A Atlântida de Platão

O lenda da Atlântida vem de Platão (c. 429 – 347 a.C.). O filósofo grego relata em seus diálogos tardios Timeu e o Crítias sobre a queda de uma brilhante civilização em constrate com sua idealizada República.

A estória é enquadrada em uma suposta tradição egípcia. O legislador ateniense Sólon teria ouvido sobre Atlântida quando visitou o Egito. Cerca de 9.000 mil anos antes, em uma grande ilha do tamanho do Norte da África e da Anatólia o deus Poseidon construiu uma cidade ideal.

Atlântida seria um paraíso. Não havia trabalho penoso, nem carestia. O ouro e outros metais preciosos eram abundantes. Entretanto, os atlantes ficaram gananciosos e imperialistas. Zeus fez com que um terremoto ou maremoto afundasse a civilização de Atlântida.

Visivelmente Atlântida é uma construção literária de Platão. Seria uma alegoria e conto admonitório contra a plutocracia ateniense. E um constrate com a República imaginada por Platão. Nenhum outro autor da antigudade se refiriu à Atlântida, a não ser de modo derivado de Platão. No entanto, na recepção da lenda foi historicizada. E há bons motivos para isso.

Na idade do bronze houve civilizações grandiosas, como a cultura megalítica em Malta e a civilização minóica na Grécia, além uma erupção do vulcão Thera ter destruído parte da ilha de Santorini no mar Egeu. Poetas gregos, sem mencionar o nome Atlândida, falavam de cidades no mar ocidental.  Homero até menciona uma terra da filha do gigante Atlas na Odisseia (1.51-54). As mudanças climáticas que certamente fizeram o Mediterrâneo subir também engoliram comunidades costeiras.

Logo, começaram a surgir elaborações sobre a narrativa de Platão. Um deles foi Diodoro Sículo. Este geógrafo e historiador contemporâneo de Júlio César relata que muitas gerações antes da Guerra de Troia, os atlantes tinham sidos subjugados pelas amazonas líbias (Bibliotheca Historica, Livro III, 54, 1). Autores desde a Antiguidade passaram a especular sobre a historicidade e localização da fatídica ilha.

No diálogo Timeu, o personagem Crítias é um sofista que dialoga com Sócrates. Um interlocutor, Hermócrates, pede a Crítias a contar sua história de Atlântida. E o sofista faz seu relato (20d-25e).

Já o diálogo Crítias (108e-121c) serve para elaborar nos detalhes de Atlântida e de como ela era grandiosa. No entanto, a narrativa é interrompida.

Atlântida inspirou a imaginação de muita gente. No entanto, poucos param para ler o sucinto relato que originou tudo isso. Seguem esses trechos em uma versão editada da tradução Rodolfo Lopes (2011):

The destruction of Atlantis, 1928 - Nicholas Roerich - WikiArt.org
A destruição de Atlântida. Nicholas Roerich, 1928.

Descrição da Atlântida

Hermócrates: (…) e chegado à casa de Crítias, o nosso anfitrião, e ainda antes disso, enquanto percorríamos o caminho, fazíamos observações sobre isto mesmo. Este contou-nos uma estória de antiga tradição. Conta-a agora também a Sócrates, ó Crítias, para que ele considere se é adequada ou desadequada ao fim em vista.

 (…)

Crítias: Escuta, então, Sócrates, uma estória deveras ímpar, e contudo absolutamente verdadeira, como uma vez a contou Sólon, o mais sábio de entre os Sete Sábios, que era familiar e muito amigo do meu bisavô Dropidas, tal como ele afirma com frequência na sua obra poética. Contou-a a Crítias, nosso avô, que, já velho, nos narrava de memória que grandes e admiráveis feitos dos tempos antigos desta cidade, que tinham sido esquecidos graças ao tempo e à destruição da humanidade, e a mais grandiosa de todas, seria conveniente que ta déssemos a conhecer agora. (…)

“Há no Egito – começou Crítias –, no extremo inferior do Delta, em redor da zona onde se divide a corrente do Nilo, uma região chamada Saiticos; e da maior cidade dessa região, Sais – (…).Dizia Sólon que, enquanto por ali andou, era muitíssimo respeitado por eles, e que, a certa altura, ao questionar os sacerdotes mais versados sobre acontecimentos antigos, descobriu que nem ele nem nenhum outro grego sabia, por assim dizer, quase nada sobre aquele assunto. (…).

