram os despachos de Portugal e as cartas de D. Leopoldina e José Bonifácio. O príncipe enfrentava um ultimato. Tropas portuguesas estavam por chegar ao Brasil.

Diz o padre Belchior que “tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva”. O padre apanhou e guardou os documentos.

Depois, abotoando-se e compondo a fardeta, disse:
— E agora, padre Belchior?!
O padre teria respondido:
— Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil será prisioneiro das Cortes, e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.

Então disse ao coronel Marcondes que as Cortes queriam massacrar o Brasil.

Caminhando rumos aos animais, Pedro conversava animadamente com o padre:
— Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal!

O pequeno séquito respondeu:
— Viva a liberdade! Viva o Brasil separado. Viva D. Pedro!
Daí o príncipe deu ordens ao tenente Canto e Melo:
— Diga à minha Guarda que eu acabo de fazer a independência completa do Brasil. Estamos separados de Portugal.

Canto e Melo cavalgou em direção a uma venda onde esperava a Guarda. Do Ipiranga não ouviram nada ainda.

Daí em diante os relatos são contraditórios. Ao encontrar-se com a Guarda, D. Pedro teria sim dito o brado retumbante “independência ou morte” e saiu galopando rumo a São Paulo. Ou pro mato.


Talvez os desfiles de Sete de Setembro devessem os protagonistas dessa história: a Salmonella, as mulas, os tropeiros, os diplomatas, cientistas, as mulheres que aguentaram o príncipe e o pacato padre minerim.

P.S: A tal carta que provocou a ira de D. Pedro nunca foi encontrada. Não o culpemos. No mato, era menos arriscado usá-la que as folhas que a natureza dava.

SAIBA MAIS

Bastos, Lucia. Nem as margens ouviram. O Grito do Ipiranga não teve qualquer repercussão na época. Revista de História, 16/09/2009.

Cavenaghi, Airton José. ” O século XIX paulista: lembranças do “Grito do IpirangaRevista Brasileira de História 35 (2015): 207-235.  https://doi.org/10.1590/1806-93472015v35n70008

Oberacker Júnior, Carlos H. “” O grito do ipiranga”-problema que desafia os historiadores: certezas e dúvidas acêrca de um acontecimento histórico.” Revista de História 45.92 (1972): 411-464.

Oliveira, Cecília Helena de Salles & Mattos, Claudia Valladão de. O brado do Ipiranga. São Paulo: Edusp, 1999.

Oliveira, Cecília Helena de Salles & Mattos, Claudia Valladão de. A invenção do grito. Revista de História, 19/09/2007.

Pedrosa, Manuel Xavier de Vasconcellos. A Guarda de Honra do Príncipe Dom Pedro na viagem a São Paulo. Rio de Janeiro: IHGB, 1972.

Shlichta, Consuelo Alcioni B. D. Independência ou morte (1888), de Pedro Américo: a pintura histórica e a elaboração de uma certidão visual para a nação. Anpuh, XXV Simpósio Nacional de História, Fortaleza, 2009.

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