CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro — pão ou aço. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984 [original de 1946].
Geografia da fome é ao mesmo tempo diagnóstico médico, análise geográfica, denúncia política e manifesto científico. Seu autor, o médico pernambucano Josué de Castro (1908–1973) não descobriu a fome no Brasil. A insegurança alimentar estava à vista de qualquer um. O que ele fez foi mais difícil. Tornou-a dizível, transformou-a em objeto legítimo de ciência e demonstrou que ela não era destino, mas produto.
O médico e geógrafo dispôs-se a mapear a fome no Brasil a partir de suas determinantes geográficas, econômicas e sociais. Com isso, demonstrou que ela não resulta de fatalidades climáticas, raciais ou demográficas. Resulta de uma estrutura agrária e produtiva que gera escassez no meio da abundância.
Tese
A fome é um fenômeno artificial, criado pelos homens. Não é o clima que produz a miséria do Nordeste, nem a superpopulação que condena o trabalhador rural à subnutrição. É o modelo de desenvolvimento. Trata-se de um modelo baseado na monocultura de exportação, na concentração fundiária e na má distribuição de renda. Esse modelo priva a maior parte da população brasileira de acesso regular à alimentação adequada. A fome, portanto, é uma questão de poder político e não de escassez natural.
Teoria e metodologia
A ruptura metodológica central do livro é a recusa ao determinismo. Castro combate duas tradições explicativas então dominantes. A primeira é a tradição climático-racial, que atribuía o atraso do Nordeste ao calor, à seca ou a uma suposta inferioridade de sua população. Essa tradição encontrava respaldo em teorias positivistas ainda influentes nos meios intelectuais brasileiros da época. A segunda é o malthusianismo, que via a fome como corretivo natural para o excesso de população. Quanto mais pobres se reproduzem, mais escassos os recursos, e a fome seria o mecanismo regulador inevitável. Castro inverte a lógica. São as condições de miséria, e não a abundância de filhos, que geram tanto a desnutrição quanto as altas taxas de natalidade.
O instrumento analítico escolhido é a geografia humana. Em vez de partir de índices abstratos de produção ou consumo, Castro mapeia o que as populações efetivamente comem e o que lhes falta em cada região do país. A dieta cotidiana torna-se o indicador mais preciso das condições de vida e das estruturas de poder que as determinam. A dedicatória do livro já anuncia esse método duplo. É endereçada aos romancistas da fome, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, e aos sociólogos da fome, Euclides da Cunha e Rodolfo Teófilo. Com isso, sinaliza a intenção de unir a sensibilidade literária para o drama humano ao rigor do diagnóstico científico.
As cinco áreas alimentares
Com base nessa abordagem, Castro divide o Brasil em cinco grandes áreas alimentares, cada uma com um regime dietético próprio e um perfil específico de carências.
A área amazônica é uma das mais paradoxais. Uma das regiões de maior biodiversidade do planeta sustenta uma dieta pobre e monótona, baseada quase exclusivamente em farinha de mandioca e peixe. A hipoproteína e a deficiência de vitaminas não derivam da pobreza dos recursos naturais. Elas decorrem do isolamento e da ausência de estrutura que permitisse aproveitá-los.
A área do Nordeste açucareiro, o litoral e a Zona da Mata dominados pela monocultura da cana, é, para Castro, a zona de fome mais grave e generalizada do país. As melhores terras estão ocupadas pelo latifúndio exportador. Ao trabalhador rural sem terra resta cultivar nas margens o que sobra de espaço. A dieta reduz-se ao binômio farinha de mandioca e feijão, sem carne, sem leite, sem verduras. É aqui que Castro formula o conceito de fome oculta ou crônica. Trata-se daquela que não mata imediatamente, mas debilita o organismo de modo persistente e o torna vulnerável a enfermidades. A fome oculta é a mais perigosa porque é invisível nas estatísticas de mortalidade.
O sertão nordestino apresenta um perfil distinto. A dieta é um pouco mais variada e inclui carne de sol, leite, queijo e milho, mas o sistema alimentar é estruturalmente frágil. Aqui, a fome não é crônica. Ela é periódica. A seca não é a causa do problema. Ela funciona como gatilho que expõe a fragilidade de uma estrutura fundiária que jamais construiu reservas ou sistemas de convivência com o semiárido. Quando a estiagem se prolonga, a produção de subsistência colapsa e a população migra e carrega consigo a fome aguda.