Foi então que um dos sacerdotes já de muita idade lhe disse: “Ó Sólon, vós, Gregos, sois todos umas crianças; não há um grego que seja velho”.

Ouvindo tais palavras, Sólon indagou: “O que queres dizer com isso?” “Quanto à alma, sois todos novos – disse ele. É que nela não tendes nenhuma crença antiga transmitida pela tradição nem nenhum saber encanecido pelo tempo. (…). Assim, desde tempos remotos que, de tudo quanto se passa na vossa terra, aqui ou em qualquer outro local, de que nós tomemos conhecimento pelo que ouvimos dizer, se porventura se tratar de qualquer coisa de belo, grandioso ou de qualquer outra natureza, isso fica gravado nos nossos templos e mantém-se conservado. (…)

Em todo o caso, as genealogias sobre as figuras de que acabas de nos falar diferem em pouco dos contos para crianças, pois eles recuperam apenas um único dilúvio na terra, ao passo que houve muitos antes desse. (…). E, de fato, na época anterior à maior destruição causada pela água, a cidade que agora é dos Atenienses era a mais brava na guerra e incomparavelmente a mais bem governada em todos os aspectos. Dizem que deu origem aos mais belos feitos e às mais belas instituições políticas de entre todas as que debaixo do céu obtivemos notícia”.

Sólon disse ter ficado surpreendido pelo que tinha ouvido e absolutamente desejoso de pedir aos sacerdotes que discorressem com pormenor e exatidão sobre tudo o que soubessem acerca dos seus concidadãos de outrora.

Então, o sacerdote respondeu o seguinte: “É sem reserva alguma que to contarei, por consideração a ti e à vossa cidade (…). Segundo os números gravados nos escritos sagrados, a nossa cidade foi organizada há oito mil anos. Portanto, vou falar-te brevemente sobre as leis dos cidadãos que viveram há nove mil anos e também do mais nobre dos feitos que levaram a cabo. Posteriormente, discorreremos sobre os pormenores referentes a todas estas questões e, em seguida, com vagar, pegaremos nos próprios textos. (…)

Os nossos escritos referem como a vossa cidade um dia extinguiu uma potência que marchava insolente em toda a Europa e na Ásia, depois de ter partido do Oceano Atlântico. Em tempos, este mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles – como vós dizeis; ilha essa que era maior do que a Líbia e a Ásia juntas, a partir da qual havia um acesso para os homens daquele tempo irem às outras ilhas, e destas ilhas iam diretamente para todo o território continental que se encontrava diante delas e rodeava o verdadeiro oceano. De fato, aquilo que está aquém do estreito de que falamos parece um porto com uma entrada apertada. No lado de lá é que está o verdadeiro mar e é a terra que o rodeia por completo que deve ser chamada com absoluta exatidão “continente”.

Nesta ilha, a Atlântida, havia uma enorme confederação de reis com uma autoridade admirável que dominava toda a ilha, bem como várias outras ilhas e algumas partes do continente; além desses, dominavam ainda alguns locais aquém da desembocadura: desde a Líbia ao Egito e, na Europa, até à Tirrénia. Esta potência tentou, toda unida, escravizar com uma só ofensiva toda a vossa região, a nossa e também todos os locais aquém do estreito. Foi nessa altura, que, pela valentia e pela força, se revelou a todos os homens o poderio da vossa cidade, pois sobrepôs-se a todos em coragem e nas artes da guerra, quando liderou o exército grego e, depois, quando foi deixada à sua própria mercê, por força da desistência dos outros povos e correu riscos extremos. Mas veio a erigir o monumento da vitória ao dominar quem nos atacava; impediu que escravizassem, entre outros, quem nunca tinha sido escravizado, bem como todos os que habitavam aquém das Colunas de Héracles, e libertou-os a todos sem qualquer reserva.

