O debate sobre a natureza das trocas humanas foi, por mais de um século, um campo de disputa entre a economia clássica e a antropologia. A economia tradicional descreveu o mercado como um mecanismo neutro, composto por agentes racionais que buscavam alocar recursos escassos com eficiência. A antropologia insistiu em outra direção. Sustentou que a vida econômica não se separa das obrigações sociais, dos significados simbólicos e das reivindicações morais.
Com a ascensão da chamada economia em rede, ou capitalismo de plataforma, no final do século XX, surgiu uma questão decisiva. Estaríamos diante de um retorno a formas de intercâmbio socialmente encravadas (embutida, embedded), como as descritas por Karl Polanyi e Marcel Mauss, ou de uma extensão da lógica de mercado para domínios antes regidos pela confiança e pela amizade. Este ensaio sustenta que a economia em rede não constitui uma utopia pós mercado. Trata-se de uma reconfiguração histórica que mobiliza laços sociais como insumos produtivos e transforma a própria natureza da sociabilidade.
A antropologia econômica consolidou-se como crítica ao modelo formalista do comportamento econômico. Esse modelo sustenta que a alocação de meios escassos para fins competitivos constitui um problema universal, analisável pelas ferramentas neoclássicas. Em contraste, a escola substantivista, liderada por Karl Polanyi, argumentou que a economia de mercado foi uma instituição historicamente específica. Para funcionar segundo sua própria lógica, ela exigiu o desencravamento da economia em relação à vida social.
Em sociedades pré mercado, a atividade econômica estava imersa em relações sociais. A troca organizava-se pela reciprocidade, como na circulação de presentes entre iguais, e pela redistribuição, que canalizava bens para um centro e depois os devolvia à comunidade. Mercados existiam, mas eram subordinados a normas sociais e à autoridade política. O capitalismo do século XIX tentou instaurar um mercado autorregulado. Polanyi viu nesse projeto algo sem precedentes e potencialmente destrutivo.
Evidências desse encravamento surgiram nos estudos de Bronisław Malinowski sobre o anel kula, nas Ilhas Trobriand. As trocas cerimoniais de colares e braceletes não buscavam lucro material. Produziam alianças, prestígio e obrigações. O kula era, ao mesmo tempo, instituição econômica, social e ritual. Marcel Mauss levou essa intuição adiante em O Ensaio sobre a Dádiva. O presente livre não existe. Toda dádiva cria obrigação de retribuir. A troca torna-se um fato social total, no qual múltiplas dimensões da vida se entrelaçam.
A economia de mercado distingue-se por uma forma específica de troca. Ela busca ser anônima, impessoal e instantânea. Como observou Georg Simmel, o dinheiro reduz diferenças qualitativas a equivalências quantitativas. David Graeber questionou o mito de que o comércio surgiu do escambo. Sistemas de crédito baseados em relações comunitárias vieram antes da moeda. Os mercados introduziram uma lógica de equivalência que corrói relações abertas de ajuda mútua.
Marshall Sahlins também criticou a ideologia da escassez. Ao descrever sociedades de caçadores-coletores como a sociedade afluente original, mostrou que esses grupos trabalhavam menos que o trabalhador moderno e satisfaziam suas necessidades com relativa facilidade. A escassez não era uma condição natural. Resultava de desejos ampliados por formas específicas de organização econômica.
A economia em rede possui dois sentidos principais. No plano sociológico, refere-se à ideia de que transações de mercado estão encravadas em redes de relações sociais, como argumentou Mark Granovetter. Confiança e reputação mediam até mesmo interações impessoais. No plano contemporâneo, o termo designa o capitalismo de plataforma, no qual o valor é gerado pela coordenação de redes.
Sob uma perspectiva antropológica, a economia em rede parece reverter o movimento descrito por Polanyi. Se o mercado buscava isolar transações, as plataformas reintroduzem relações sociais no centro da atividade econômica. Perfis, avaliações e conexões tornam-se instrumentos de cálculo. Amizade e confiança convertem-se em dados.
Uma analogia ajuda a esclarecer esse processo. Imagine uma feira de bairro onde vendedores se conhecem há anos. O crédito é informal. A reputação circula pela memória coletiva. Agora imagine essa feira transformada em um aplicativo. Cada interação é registrada, classificada e convertida em pontuação. O que antes dependia da lembrança e do julgamento direto passa a ser mediado por um sistema que coleta, organiza e monetiza essas relações. A feira não desaparece. Ela muda de forma.
Pierre Bourdieu oferece um conceito útil para entender essa transformação. O capital social, que antes se acumulava em relações face a face, torna-se operacionalizado em larga escala. A economia em rede funciona como uma máquina de conversão entre capital social e capital econômico. Reputações tornam-se ativos. Plataformas capturam esse valor por meio de algoritmos. Trata-se de uma forma de extração de trabalho cognitivo.
