Ler Vathek é entrar numa biblioteca onde os livros foram substituídos por símbolos que ainda não aprenderam a falar. Não se trata apenas de acompanhar a queda de um soberano seduzido pelo poder, mas de observar o destino de todo aquele que confunde o desejo de conhecer com o direito de possuir aquilo que conhece. A torre que busca o céu, os sabres indecifráveis, o pacto que promete acesso irrestrito ao oculto — cada elemento da narrativa funciona como um dispositivo de interpretação que se volta contra o próprio intérprete.

O romance pertence àquela tradição em que o saber não ilumina: consome. O protagonista não erra por ignorância, mas por excesso de leitura do mundo, por acreditar que todo signo esconde um segredo disponível à vontade humana. O inferno, nesse sentido, não é apenas um lugar de punição, mas a forma final de uma hermenêutica sem limites — o espaço onde todos os significados se revelam tarde demais, quando já não podem ser usados, apenas suportados.
Assim, antes de ser uma fábula moral ou um exercício do imaginário gótico, Vathek é uma meditação sobre o perigo de levar a curiosidade às últimas consequências. Pois há textos que se deixam decifrar. E há textos que, quando finalmente compreendidos, revelam que sempre estiveram nos lendo.
O califa Vathek governa com poder e recursos que parecem sem limite. É o nono califa dos Abássidas. Seu nome dá título ao romance Vathek, de William Beckford. A narrativa acompanha sua ascensão e sua queda, conduzidas por um desejo de conhecimento que se converte em pacto demoníaco.
A história se organiza em três movimentos sucessivos. Cada um registra um avanço do poder exterior e, ao mesmo tempo, um recuo da integridade espiritual.
O reinado começa com um gesto de investigação. Vathek ordena a construção de uma torre destinada a penetrar os segredos do céu. A curiosidade assume forma arquitetônica.
Nesse contexto chega um estrangeiro trazendo sabres inscritos com sinais arcanos. O visitante desaparece deixando mortes. Os objetos permanecem. O califa passa a perseguir o significado das inscrições. A interpretação não se conclui. A busca reorganiza sua vida. O poder imperial torna-se instrumento de decifração.
A investigação deixa de ser intelectual. Torna-se processo psicológico e moral. O encontro com o giaour estabelece o ponto de ruptura. A proposta é direta: poder ilimitado em troca de apostasia e do sacrifício de cinquenta crianças. Vathek aceita.
A viagem rumo a Istakar segue como percurso de decadência, alianças instáveis e traições. Entre os que o acompanham está Nouronihar, cuja adesão ao caminho do califa confirma que a queda não ocorre em isolamento. A renúncia religiosa surge como extensão lógica da curiosidade inicial. O desejo de saber torna-se desejo de dominar. O desejo de dominar exige ruptura com a ordem moral.
O destino é o domínio de Eblis. (Minha passagem favorita). O palácio de fogo funciona simultaneamente como espaço físico e figura de condenação. Vathek e Nouronihar entram num regime de tormento contínuo. A ambição que orientou toda a jornada perde objeto. O conhecimento prometido não se realiza.
A condenação inclui Carathis, mãe do califa. A presença materna ao longo da narrativa encarna a transmissão do desejo sem limite. A queda finaliza um processo que começou com a curiosidade e terminou com a perda total da ordem espiritual.
A narrativa articula vários motivos tradicionais.
O pacto com o giaour inscreve o romance no modelo faustiano. O abandono deliberado da integridade espiritual é apresentado como decisão racional orientada por promessa de poder. A descida ao domínio subterrâneo organiza a estrutura narrativa segundo um movimento progressivo de imersão. A viagem termina no interior do castigo.
O cenário cultural mobiliza imagens do mundo islâmico filtradas por imaginação europeia. Elementos religiosos e fantásticos coexistem. O espaço narrativo funciona como construção estética do distante.
A arquitetura monumental, o sofrimento psicológico e a presença do sobrenatural definem o romance como ficção gótica. Beckford nasceu em 1759, em Wiltshire, e herdou uma fortuna que sustentou projetos artísticos e arquitetônicos de grande escala. Viveu longos períodos de reclusão na Abadia de Fonthill, onde desenvolveu experimentos construtivos e coleções de arte durante cerca de vinte anos.
Após a morte de sua esposa, Lady Margaret Gordon, a produção criativa intensificou-se. O interesse pelo sublime e pelo proibido orientou tanto seus projetos arquitetônicos quanto sua escrita. Vathek tornou-se o ponto central dessa produção.
Há edições brasileiras publicadas pela L&PM Editores, algumas acompanhadas de textos de Jorge Luis Borges, e também edições da Barcelar
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Atualizado em 17 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Vathek. Ensaios e Notas, 2019. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2019/05/16/vathek/. Acesso em: 17 fev. 2026.