Posteriormente, por causa de um sismo incomensurável e de um dilúvio que sobreveio num só dia e numa noite terríveis, toda a vossa classe guerreira foi de uma só vez engolida pela terra, e a ilha da Atlântida desapareceu da mesma maneira, afundada no mar. É por isso que nesse local o oceano é intransitável e imperscrutável, em virtude da lama que aí existe em grande quantidade e da pouca profundidade provocada pela ilha que submergiu.”

Acabas de ouvir, ó Sócrates, o essencial do relato de Crítias, o ancião, segundo o que ele ouviu de Sólon. Ontem, enquanto tu falavas sobre o Estado e dos homens que referias, eu fiquei atónito ao recordar-me disto de que agora vos falo, por me aperceber de que, miraculosamente e por obra de um acaso, sem que fosse tua intenção, tinhas coligido muito do que Sólon dissera.

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CRÍTIAS

Crtítias: Primeiro que tudo, recordemos o principal: passaram nove mil anos desde a referida guerra entre os que habitavam além das Colunas de Héracles e todos aqueles que estavam para aquém; convém agora que discorramos sobre ela em pormenor.

De um lado, segundo se diz, estava a nossa cidade que comandou e travou a guerra até ao fim, enquanto que do outro estavam os reis da Ilha da Atlântida, ilha essa que, como dissemos há pouco, era maior do que a Líbia e a Ásia juntas. Mas, atualmente, por estar submersa graças aos tremores de terra, constitui um obstáculo de lama intransitável para aqueles que querem navegar dali para o alto-mar, de tal forma que nunca mais pode ser ultrapassado. Quanto aos vários povos bárbaros, e também todos os que de entre os Gregos existiam naquele tempo, a exposição do relato, no seu desenrolar, revelará o que diz respeito a cada um deles, sucessivamente e caso a caso. (…)

Em determinada altura, os deuses dividiram toda a terra em regiões (…) Tal como foi dito anteriormente acerca da partilha que ocorreu entre os deuses, eles dividiram toda a terra aqui em porções maiores e acolá em mais pequenas, onde estabeleceram templos e sacrifícios em seu próprio benefício.

Deste modo,  Poseidon, quando lhe coube em sorte a Ilha da Atlântida, estabeleceu aí os filhos que gerou de uma mulher mortal num certo local da ilha. Existia ao longo de toda a ilha, em direção ao mar, uma planície central, a qual se diz que seria a mais bela de todas as planícies e com uma fertilidade considerável. Nesta planície havia ainda na parte central uma montanha, baixa em todos os pontos, que distava cinquenta estádios do mar.

Neste local, estava um habitante de entre os homens que aí tinham nascido dessa terra em tempos primordiais; o seu nome era Evenor e vivia juntamente com a sua mulher, Leucipe; tiveram uma filha única, Clito. Logo que a rapariga atingiu a idade de ter um marido, a sua mãe e o seu pai morreram, e então  Poseidon desejou-a e uniu-se a ela. Então, de modo a construir uma cerca segura, desfez num círculo o monte em que ela habitava, e construiu à volta anéis de terra alternados com outros de mar, uns maiores, uns mais pequenos – dois de terra e três de mar, no total, torneados a partir do centro da ilha e equidistantes em todos os pontos, para que fosse inacessível aos homens; com efeito, naquela altura ainda nem havia naus nem se navegava.