A persistência de práticas semelhantes à dádiva no ambiente digital suscita interpretações divergentes. Projetos como software de código aberto e Wikipedia foram descritos por Yochai Benkler como produção de pares baseada em bens comuns. Um modo de organização que não se reduz ao mercado nem ao Estado. Ainda assim, essa leitura exige cautela.
As contribuições nesses sistemas são híbridas. Carregam a marca do autor e, ao mesmo tempo, podem ser apropriadas por empresas. A economia da dádiva digital está entrelaçada com relações de mercado. Infraestruturas corporativas sustentam projetos colaborativos. O que parece reciprocidade pode ocultar assimetrias de poder. A arquitetura legal das plataformas converte interações em ativos proprietários.
O conceito de economia moral, formulado por E. P. Thompson, ajuda a compreender as tensões contemporâneas. Protestos populares, como revoltas por comida, baseavam-se em normas compartilhadas de justiça. Quando o mercado violava essas normas, surgiam reações coletivas. Hoje, algo semelhante ocorre quando usuários criticam práticas de plataformas.
A elevação de preços em momentos de crise ou as condições de trabalho em grandes empresas provocam julgamentos morais. Há uma discrepância entre a linguagem da comunidade e a experiência concreta. Esse conflito pode ser interpretado como um duplo movimento. A expansão da lógica de mercado gera respostas que buscam reintroduzir limites sociais. Iniciativas como cooperativismo de plataforma e uniões de dados expressam essa tentativa.
O quadro teórico de Walter Powell ajuda a situar a economia em rede como forma organizacional distinta. Nem mercado puro, nem hierarquia vertical. Redes operam por relações duradouras, comunicação lateral e obrigações recíprocas. Elas emergem quando os bens trocados possuem qualidades difíceis de medir e quando as interações se tornam recorrentes. Nesse contexto, as partes deixam de ser entidades isoladas.
O capitalismo corporativo sueco ilustra esse modelo. Estruturas de propriedade concentrada, organizadas em redes de participação cruzada, permitiram controlar grandes grupos industriais com base acionária reduzida. Grandes grupos trocam e compartilham ações e interesses comuns. O sistema articulou Estado, bancos e empresas em negociações contínuas. Priorizaram-se investimentos de longo prazo e estabilidade do emprego. A lógica de rede substituiu a coordenação por preços em vários domínios.
Um paralelo instrutivo surge com economias camponesas analisadas por James Scott. Nessas sociedades, a prioridade não era maximizar lucros, mas minimizar riscos. A segurança da subsistência orientava decisões. Redes corporativas japonesas, como os keiretsu, operaram segundo lógica semelhante. Relações de longo prazo, participação acionária cruzada e apoio mútuo criaram compromissos duradouros. Benefícios e custos eram compartilhados. Expectativas ajustavam-se ao contexto.
A bolha das empresas dotcom no início dos anos 2000 revelou os limites da coordenação puramente mercantil. Muitas empresas falharam porque presumiram que a tecnologia digital poderia substituir relações logísticas complexas. Planejamento de estoque, gestão de armazéns e distribuição exigem conhecimento tácito e confiança. Não se constroem apenas com preços.
Empresas que sobreviveram investiram em infraestrutura e relações duradouras. Desenvolveram capacidades de coordenação que combinavam tecnologia e organização social. A rede, nesse caso, não era metáfora. Era condição de funcionamento.
A antropologia econômica sugere três lições. A economia em rede não supera o mercado nem retorna a uma reciprocidade originária. Ela reorganiza a vida social como fonte de valor. Redes são materiais. Dependem de infraestruturas distribuídas de modo desigual.
A economia permanece um ato moral. Trocar implica posicionar-se em relação aos outros. Implica reconhecer obrigações e expectativas. A economia em rede intensifica essa dimensão ao transformar relações sociais em matéria prima produtiva. A বিতribuição do excedente gerado por essa cooperação não se resolve por cálculo técnico. Trata-se de uma questão política.
Como os navegadores do kula, que atravessavam o mar em busca de prestígio, ou trabalhadores que defendiam normas de justiça em mercados em transformação, usuários e trabalhadores de plataformas negociam hoje os termos de sua participação. Promessas de comunidade coexistem com experiências de precariedade. O olhar antropológico expõe o que permanece oculto. Não há troca sem obrigação. Não há mercado sem economia moral. Não há rede sem poder.
SAIBA MAIS
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Atualizado em 25 de março de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é antropólogo, pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Economia de redes e economia de mercado. Ensaios e Notas, 2022. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2022/10/04/economia-de-redes-e-economia-de-mercado/. Acesso em: 25 mar. 2026.
