Eficácia simbólica: suas consequências são reais

Na ilusão da falsa mão há a sensação de percerber estímulos em uma mão de borracha enquanto a mão real permanece escondida (Botvinick; Cohen, 1998). O contexto e a sincronia das percepções tátil e visual criam a ilusão de que o membro falso seja real. Das cócegas leves ao passar um pincel até a retirada brusca da mão ante a ameaça de uma martelada demonstra o quão real são nossas imaginações. Em estrito senso uma representação muito acurada é um ícone (como a mão de borracha é), mas quando o sujeito tem a ciência de não o objeto em si a mão falsa torna-se símbolo. O participante da ilusão, mesmo sabendo que a mão é falsa, sentirá seus efeitos.

Considerando que nossa percepção do mundo é sempre mediada por um complexo de atividades mentais nunca veremos o mundo como ele é, apenas suas representações. E uma forma dessa mediação é simbólica.

Enquanto outros seres vivos respondem a estímulos, o ser humano adicionou o símbolo às suas interações com o mundo. Relembrando, um símbolo é a junção de um significante (uma representação ou o “mapa”) e um significado (aquilo representado ou o “território”).

A eficácia simbólica é um conceito proposto por Lévi-Strauss (1949). Argumentou afirma que o encantamento feito por um xamã no parto das mulheres Cuna — um povo indígena do Panamá — evocam respostas fisiológicas que auxiliam parto difíceis. A integração corpo e o domínio simbólico seguiria regras estruturais próprias e ocorriam em outras sociedades, como na psicanálise entre povos ocidentais.

O trabalho de Lévi-Strauss passou por devidas críticas. Modelos alternativos salientando aspectos cognitivos ou o virtual competiram com a gramática universal dos símbolos proposta por Lévi-Strauss (Caillé, Prade 2015). Reducionistas disseram que seria só um efeito placebo. Contudo, nada assegura o descarte do componente simbólico no mundo vivido.

Muitos argumentam que não há mais um terreno comum para se construir algo na pós-modernidade. O pensador Slavoj Žižek (1999) até proclamou o fim da eficácia simbólica por não existir mais uma grande narrativa que emoldurassem os símbolos. Não haveria mais significantes uniformemente aceitos, tampouco um significante-mestre.

Mas os símbolos permanecem eficazes. E são eficazes em seus efeitos.

O símbolo é uma conexão com mundo exterior. E esse mundo exterior por vozes é comunicado por uma segunda pessoa. Relata Lévi-Strauss que xamã é chamado para aliviar o “bloqueio” da parturiente Cuna. O encantamento (em si um objeto, o significante) representa uma viagem pela geografia interior do corpo (o significado). O xamã enfrenta feras fantásticas, visualizando e personificando a dor. A parturiente consege uma forma de “ver” sua dor e a dominá-la.

Nisso reside uma ironia. Há coisas íntimas ou experiências pessoais que ninguém compreenderá, mas não temos como negar que outros saberão uma ou outra coisa sobre nós melhor que nós mesmos. Qualquer estranho na rua veja melhor nosso perfil ou nuca melhor que nós, pois temos de depender de fotografias ou alguma escultura nossa para alcançar onde nossos olhos não chegam.

Nessa dependência de facilitadores externos para comunicar o mundo simbólico há outros elementos que podem ser social e individualmente detrimentais. A cura pelo símbolo são contrabalanceadas pelas maldições. As consequências de se viver sob uma maldição incluem desde o ostracismo até a eventual destruição do sujeito. Há no lore etnográfico vários relatos de pessoas que morreram poucos dias depois de serem amaldiçoadas ou receberem uma profecia catastrófica.

Outra consequência deletéria da eficácia simbólica são as formas de abuso espiritual e dominação ideológica. Personalidades autoritárias e grupos totalitários capitalizam em cima dos símbolos. Muitas pessoas realmente creem serem os mocinhos do lado do bem em uma batalha cósmica contra o mal. No entanto, na necessidade de achar um significante para o mal significado vão encontrar presas fáceis: minorais, grupos vulneráveis e pessoas sem púlpitos. Basta criar um espantalho (o significante) e atribuir atributos indesejáveis (o significado), daí surge um símbolo pernicioso.

O mad men do marketing estão aí para comprovar o quanto a eficácia simbólica possui efetividade. Manipularam os símbolos quando associaram cigarros a caubóis. Pregadores que agitam as Escrituras nas suas mãos e falam com uma fraseologia ou citações que as invocam são extremamente eficazes — certamente mais que um biblista acadêmico. O condutor do experimento da mão falsa de borracha é essa segunda pessoa.

Em resposta a Žižek, pode não haver um narrativa-mestra que sirva como significante universal. No entanto, uma amplitude de sistemas simbólicos competindo entre si encontrarão ressonância nas pessoas. Talvez exatamente porque o simbólico passa ser a esfera estruturante diante do caos do mundo.

A consciência de que uma mão seja falsa ou que o símbolo está sendo manipulado não basta. Em um desvio de atenção, damos mais conta ao significante que ao significado. Nesse descompasso já não se distingue o que seja fato de opinião. Por isso, é hora de retornar a um tratamento sério daquilo que for simbólico.

SAIBA MAIS

Botvinick, Matthew; Cohen, Jonathan. “Rubber hands ‘feel’touch that eyes see.” Nature 391.6669 (1998): 756-756. https://www.nature.com/articles/35784

Caillé, Alain; Prade, Pierre, « « Y croire. » Retour sur l’« efficacité symbolique » », Revue du MAUSS, 2015/2 (n° 46), p. 291-318. DOI : 10.3917/rdm.046.0291. URL : https://www.cairn.info/revue-du-mauss-2015-2-page-291.htm

Lévi-Strauss, Claude. “L’efficacité symbolique.” Revue de l’histoire des religions (1949): 5-27. https://www.persee.fr/doc/rhr_0035-1423_1949_num_135_1_5632

Žižek, Slavoj. The Ticklish Subject: The Absent Centre of Political Ontology. New York: Verso, 1999.

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