Foi o próprio Poseidon que organizou o centro da ilha – facilmente, pois era um deus –, fazendo surgir de debaixo da terra duas nascentes de água – uma quente, outra fria – que corriam de uma fonte e fez brotar da terra alimentos variados e suficientes.

Engendrou e criou cinco gerações de varões gêmeos e dividiu toda a Ilha da Atlântida em dez partes; entregou a residência materna ao que de entre os mais velhos nascera primeiro, juntamente com a porção que a circundava, que era a maior e a melhor, e nomeou-o rei dos restantes, ao passo que fez destes governantes, bem como atribuiu a cada um o governo de muitos homens e uma região com vastos territórios. A todos eles atribuiu nomes: ao mais velho – o rei –, deu-lhe o nome do qual toda a ilha e também o mar, chamado Atlântico, receberam uma designação derivada – o primeiro que reinou tinha então o nome Atlas. (…) E assim, todos eles e os seus descendentes ali viveram durante muitas gerações, governando sobre todas as outras ilhas do mar, e ainda, tal conforme dito anteriormente, como senhores dos territórios aquém das Colunas de Héracles até ao Egito e a Tirrénia. De Atlas nasceu uma linhagem numerosa e honrada; o rei, que era o mais velho, transmitia a monarquia sempre ao mais velho dos descendentes, e assim se preservaram durante muitas gerações.

Além disso, detinham riquezas em número tão elevado como nunca houve em quaisquer dinastias de reis anteriores nem é fácil que haja nas que se sigam, pois estavam providos de tudo do que havia necessidade garantir à cidade e ao resto do território. Com efeito, ainda que muito viesse de fora, por causa do império, a própria ilha fornecia a grande maioria dos bens essenciais.

Em primeiro lugar, tudo quanto fosse sólido e fundível era extraído pelo ofício mineiro, bem como aquilo que atualmente apenas nomeamos – naquela altura, mais do que um nome, existia a substância: o oricalco, que a Gadírica seria toda aquela zona circundante era extraído em vários locais da ilha, o qual naquela altura era, à parte o ouro, o material mais valioso –, e a floresta fornecia tudo quanto pudesse ser trabalhado pelos carpinteiros.

A ilha produzia tudo em abundância, e, no que respeita aos animais, alimentava convenientemente os domesticados e os selvagens, incluindo a raça dos elefantes que nela existia em grande número. No entanto, havia também pastagens para os outros seres-vivos, tanto os que viviam nos pântanos, nos lagos e nos rios, quanto os que pastavam nas montanhas e nas planícies – havia em abundância para todos eles, e também na mesma medida para este animal, que era por natureza o maior e o mais voraz. Além disto, criava também diversos aromas, que atualmente a terra tem aqui e ali, de raízes, folhagens, madeiras ou sucos destilados de flores ou de frutos – isto produzia e criava a ilha em abundância. Mais ainda: frutos cultivados, secos e tudo quanto usamos na alimentação e de que aproveitamos o grão – chamamos leguminosas a todas as suas variedades –, os frutos das árvores que nos fornecem bebida, comida e óleo, os frutos que crescem em ramos altos; além disso, também a estela que continha gravadas as leis dos primeiros reis era deste material. que usamos apenas por prazer e divertimento, e tudo quanto oferecemos como estimulante desejável depois da ceia a quem sofre por estar cheio – naquela altura, a extraordinária ilha, que então estava sob o Sol, fornecia todas estas coisas belas e admiráveis em quantidade ilimitada.

Por receberem da terra tudo isto, construíram templos, residências reais, portos, estaleiros navais e melhoraram todo o restante território, organizando tudo do modo que se segue.

