O livro de Toth

A tradição ocidental sempre buscou um livro que contivesse o conhecimento absoluto. Na cultura egípcia antiga, essa aspiração tomou forma no chamado Livro de Thoth. O nome sugere unidade, mas o objeto se dispersa em camadas históricas que se sobrepõem como as margens sucessivas deixadas por uma enchente do Nilo. Há um livro lendário atribuído ao deus Thoth, outro identificado por egiptólogos modernos e inúmeras versões que circulam na ficção contemporânea. Cada uma reflete o desejo humano de tocar um saber reservado aos deuses, desejo que costuma cobrar um preço alto. Assim como alguém que tenta abrir um cofre ancestral sem conhecer o mecanismo interno, o leitor se aproxima do Livro de Thoth com a esperança de acesso e o risco de punição.

Thoth ocupava um lugar singular no imaginário egípcio. Era o deus da escrita, da magia, da sabedoria e do conhecimento. Por isso, muitos textos eram atribuídos a ele como forma de homenagem, prática que os estudiosos chamam de pseudepigrafia. A autoria divina indicava que o saber contido no texto não pertencia a um indivíduo, mas ao próprio fundamento da ordem cósmica. A lenda mais famosa sobre o Livro de Thoth aparece na narrativa ptolomaica conhecida como Setne I ou Setne Khaemwas e Naneferkaptah. O enredo gira em torno de um livro que possuía dois feitiços. Um permitia compreender a linguagem dos animais. O outro oferecia a visão dos deuses. Esse livro estava oculto no fundo do Nilo, próximo a Coptos, protegido por caixas sucessivas de metais preciosos e guardado por serpentes e escorpiões. O príncipe Neferkaptah venceu os guardiões e obteve o livro. No entanto, perdeu a esposa e o filho como punição por tomar o que pertencia aos deuses. A dor o levou ao suicídio. Foi sepultado com a obra que tanto desejara. A história ecoava a convicção egípcia de que o conhecimento divino possuía limites. Quem os ultrapassava enfrentava consequências inevitáveis.

Além da lenda, existe um texto real que recebeu dos estudiosos o nome de Livro de Thoth. Richard Jasnow e Karl Theodor Zauzich identificaram fragmentos demóticos da época greco-romana que compõem uma obra extensa. São mais de quarenta pedaços de papiro. O texto adota o formato de diálogo entre uma divindade chamada Aquele que louva o conhecimento e um discípulo chamado Aquele que ama o conhecimento. O conteúdo percorre temas ligados ao trabalho dos escribas, à geografia sagrada, ao mundo subterrâneo, aos rituais templários e à natureza dos animais. O leitor moderno percebe que a obra não transmite fórmulas mágicas. Ela revela a formação intelectual de um escriba que desejava compreender o lugar da escrita no tecido do cosmos. A leitura se aproxima do trabalho paciente de quem restaura um mosaico antigo. Cada fragmento devolve um contorno, mas jamais o quadro completo.

O Livro de Thoth também encontrou vida nova na cultura popular. A figura de um livro perdido que concede poder intenso continua a atrair escritores e criadores. Aleister Crowley publicou em 1944 um livro com esse nome para explicar seu baralho de tarô Thoth. A obra aparece em romances como Moses Man of the Mountain de Zora Neale Hurston, em The Serpents Shadow de Rick Riordan e em contos de H. P. Lovecraft. Em narrativas visuais, surge em mangás e animes como JoJo’s Bizarre Adventure, em que assume a forma de um livro profético. Jogos eletrônicos como Smite, Civilization VI e Shin Megami Tensei Strange Journey também incorporaram versões do Livro de Thoth como item ou elemento de enredo. Cada adaptação reinventa o tema central. O saber absoluto fascina e ameaça ao mesmo tempo. A lenda antiga e os usos modernos do Livro de Thoth mostram que o anseio humano por conhecimento raramente se limita à curiosidade. Ele toca o perigo, como alguém que percorre uma sala escura com um lampião que ilumina apenas o espaço imediato. O que se alcança com a luz encanta. O que permanece invisível inquieta.

SAIBA MAIS

CROWLEY, A. The book of Thoth: a short essay on the tarot of the Egyptians. York Beach: Samuel Weiser, 1944.

HURSTON, Z. N. Moses, man of the mountain. Philadelphia: J. B. Lippincott, 1939.

JASNOW, R.; ZAUZICH, K.-T. The ancient Egyptian book of Thoth. Wiesbaden: Harrassowitz Verlag, 2005. v. 1.

RIORDAN, R. The serpent’s shadow. New York: Disney Hyperion, 2012. (As Crônicas dos Kane, v. 3).

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