O Centro-Sul, que abrange grande parte do Sudeste e do Sul, é a área de melhor nutrição do país. A economia mais diversificada e a agricultura de alimentos mais variada produzem uma dieta razoavelmente equilibrada, com arroz, feijão, carne, leite, ovos e verduras. Mesmo aqui, Castro identifica distúrbios nutricionais localizados. Há o bócio endêmico por deficiência de iodo em regiões do interior e formas de anemia que revelam que a fome não estava ausente. Ela estava menos visível.
O extremo sul, de economia pastoril, completa o mapeamento com um paradoxo inverso ao da Amazônia. O consumo elevado de carne coexiste com deficiências vitamínicas graves, causadas pela escassez de frutas, legumes e verduras na dieta. A abundância de um nutriente não garante, por si só, nutrição adequada. Trata-se de um argumento contra simplificações do problema alimentar.
Consequências e legado
O impacto imediato de Geografia da fome foi considerável. Suas teses influenciaram diretamente a formulação do salário mínimo no Brasil, cuja metodologia de cálculo incorporou pela primeira vez a ideia de que o salário deveria cobrir as necessidades alimentares básicas do trabalhador. Influenciaram também a criação da Campanha Nacional de Merenda Escolar, a instituição do Serviço de Alimentação da Previdência Social e a criação da Comissão Nacional de Alimentação. Raramente uma obra acadêmica brasileira produziu tantos desdobramentos de política pública em pouco tempo.
O livro recebeu o Prêmio José Veríssimo da Academia Brasileira de Letras no mesmo ano de sua publicação e foi traduzido para mais de vinte e cinco idiomas. A projeção internacional de Castro levou-o à presidência do Conselho Executivo da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e a uma interlocução permanente com os debates globais sobre subdesenvolvimento e direito à alimentação.
Recepção e crítica
Geografia da fome foi obra fundadora de uma tradição intelectual que articula ciência, política e compromisso social. No Brasil, tem poucos equivalentes em impacto combinado. Lido ao lado de Os sertões, de Euclides da Cunha, e Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, o livro de Castro completa um conjunto de obras que observam o Brasil a partir de seus excluídos, o sertanejo, o escravo e o faminto.
As críticas ao livro vieram sobretudo de dois ângulos. O primeiro questiona o rigor metodológico das estimativas dietéticas, que dependiam de dados escassos e de levantamentos nem sempre comparáveis entre regiões. O segundo aponta que o modelo analítico de Castro, ao centrar a explicação na estrutura agrária e na monocultura, subestima a complexidade dos circuitos de distribuição e das políticas de abastecimento urbano que já se transformavam no Brasil dos anos 1940. São críticas legítimas que não diminuem o alcance da tese central. A fome é produzida socialmente e só pode ser combatida politicamente.
A obra permanece atual porque o perfil nutricional mudou, e a superposição da desnutrição com a obesidade e as doenças crônicas configura o que os epidemiologistas chamam de dupla carga da má nutrição. Sua pergunta continua sem resposta satisfatória. Por que, em um país de dimensões continentais e com recursos agrícolas entre os maiores do mundo, uma parte significativa da população ainda não tem acesso regular a uma alimentação adequada.
O autor
Josué de Castro nasceu em Recife. Formou-se em medicina e teve seu primeiro contato com a fome ainda na infância, nos mangues do Capibaribe. Ali viu trabalhadores que, na expressão que ele usaria décadas depois, eram feitos de carne de caranguejos, animais de lama que comiam o que o rio devolvia. Essa imagem percorre sua obra. Na prática médica em fábricas do Recife nos anos 1930, confirmou o que a infância havia mostrado. A doença de base de seus pacientes não era uma enfermidade específica. Era a fome crônica, manifestada em anemia, deficiências vitamínicas e desnutrição proteico-calórica.
Deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, presidente do Conselho Executivo da FAO em Genebra e professor universitário, Castro construiu uma trajetória em que ciência e política se alimentavam mutuamente. Com o golpe de 1964, teve seus direitos políticos cassados e partiu para o exílio em Paris, onde lecionou na Universidade de Vincennes até a morte, sem poder retornar ao Brasil. Morreu antes da redemocratização. A obra maior havia sido publicada quase trinta anos antes, e o país que ela descreveu permanecia reconhecível demais no espelho.
Saiba mais
CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro — pão ou aço. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984.
CASTRO, Anna Maria de; COIMBRA, Marcos (orgs.). A questão nutricional no Brasil. São Paulo: Cortez, 1985.
L’ABBATE, Solange. As políticas de alimentação e nutrição no Brasil. Revista de Nutrição, Campinas, v. 1, n. 2, p. 87–138, 1988.

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