Primeiro, fizeram pontes sobre os anéis de mar que estavam à volta da metrópole antiga, criando deste modo um acesso para o exterior e para a zona real. Esta zona real, fizeram-na logo de princípio no local onde estava estabelecida a do deus e a dos seus antepassados. Como cada um, quando o recebia do outro, adornava aquilo que já estava adornado, superava sempre, na medida do possível, o anterior, até que tornaram o edifício espantoso de ver graças à magnificência e beleza das suas obras. Escavaram um canal que começaram a partir do mar até ao anel mais exterior, e naquele local construíram uma via de acesso do mar àquele ponto, como a um porto; também abriram uma barra adequada para a entrada de naus muito grandes. Também abriram os anéis de terra, que separavam os de mar, obedecendo à direcção das pontes, de modo a criar uma via de acesso entre os canais para uma só trirreme, e cobriram a parte superior para que o canal ficasse por baixo; é que as bordas dos anéis de terra tinham uma altura suficiente para suster o mar. O maior dos anéis, aquele pelo qual passava o mar, tinha três estádios de largura, e o anel de terra contíguo tinha a mesma largura. Dos segundos, o de água tinha dois estádios de largura, enquanto que o seco era mais uma vez igual ao anterior de água; aquele que circulava no centro da ilha tinha um estádio.

Quanto à ilha onde estava a zona real, ela tinha cinco estádios de diâmetro. À volta dela, a partir dos anéis e de um lado e de outro da ponte lançaram uma muralha de pedra e colocaram torres e portas em cada um dos lados das pontes, vedando o acesso a partir do mar. A pedra, que era branca, negra e vermelha, extraíram-na debaixo da ilha, do centro e debaixo dos anéis, quer da parte de fora, quer da de dentro. Ao mesmo tempo que a extraíam, iam construindo no interior do espaço vazio docas duplas que cobriam com a mesma pedra. Algumas das estruturas fizeram-nas simples, mas noutras misturaram as pedras, e assim produziram, por divertimento, um entrançado colorido, tornando-as naturalmente aprazíveis. As muralhas que circundavam a parte exterior do anel a toda a volta do perímetro revestiram-nas com cobre, que usaram como pintura, as da parte interior com estanho fundido, e as que circundavam a Acrópole com oricalco que tinha um reluzir semelhante ao fogo.

Quanto ao modo como estava disposta a zona real no interior da Acrópole, era o seguinte. No centro – ali mesmo – estava um templo sagrado dedicado a Clito e a  Poseidon, o qual tornaram inacessível, envolvendo-o numa cerca de ouro – foi naquele sítio que, no princípio, estes deuses conceberam e geraram a linhagem dos dez príncipes; era também naquele mesmo sítio que todos os anos entregavam a cada um deles as primícias sagradas provindas das dez partes da ilha. Ali estava o templo de Poseidon. Toda a parte exterior tinha sido coberta com prata, à exceção das extremidades (as extremidades foram cobertas com ouro). Quanto à parte interior, o teto era de marfim maciço com ouro, prata e oricalco, o que lhe dava uma aparência variegada, enquanto que revestiram todas as outras partes – paredes, colunas e pavimento – com oricalco. Erigiram estátuas de ouro: o deus erguido num carro segurando as rédeas de seis cavalos alados, que, graças à sua altura, tocava no teto com a cabeça; à volta dele estavam cem Nereides montadas em golfinhos – naquele tempo, julgavam que elas eram assim tantas; no interior havia ainda muitas outras estátuas que tinham sido oferecidas por particulares. Em torno do naos, no exterior, estavam erguidas representações de ouro de todas as mulheres e dos descendentes dos dez reis, e muitas outras grandes estátuas de reis e também de particulares da própria cidade e de quantos territórios no exterior eles governavam.

Concordante em grandeza e construção com esta edificação havia um altar, bem como a zona real estava também de acordo com a grandeza do império e com a organização que rodeava estes locais sagrados. Quanto às fontes, a que tinha uma corrente fria e a que tinha uma quente, abundantes e inesgotáveis, sendo cada uma das quais de uma admirável utilidade, em virtude do sabor e da excelência das suas águas, aproveitavam para construir edifícios em torno delas, para plantar árvores adequadas às suas águas, e para instalar reservatórios – uns a céu aberto, outros cobertos tendo em vista os banhos quentes durante o Inverno.

