Foco, leitura e ansiedade: porque entender está mais difícil

Foco, leitura e ansiedade: porque entender está mais difícil

Reparou que você consegue se manter atualizado sobre o que está no topo das discussões, mas não tem ânimo para ler um “textão”?  Se terminar este ensaio verá que não é culpa sua. Seu cérebro e suas circunstâncias estão tirando seu foco, seu prazer de leitura, dificultando compreender a realidade e pode levar à ansiedade.

No Renascimento — pouco antes da invenção da imprensa, da Reforma e das grandes descobertas – bastava o indivíduo europeu ou árabe ler cerca de 30 títulos de livros para ser considerado culto. A explosão informacional que se seguiu resultou na necessária especialização profissional e dos interesses. Assim, aprendemos a confiar nas instituições que geram ou autenticavam os especialistas: sociedades eruditas, jornais acadêmicos, universidades, fiscais e padrões estatais.

Tivemos outras pequenas revoluções informacionais e tecnológicas que alteraram a sociedade, mas desde meados dos anos 1990 cresceu a produção, circulação e consumo acelerados de informação. Obviamente, a internet é o principal meio. Hoje, acordamos verificando nossas redes sociais e canais de notícias, escutamos podcasts, lemos um ebook nas pausas. O tédio e o silêncio não são valores a serem cultivados, consequentemente a boa preguiça foi demonizada. E sofremos por isso.

A neurocientista Maryanne Wolf argumenta que nossos circuitos neurológicos amoldam-se plasticamente às novas mídias e circunstâncias informacionais. O lado ruim disso é que perdemos a habilidade de fazer leituras profundas. Não somos mais carregados pelos livros, não os lemos lentamente, com reflexão e imaginação. Hoje, uma rápida e superficial passada de olhos sobre o texto é o necessário para que nossos dedos corram a tela ou virem a próxima página. Os grandes romances passaram a ser desafiadores e, paradoxalmente, desinteressantes diante dos tweets sobre os últimos babados.

Essa massa de informação é transmitida por textos fragmentários, com prazos de validade de dois dias tanto para sua atualidade quanto para sua memória. Parece o cumprimento da predição da personagem Capitão Beatty em Fahrenheit 451.

Essa leitura superficial, rápida e amnésica associa-se com uma corrosão epistêmica. Isso pode explicar a popularidade de teorias da conspiração, pseudociência e negacionismo em várias sociedades. Países com baixa tradição de letramento como o Brasil (até 1960 50% da população adulta era analfabeta), com rígido controle da disseminação unidirecional do conhecimento (como na demandante academia russa, sem contar seus governos autoritários e mídia oligárquica) ou com uma população alienada pela falta de tempo de lazer (como nos Estados Unidos) apresentam uma inclinação para essa crise.

Diante da incerteza, a confiança tornou-se a mercadoria mais almejada. Legitimamente queremos que sejamos servidos por profissionais com domínio de seus campos: médicos assertivos, motoristas de transporte coletivo competentes e engenheiros precisos. No entanto, passou-se a contestar a autoridade profissional: o professor é desafiado por um aluno pedante que encontrou um revisionismo numa nota de rodapé. Todos têm direito à sua opinião e ela vale mais que a de um especialista. Todos têm algo a dizer, mas ninguém está pronto a escutar. O bolo informacional só cresceu, a confiança não.

Perdemos a capacidade de ler não só textos. A realidade social funciona como um texto. Hoje não sabemos reconhecer sinais que demandam nossa empatia. O mundo demonstrou ser mais complicado que naquilo que fomos educados. O sentimento de privação relativa junto aos legítimos anseio por participação, transparência e compreensão nos levam a decepcionar muito com as instituições sociais: a ciência, o Estado democrático de direito, a fé, o trabalho, a família, os amigos. Perdemos a habilidade de priorizar estrategicamente as informações, além de perdemos o chão para avaliar o que é verdadeiro, belo, útil e desejável.

A rica e bela complexidade do mundo virou um novelo embaraçado que não compreendemos. Um só indivíduo não compreende a totalidade de um campo cultural. Imagine o último falante de uma língua. Necessariamente essa pessoa será a maior autoridade nesse idioma, mas ela saberá todas as palavras? A demanda por respostas prontas, oito ou oitenta, cria oportunidade para espertalhões, polímatas da ignorância, venderem soluções e palpites sobre qualquer assunto. O conhecimento foi substituído pela assertividade e pelo número de seguidores de quem grita mais alto.

Diante disso, estamos ansiosos por não sabermos como lidar com tanta informação. Frequentemente sentimos responsáveis por dar respostas seguras e absolutas, opiniões sobre tudo e a produzir resultados. Daí uma rampante crise de ansiedade, agora anabolizada pelo constante estado de alerta por causa da pandemia, além dos bombardeamentos literais e metafóricos que causam polarizações e mortes.

Esse cenário pode ser desesperador e ainda mais causar ansiedade. No entanto, possuímos uma plasticidade não só neural: somos capazes de reconfigurar nossos vínculos sociais. É possível navegar esse dilúvio informacional, construir confiança e voltar ao foco se seletivamente filtrarmos as pessoas e fontes que nos circundam. É aprender a abrir mão de dar respostas. É aprender a dizer “não sei” e experimentar curiosidade (e não ansiedade) diante do desconhecido.

SAIBA MAIS

Wolf, Maryanne, Mirit Barzillai, and John Dunne. “The importance of deep reading.” Challenging the whole child: reflections on best practices in learning, teaching, and leadership 130 (2009): 21.

Wolf, Maryanne, and Catherine J. Stoodley. Proust and the squid: The story and science of the reading brain. New York: Harper Perennial, 2008.

Julio Cortázar Fim do mundo do fim

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