Esdras restaura a Bíblia: uma história pouco contada

Uma das partes obscuras da história de composição e transmissão da Bíblia envolve o escriba Esdras. Segundo uma tradição, espantosamente compartilhada por várias religiões, este escriba e líder dos retornados judeus do século V a.C. à província persa de Yehud, teria restaurado e ensinado as Escrituras sagradas ao povo.[1]

Havia partes das Escrituras Hebraicas compostas antes do exílio babilônico (598-538 a.C.), mas esses escritos teriam sido escondidos ou perdidos quando da queda de Jerusalém pelos caldeus. O que Esdras fez não é muito claro. Para alguns, teria instruído o povo nos ensinos divinos. Porém, uma tradição judaica[2], cristã[3], samaritana[4] e muçulmana[5] diz que Esdras teria editado, restaurado ou recomposto (ou adulterado, conforme os detratores) as Escrituras Hebraicas.

A lenda diz que quando Nabucodonosor tomou Jerusalém, o sumo sacerdote Simeão teria obtido a permissão para levar as Escrituras ao cativeiro. Mas durante a trilha da deportação, viu um poço e escondeu-as em um vaso. Anos mais tarde, Esdras encontrou os manuscritos parcialmente estragados e desbotados e teve que os restaurar revelação divina.[6] Outras versões retratam um meio mais psicodélico: os livros estavam com incenso e em cinzas, mas Esdras tragou essas cinzas e inspirado pelo Espírito Santo reescreveu toda a Bíblia da época.[7]

Esta acepção enteógena de inspiração não é muito conhecida. O apócrifo IV Esdras 14:1-10, 19-26, 37-48 retrata um processo de restauração das Escrituras por um método bem estranho, digamos:

No terceiro dia, enquanto eu estava sentado sob um carvalho, de repente uma voz saiu de um arbusto à minha frente e disse: “Esdras, Esdras!” E eu respondi: “Aqui estou, Senhor”, e me levantei.

Então ele me disse: “Revelei-me em uma sarça e falei com Moisés quando meu povo estava em cativeiro no Egito; Eu o enviei e tirei o meu povo do Egito; e o conduzi ao monte Sinai, onde o mantive comigo muitos dias. Contei-lhe muitas coisas maravilhosas, mostrei-lhe os segredos dos tempos e declarei-lhe o fim dos tempos. Então ordenei-lhe, dizendo: ‘Estas palavras você publicará publicamente, e estas você manterá em segredo.’  E agora eu te digo: Guarda no teu coração os sinais que te mostrei, os sonhos que tu viu, e as interpretações que você ouviu; porque sereis tirados do meio da humanidade e, doravante, viverás com meu Filho e com aqueles que são como vós, até que os tempos acabem.

Então respondi e disse: “Deixa-me falar na tua presença, Senhor. Pois irei, como me ordenaste, e repreenderei o povo que agora vive; mas quem avisará aqueles que nascerão depois? Pois o mundo está em trevas e seus habitantes não têm luz. Porque a tua lei está queimada, e ninguém sabe o que foi ou será feito por você. Se, pois, achei graça em ti, envia-me o Espírito Santo, e escreverei tudo o que aconteceu no mundo desde o princípio, as coisas que estavam escritas na tua lei, para que as pessoas possam encontrar o caminho, e que aqueles que querem viver nos últimos dias o façam. ”

Ele me respondeu e disse: “Vai, reúne o povo e diz-lhe que não te busque por quarenta dias. Mas prepare para si muitas tábuas de escrever e leve com você Sareia, Dabria, Selemia, Etano e Asiel – estes cinco, que são treinados para escrever rapidamente; e virás aqui, e acenderei no teu coração a lâmpada do entendimento, a qual não se apagará antes de terminar o que estás prestes a escrever. E quando você terminar, algumas coisas você tornará públicas, e outras você deve entregar em segredo aos sábios; amanhã a esta hora você começará a escrever. ”

Peguei, pois, os cinco homens, como ele me ordenou, e partimos para o campo, e ali permanecemos.

E no dia seguinte uma voz me chamou, dizendo: “Esdras, abre tua boca e bebe o que eu te der de beber”.

Abri a boca, e um copo cheio me foi oferecido; estava cheio de algo parecido com água, mas sua cor era como fogo. Eu peguei e bebi; e depois de o ter bebido, meu coração transbordou de compreensão e a sabedoria cresceu em meu peito, pois meu espírito reteve sua memória, e minha boca se abriu e não se fechou mais.