De um lado estavam os reais, do outro os particulares, outros ainda para as mulheres, e os restantes para os cavalos e para os outros animais de jugo, atribuindo a cada um deles a organização que lhe era adequada. De modo a dirigir a corrente para o bosque sagrado de  Poseidon, que tinha todo o tipo de árvores de uma beleza e uma altura divinas, graças à fertilidade da terra, e para os territórios periféricos, canalizaram-na por meio de condutas ao longo das pontes. Ali construíram vários templos de muitos deuses, vários jardins e ginásios, uns para os homens, outros, à parte, para os cavalos, em cada uma das ilhas dos anéis.

Entre outras coisas, havia no centro da ilha grande um hipódromo à parte, cujo comprimento compreendia a totalidade do perímetro do anel para a competição dos cavalos. Em toda a volta, havia por toda a parte aquartelamentos para um grande número de guarda-costas – a guarnição dos que eram mais fiéis estava disposta no anel mais pequeno, no ponto mais próximo da Acrópole, e aos que de entre todos estes se distinguiam em fidelidade foram concedidas residências no interior da Acrópole, junto às próprias residências reais.

Os estaleiros navais estavam preenchidos de trirremes e de quantos acessórios são adequados às trirremes, tudo preparado de forma capaz. Quanto às periferias da residência dos reis, elas estavam dispostas do seguinte modo: quando se atravessava os portos – que eram três –, vindo do exterior, muralha estendia-se em círculo, que começava no mar e fechava-se na barra do canal que dava para o lado do mar. Todo este local estava povoado por edifícios numerosos e concentrados, ao passo que o canal e o porto maior estavam preenchidos por naus e comerciantes que vinham de todo o lado, que, por serem em grande número, causavam um clamor e um ruído produzido por toda a espécie de barulhos, tanto de dia, quanto durante a noite. Temos agora na memória uma aproximação daquilo que foi narrado naquele tempo sobre a cidade e a zona circundante das antigas edificações; devemos então tentar relembrar qual era a natureza do resto da região e o tipo de organização que tinha.

Primeiro, todo este lugar, segundo se dizia, era muitíssimo alto e escarpado desde o mar, mas a periferia da cidade era toda plana. Esta zona que rodeava a cidade era ela própria rodeada por montanhas em círculo que se estendiam até ao mar – além disso, era plana e nivelada, toda ela oblonga, com três mil estádios numa direcção e, pela parte central, dois mil estádios do mar até ao topo. Esta região da ilha estava orientada para Sul, abrigada do Norte. As montanhas que a circunscreviam, naquele tempo eram famosas pelo número, grandeza e beleza, superando todas as que hoje existem; nelas havia aldeias ricas e numerosas, rios, lagos, prados que forneciam alimento suficiente para todos os animais domésticos e selvagens, e uma floresta toda ela abundante e com grande variedade de espécies – uma fonte inesgotável para todo o tipo de obras em geral e para cada uma em particular. A planície foi mantida pela natureza e também por muitos reis durante muito tempo do seguinte modo.

A maior parte da sua área formava um quadrilátero retangular e oblongo, e o restante aplanaram-no por meio de uma vala que escavaram em círculo. Na medida em que se tratava de uma obra feita à mão, a profundidade, largura e comprimento desta fossa de que se fala são duvidosos, se a compararmos aos outros empreendimentos, mas devemos dar a conhecer aquilo que ouvimos dizer: foi escavada com um pletro de profundidade, um estádio de largura em todos os pontos, e, visto que tinha sido escavada à volta de toda a planície, a largura era coincidente: 10000 estádios. Como recebia as correntes de água que desciam das montanhas, e sabendo que rodeava a planície, chegava à cidade por ambos os lados, descarregava deste modo o fluxo no mar. Assim, talharam vários canais perpendiculares, com 100 pés de largura e cada um dos quais 100 estádios afastado dos outros, dispostos transversalmente ao longo da planície desde as montanhas, que iam, por seu turno, desaguar na outra ponta da vala, na direcção do mar. Era deste modo que transportavam a madeira das montanhas até à cidade e expediam os restantes produtos da época por meio de barcos, visto que haviam talhado vias de navegação transversais de uns canais para outros e para a cidade – colhiam os frutos da terra duas vezes por ano.

