Em 1957, o cineasta norte-americano John Marshall lançou The Hunters, documentário etnográfico com setenta e três minutos de duração que registra a caça de uma girafa por quatro homens !Kung no deserto do Kalahari, na então África do Sul Ocidental, hoje Namíbia.
O material bruto havia sido captado entre 1952 e 1953, durante a terceira expedição conjunta patrocinada pela Smithsonian Institution e pelo Harvard Peabody Museum, quando Marshall tinha pouco mais de dezoito anos e operava a câmera pela primeira vez em campo. O filme foi montado no Film Study Center do Peabody Museum em colaboração com Robert Gardner e recebeu, em 1958, o Robert J. Flaherty Award da British Academy of Film and Television Arts, prêmio máximo do documentário britânico.
The Hunters organiza o registro de campo em uma narrativa dramática clássica: quatro homens — /Qui, Toma, /Gao e Kernel — partem em busca de caça, encontram uma girafa, ferem-na com flechas envenenadas, seguem seu rastro por cinco dias através do deserto e finalmente a abate. Essa estrutura de jornada, dificuldade e triunfo é reforçada pela narração em voz over de Marshall e pela trilha sonora orquestral, que modulam o ritmo emocional do espectador de modo análogo ao cinema de ficção hollywoodiano. O resultado é um filme de grande poder dramático e de inegável beleza visual. Todavia, é um filme no qual a realidade filmada foi selecionada, reordenada e interpretada segundo convenções narrativas ocidentais.
Em 2003, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos inscreveu-o no National Film Registry, reconhecendo sua significância cultural, estética e histórica. The Hunters é, ao mesmo tempo, um marco fundador do cinema etnográfico e um documento cuja recepção crítica subsequente ilumina as transformações do campo antropológico na segunda metade do século XX — em particular os debates sobre representação, autoria e os limites do olhar ocidental sobre populações não ocidentais.

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