Além disso, o Altíssimo deu entendimento aos cinco homens e, alternadamente, eles escreveram o que foi ditado, usando caracteres que eles não conheciam. Ficaram sentados quarenta dias; eles escreviam durante o dia e comiam seu pão à noite. Quanto a mim, eu falava durante o dia e não calava à noite. Assim, durante os quarenta dias, noventa e quatro livros foram escritos.

E quando os quarenta dias terminaram, o Altíssimo falou comigo, dizendo: “Torne públicos os vinte e quatro livros que você escreveu primeiro, e deixe os dignos e os indignos os lerem;  mas guarda os últimos setenta que foram escritos, para os dar aos sábios entre o teu povo. Porque neles está a fonte do entendimento, a fonte da sabedoria e o rio da ciência ”. E eu fiz isso.

Os 24 livros correspondem ao Antigo Testamento protestante ou à Tanakh judia, mas resta o mistério sobre essa biblioteca oculta e do cânone de 94 livros.

A crítica textual e a arqueologia (especialmente depois das descobertas dos Manuscritos do Deserto da Judeia) corroboram parcialmente esta tradição. Embora o papel de Esdras (nem seus métodos) ou a extensão desse processo editoral permanecem desconhecidos, as evidências confirmam que houve uma edição no período persa ou helenista que deu a forma mais ou menos canônica do Pentateuco que conhecemos. Inclusive seria quando foi adotada a escrita aramaica quadrada (ashurit) em substituição à escrita paleo-hebraica, ainda em uso pela comunidade samaritana para as cópias da Torá[8]. No entanto, é mais plausível que essa edição levou mais tempo e ocupou vários escribas em colaboração, tanto de judeus quanto de samaritanos[9]. Mas a versão do Esdras psicodélico é mais divertida.


[1] Neemias 8 e Neemias 9. Cf. Esd 7–10.

[2] Talmud Sukkah 20a; Sanhedrin 21b; Avot d’Rabbi Natan 34

[3] Irineu de Leão Adversus Haereses, iii, 21.2; Clemente de Alexandria Stromata, I, 2; Jerônimo Adversus Helvidium. Cf. Wollenberg, Rebecca Scharbach. “The Book That Changed: Narratives of Ezran Authorship as Late Antique Biblical Criticism.” Journal of Biblical Literature 138.1 (2019): 143-160.

[4] Crônica Adler VII.

[5] Al-Tabai. Tartkh al-suul wal-muluk. 4. A tradição islâmica atribui a Uzair (Esdras) uma lenda que expande a Surah Al-Baqarah 2:259. Uzair teria dormido por cem anos e ao despertar ensinou a Torá ao povo da cidade. No entanto, há uma corrente minoritária, defendida pelo erudito andaluso Ibn Hazm (994-1064) e o erudito judeu-muçulmano Samuel Al-Maghribi (1130 – c. 1180), de que Uzair teria adulterado a Torá.

[6] Versão conforme livro Kitāb al-Majāll f.137a–138a, um livro cristão árabe.

[7] Conforme a Versão Etíope do Conflito de Adão e Eva com Satã IV, 10,16-17; 11,8–13 e do livro siríaco Caverna dos Tesouros 36b.1.

[8] A comunidade israelita samaritana rejeita Esdras e as secções chamadas de Profetas e Escritos, mas possuem praticamente a mesma Torá ou Pentateuco, o que indica uma possível colaboração entre as duas comunidades no início do período persa. cf. HJELM, Ingrid. Northern Perspectives in Deuteronomy and Its Relation to the Samaritan Pentateuch. In Deuteronomy: A Judean or Samari(t)an Composition. Perspectives on Deuteronomy’s Origins, Transmission and Reception. Cynthia Edenburg and Reinhard Müller (eds.). Special Issue. Hebrew Bible and Ancient Israel 2015 4: 184–204. KARTVEIT, Magnar. “Theories of the Origin of the Samaritans—Then and Now.” Religions 10.12 (2019): 661. https://doi.org/10.3390/rel10120661 Sobre a explicação rabínica da substituição cf o Talmud babilônico Sanh. 21b.

[9] KNOPPERS, Gary N. Jews and Samaritans. The Origins and History of their Early Relations. Oxford: Oxford University Press, 2013.

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