Usavam, no Inverno, a água que vinha de Zeus, e, no Verão, a que a terra fornecesse e os fluxos que faziam correr dos canais.

No que respeita à população, foi estabelecido que, na planície, cada distrito forneceria um homem que comandasse aqueles que pudessem servir para a guerra, sendo que o tamanho de cada região era de dez por dez estádios, e, no total, havia sessenta mil distritos. Dizia-se que o número de homens das montanhas e do resto do território era infinito, e todos eles, em função dos lugares e das aldeias, estavam distribuídos pelos distritos e adscritos a quem as comandava, conforme o lugar e a aldeia. Estava prescrito que, caso houvesse guerra, cada comandante fornecesse uma sexta parte de um carro de guerra para um total de dez mil carros: dois cavalos e respectivos cavaleiros, mais um par de cavalos sem carro; um soldado que combatesse com um pequeno escudo a pé e também dentro do carro, bem como pudesse conduzir ambos os cavalos; dois hoplitas, arqueiros e fundeiros – também dois de cada; soldados de infantaria ligeira, uns que lançassem pedras e outros dardos – três de cada; quatro marinheiros para formar tripulação de mil e duzentas naus. Assim estavam organizadas as tarefas militares da cidade real; quanto às restantes nove regiões, era de outro modo, mas isso levaria muito tempo para explicar.

Quanto à organização inicial das instituições de governo e dos cargos, processou-se do seguinte modo. Cada um dos dez reis, na sua região e na sua cidade, detinha um poder absoluto sobre as leis e sobre os homens, pois castigava e condenava à morte quem quer que quisesse. Por outro lado, a autoridade que tinham uns sobre os outros e as relações mútuas dependiam das determinações de  Poseidon, tal como lhes transmitira a lei que havia sido fixada na escrita pelos primeiros reis numa estela de oricalco, que se encontrava no centro da ilha num templo de  Poseidon. Nesse local, os reis reuniam-se de cinco em cinco e de seis em seis anos, alternadamente, distribuindo assim equitativamente ciclos de anos pares e ímpares; durante essas reuniões, deliberavam sobre assuntos de interesse comum, verificavam se algum deles tinha transgredido alguma norma e julgavam-no. Quando chegava a altura de julgar, trocavam antes votos de boa fé entre si do seguinte modo. Depois de terem por um entrançado de couro ou corda para arremessar pedras.  Tendo sido largados os touros no templo de  Poseidon, os dez reis, que estavam sozinhos, faziam imprecações ao deus para que eles capturassem a vítima que lhe agradasse; depois perseguiam-na sem armas de ferro, mas sim com paus e laços. Desses touros, aquele que tivessem capturado, levavam-no para junto da estela e degolavam-no no topo dela para que o sangue corresse pelas letras – na estela, junto às leis, estava um juramento que imprecava grandes maldições para aqueles que o violassem. Então, depois de sacrificarem o touro de acordo com as suas leis, queimavam todos os seus membros, enchiam um kratêr de vinho misturado e deitavam um pedaço de sangue coagulado sobre cada um; em seguida limpavam a estela e lançavam o restante para o fogo. Depois disto, retirando vinho do kratêr com phiales de ouro e fazendo libações na direcção do fogo, juravam julgar de acordo com as leis que estavam na estela, punir quem, anteriormente, as tivesse transgredido em algum ponto, não transgredir propositadamente nenhuma daquelas escrituras no futuro e não governar nem obedecer a nenhum governante a não ser ao que estava estabelecido de acordo com as leis do pai. Depois de fazer estas cada região administrada por um rei; esses reis reuniam-se em assembleia em ambiente ritual e também junto a um templo; e durante esse encontro, faziam sacrifícios, libações, bem como ingeriam uma bebida sacrificial. Além disso, faziam juramentos de fidelidade e entreajuda e elegiam um dos reis como soberano.

