Ficção: Resenha do romance Volvelle

ROLANDO, T. Henry. Volvelle: estórias em um mesmo eixo. Belmopán: Editorial Ensayos y Notas, 2029. Pp 1600 p. £ 60.

Resenha por Alessandro Cremandovelo

Com entusiasmo apresento Volvelle: estórias em um mesmo eixo, do celebrado escritor T. Henry Rolando. Trata-se de um projeto literário singular. Ambicioso, tensiona os limites do gênero e da narrativa. O romance dialoga com Exercícios de Estilo, de Raymond Queneau, ao mesmo tempo que explora territórios criativos próprios. Em Volvelle, uma única história permanece estruturalmente inalterada e é recontada 400 vezes, cada iteração transformada por um gênero literário distinto e por uma nova narrativa-moldura.

A operação formal é simples e rigorosa: um mesmo enredo se desdobra em múltiplos enquadramentos que lhe conferem sentido. Autobiografia, true crime, ficção especulativa, steampunk, romance, hagiografia, narrativa de aventura, gótico, horror, apocalipse zumbi, crônicas de navegação, realismo fantástico, comédia de costumes, distopia, fábula, literatura pseudoepígrafa judaica — a enumeração não esgota o repertório. Cada versão pode surgir como manuscrito encontrado, relatório policial ou registro onírico. A cada recontagem, o leitor é reconduzido ao mesmo núcleo narrativo sob novas condições de inteligibilidade.

O projeto, porém, avança além da variação formal. Cada história articula-se a uma condição de saúde mental — cerca de 300 delas catalogadas no DSM-5 —, deslocando a atenção para a experiência subjetiva. O resultado é uma cartografia narrativa da psique, que evita a redução clínica e privilegia a dimensão vivida. Categorias descontinuadas, como orientação sexual ego-distônica, ou controversas, como drapetomania e burnout, aparecem ao lado de síndromes culturalmente situadas, como hikikomori ou ennui. A estratégia ultrapassa o diagnóstico de saúde mental, pois cada condição reorganiza a própria lógica do relato.

A dimensão geográfica reforça o princípio de variação. As narrativas distribuem-se pelos 193 países-membros da ONU, aos quais se somam territórios como a Antártida e Tristão da Cunha, compondo um conjunto de duzentos cenários que se repetem ao longo da obra. O efeito é uma desestabilização de expectativas. Tóquio pode servir de palco para um horror intimista; o Oeste americano, para um relato de transtorno de estresse pós-traumático; Cingapura, para uma narrativa centrada no transtorno obsessivo-compulsivo. O deslocamento impede a associação automática entre lugar e estereótipo.

Alguns exemplos ilustram a amplitude do projeto: um mistério policial ambientado em um sanatório alpino na Suíça; a ansiedade generalizada diante de um furacão iminente em Tuvalu; uma distopia tecnofeudal em El Salvador; uma família atravessada pela saudade em Portugal; uma operária que enfrenta transtorno de personalidade borderline na Belarus. Há também situações tragicômicas, como o uma canção de ninar durante um surto de insônia no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau. Em outra versão, o texto surge como fragmento pseudoepígrafo descoberto na Jordânia por um falsário e mentiroso patológico. Em todas, o eixo narrativo permanece, ainda que submetido a regimes distintos de sentido.

A estrutura resultante aproxima a obra do romance enciclopédico e da literatura ergódica, ao mesmo tempo que a mantém próxima da antologia de contos. A leitura exige participação ativa: reconhecer o mesmo no diverso, identificar variações, reconstruir continuidades. A empatia emerge de múltiplos pontos de entrada, como na história de uma jovem vietnamita com transtorno de amor obsessivo que encontra consolo em uma versão romântica do enredo central, ou no humor autodepreciativo que marca uma narrativa de depressão em estilo nordic noir, ambientada em Helsinque.

Volvelle: estórias em um mesmo eixo não se reduz a experimento formal. Obra de experimentação literária sobre repetição, variação e experiência. Ao articular gêneros, geografias e condições psíquicas, o romance transforma um enredo mínimo em dispositivo de exploração do humano. O resultado é uma literatura que combina rigor estrutural e amplitude temática, capaz de reposicionar a relação entre narrativa, forma e percepção na literatura contemporânea.

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