Seitas autoritárias: o que saber e ver

Seitas ou cultos frequentemente são associados a grupos minoritários com comportamentos abusivos. Mas a realidade é mais complexa:

  • Nem todos os cultos são religiosos: há grupos voltados somente por um estilo de vida (“wellness”) ou alimentação como o Jilly Juice — um grupo que acredita que uma gororoba de repolho e sal cura tudo. Há cultos políticos, como o nazismo, o maoismo na Revolução Cultural ou o Q-Anon hoje. Por fim, alguns cultos são empreendimentos comerciais ou esquemas de pirâmides.
  • Nem todos os cultos aparecem recentemente: os mandeus existem por quase dois milênios, por isso a nomenclatura “Novos Movimentos Religiosos” pode não ser acurada.
  • Nem todos possuem uma liderança centralizada: várias grupos possuem um lideranças ad hoc que funcionam por persuasão, como no Falung Gong. Seitas formadas em torno de teorias da conspiração tendem a seguir esse parâmetro de liderança difusa.
  • Nem todos grupos sectários são abusivos: os mennonitas e quakers estão aí para provar que por quase meio milênio um monte de gente viveu em paz às margens da sociedade.
  • Nem todos grupos sectários são minoritários: nas regiões das montanhas no Oeste dos Estados Unidos há vários condados, cidades e estados uma significante presença mórmon constituem as vias normais da sociedade local.
  • Nem todos membros de um grupo sectário são disfuncionais: ao contrário disso, pessoas com boa posição social, mentalmente competente e saudáveis aderem a grupo sectários por diversos motivos. De um lado, aportam recursos e prestígio ao grupo, por outro lado, o grupo permite uma rede de contato de confiança aos mais brilhantes e ambiciosos.
  • Grupos socialmente estabelecidos ocasionalmente comportam-se como sectário: é o caso do Macarthismo que fomentou a circulação paranoica de uma suposta infiltração comunista nas instituições americanas.

Tendo essas ressalvas acima, sigamos restritos aos cultos abusivos. Ao invés de oferecer uma definição, sociólogos e cientistas da religião elencam traços em uma semelhança de família para identificar uma seita ou culto abusivo:

  • Liderança carismática: reivindica uma autoridade especial que os de fora ou nos baixos escalões no próprio grupo não possui. Funciona muito bem porque vive da circulação de lendas (“fulano humilhou o oponente”, “ele é um gênio”), ambiguidades (“mão que afaga também fere”), reivindicação de chancela divina (“não toqueis no ungido”; “contrariar os ‘servos’ é blasfemar sem chance de perdão”) e dos louvores dos seguidores (“Esse é o cara”, “é a melhor autoridade nisso”, “só ele entende isso”).
  • Sistema de crenças monopolizante: uma única ideologia que seria “a verdade”, pela qual serve de filtro para processar outras fontes de informações. Em razão disso, vive-se em constante dissonância cognitiva quando confronta a realidade com suas crenças. Por fim, aceitar a “cosmovisão” passa a ser requisito de aceitação no grupo.
  • Fronteiras e normas de controle: definem a identidade, o pertencimento, a legitimidade, a uniformidade de pensamento ou ação. É o mecanismo para sentir-se especial. Nisso, a seleção de um grupo bode-expiatório, inimigos reais ou não, serve para formar uma identidade por contraste.
  • Oferta daquilo em falta: o grupo oferece algo — socialização, serviços, confirmação de crenças e valores– que agentes sociais normais supostamente não conseguiram prover: o Estado, a ciência, a família, as instituições educacionais, a segurança pública, os estabelecimentos religiosos, o sistema de saúde ou a economia regulamentada.
  • Exercício de poder: o grupo manipula emoções e informações para impor conformidade, quebrando a agência e individualidade dos sujeitos. Outros mecanismos incluem uso de uniformes ou símbolos identificadores. Além disso, há a tática de restringir-se a poucos canais de informação sancionados. Sob esse poder, desenvolve-se o medo do ostracismo por não se conformar com o grupo e tornar-se o “Outro”. Os recursos e empenhos pessoais dedicados ao grupo faz o indivíduo temer várias perdas caso contradiga os ditames do culto.

O Mestre (2012)

Obra dirigida por Paul Thomas Anderson e com as atuações magistrais de Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix (que cresceu em um culto abusivo) e Amy Adams. Um homem encontra propósito ao seguir um líder charlatão.

A Onda (2008)

Um experimento social proposto por um professor secundarista gera um grupo totalitário. Direção de Dennis Gansel.

The Village (2004)

O suspense de viver em uma comunidade reclusa. Direção do lendário M. Night Shyamalan.

González: falsos profetas (2014)

Filme mexicano de um vigarista lobo na pele de cordeiro. Qualquer semelhança com o cenário brasileiro não é coincidência. As atuações de Harold Torres e Carlos Bardem são memoráveis.

Canoa: memoria de un hecho vergonzoso (1976)

Um padre local incita o linchamento de um grupo de estudantes fazendo trilha em uma pequena cidade mexicana.

Colonia (2015)

Na busca de salvar a pessoa amada há o extremo de adentra-se numa seita da qual ninguém sai. Com Emma Watson, Daniel Brühl e Michael Nyqvist.

Keep Sweet: Pray and Obey (2022)

Falando em nome de Deus, um manipulador angaria dinheiro, trabalho e mulheres — as quais são tratadas como gado.

Martha Marcy May Marlene (2011)

A personagem retratada por Elizabeth Olsen vive em uma comuna idílica. Sua identidade, de várias formas, é moldada pelo grupo.

“Explained” Cults (Netflix 2019)

Curto documentário dos mecanismos de controle em um culto.

Why do people join cults? Janja Lalich (Ted-Ed 2017)

Uma socióloga veterena nos estudos das seitas abusivas (e ela própria participou de uma) apresenta um Ted-Ed mini-documentário.

‘Holy Sh*t, We’re in a Cult!’ (The Atlantic 2016)

Como pessoas “normais” juntam-se a cultos.

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