Curiosamente, esta civilização também cultivava uma arquitetura rica e monumental. Quando chegava a escuridão e o fogo do sacrifício se extinguia, então todos eles, vestidos com um belíssimo manto azulescuro, sentavam-se no chão junto às cinzas sacrificiais. À noite, depois de apagarem por completo o fogo junto ao templo, eram julgados e julgavam caso algum deles acusasse outro de ter transgredido algum ponto. Depois de julgarem, quando chegava a claridade, registavam as determinações numa placa de ouro que, vestidos com o manto, ofereciam como monumento.

Havia muitas outras leis particulares sobre as prerrogativas de cada rei, mas as mais importantes eram as seguintes: nunca, em circunstância alguma, lutarem entre si; ajudarem-se todos uns aos outros, caso algum deles tentasse alguma vez destituir a família real numa cidade; e, tal como os antepassados, deliberar em comunhão as resoluções respeitantes à guerra e a outros assuntos, atribuindo o comando à estirpe de Atlas. Não era lícito que um rei determinasse a morte de nenhum membro da sua família, se não tivesse o voto de metade dos dez reis.

Esta era, segundo o relato, a natureza e o poderio que outrora existia naquelas terras e que o deus, por sua vez, organizou e dali trouxe aqui para estas terras pelo seguinte motivo. Durante várias gerações, enquanto a natureza do deus os engrandecia, foram obedientes às leis e mantiveram-se indulgentes à ascendência divina; em todos os aspectos aspiravam a pensamentos verdadeiros e grandiosos e faziam sempre uso da delicadeza juntamente com a prudência perante as vicissitudes e nas relações entre si – daí que desprezavam tudo menos a virtude, pouco apreciavam a sua condição e suportavam com facilidade, tal como um fardo, o peso do ouro e das outras riquezas. Assim, por não se inebriarem pela sumptuosidade causada pela riqueza nem se descontrolarem, não capitulavam. Pelo contrário, mantendo-se sóbrios, percebiam com acuidade que tudo isso aumentava graças à amizade mútua acompanhada da virtude, mas que isso mesmo decaía por causa da ânsia e da veneração, bem como a virtude era destruída pelo mesmo motivo. Foi graças a esta maneira de pensar e à natureza divina que mantinham em si que aumentavam todas estas riquezas de que temos falado.

Mas quando a parte divina neles se começou a extinguir, em virtude de ter sido excessivamente misturada com o elemento mortal, passando o caráter humano a dominar, então, incapazes de suportar a sua condição, caíram em desgraça e, aos olhos de quem tem discernimento pareciam desavergonhados, pois haviam destruído os bens mais nobres que advêm da honra. Mas aos olhos que não conseguem discernir a conduta que corresponde à verdadeira felicidade davam a impressão de ser extremamente belos e felizes, mas estavam impregnados de uma arrogância injuriosa e de poder.

O deus dos deuses – Zeus – que reina por meio de leis, como tem capacidade para discernir este tipo de acontecimentos, apercebeu-se de que uma estirpe íntegra estava organizada de um modo lastimoso. Então decidiu aplicar-lhes uma punição, de modo a que eles se tornassem razoáveis e moderados. Reuniu todos os deuses na sua nobilíssima morada, que se encontra estabelecida no centro do mundo e contempla tudo quanto participa no devir, e, depois de os ter reunido, disse…

SAIBA MAIS

PLATÃO. Timeu – Crítias. Tradução do grego, introdução, notas e índices: Rodolfo Lopes. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. Universidade de Coimbra, 2011.

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