O problema dos universais

Vi vários cisnes, todos eram brancos. Seria “brancura” uma propriedade universal de todos os cisnes? E seria essa “brancura” algo real, uma propriedade que existe independentemente dos cisnes?

Essas questões parecem bobeiras. Mas eram articulações filosóficas para problemas prementes de direito, teologia e relações sociais na Idade Média. Pensadores muçulmanos, judeus e cristãos utilizavam uma linguagem teológica que reciclavam divagações dos antigos filósofos gregos (principalmente Platão e Aristóteles) para discutir o problema dos universais.

O problema dos universais era se as propriedades dos particulares (os seres individuais) existiam ou se eram meras designações. As respostas a esse problema eram discutidas por pensadores medievais em dois polos: o realismo e o nominalismo.

Realismo: o mundo exterior corresponde ao compreendemos mediante os universais. Os universais seriam entidades que existem por si e separados das coisas exteriores. Esses universais seriam “reais” (coisas), cuja existência seria um um plano ideal platônico ou na mente. 

Nominalismo: os universais não sãos res (coisas), tampouco existem independentemente das coisas. Entretanto, os universais seriam úteis para comunicar sobre a realidade, como dizia William de Occam. (Daí surge outro problema: o da univocidade e da equivocidade, mas é tema para depois).

O debate era mais nuanceado que esses dois polos. Por exemplo, na recepção de Platão e Aristóteles, ambos filósofos ora foram tratados como realistas. Nessa recepção, Platão apresentaria os universais como precedendo as coisas (ante res) como a teoria das formas ou das ideias. Caberia ao sujeito identificar os universais em cada espécie particular. Já na interpretação acerca Aristóteles, os universais residiriam nas coisas (in rebus).

Um realismo moderado era defendido por Avicena, Tomás de Aquino e Duns Scotus. Os universais seriam realidades imanentes que se manifestavam nos indivíduos, dos quais não existiam separadamente.

Uma terceira posição foi o conceptualismo. Proposto por Pedro Abelardo, o conceputalismo nega que os universais sejam entidades metafísicas (como no realismo), rejeita o convencionalismo dos nominalistas ao argumentar que os universais seriam entidades da mente. Os conceitos intermediariam entre o mundo do pensamento e a realidade externa.

O mestre de Abelardo foi Roscelino de Compiègne (c. 1050—ca. 1125). Hoje esse nome soa como um obscuro escolástico medieval, mas devia ser creditado como um dos fundadores da modernidade.

Quando Roscelino argumentou que os universais existiriam somente como nomes para serem aplicados pelos sujeitos às coisas (post res) não só fundou o nominalismo. Também se tornou um herege. Roscelino foi acusado de triteísmo. Afinal, dizer que Deus era referido por três res distintas – Pai, Filho e Espírito Santo – seria concluir que não havia uma unidade divina. No entanto, uma consequência inesperada do pensamento de Roscelino foi tirar a autoridade dos místicos e clérigos: o conhecimento não seria restrito a uma pessoa elevada aquela capaz de compreender os universais ou a divindade. Qualquer coisa — desse mundo ou mesmo divino — seria discutível por qualquer um que utilizasse os mesmos termos. 

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