A historiografia literária de língua portuguesa encontra em Teresa Margarida da Silva e Orta (1711–1793) um marco de transição e ruptura. Nascida em São Paulo, no Brasil Colônia, e radicada em Portugal, Orta estabelece-se como a primeira mulher a escrever um romance no idioma, figurando como precursora das letras brasileiras e lusitanas.
Sua obra-prima, Aventuras de Diófanes, publicada inicialmente sob o título Máximas da virtude, e fermosura em 1752 e consagrada em edição de 1777, transcende a mera ficção para consolidar-se como um romance de tese e pedagogia política. A tese central que sustenta sua produção revela que, longe de ser uma simples imitadora do modelo francês de Fénelon, a autora instrumentalizou a estrutura da viagem iniciática para infiltrar, no conservadorismo do Portugal de setecentos, um discurso protofeminista e uma crítica contundente ao absolutismo e à ociosidade nobiliárquica. Sua biografia, com passagens pelo cárcere, pela viuvez e por persistentes batalhas jurídicas, é o substrato indissociável de sua ficção.
Sua posição na história da literatura remete ao florescimento da família Aires em São Paulo. Filha de José Ramos da Silva, cavaleiro da Ordem de Cristo e provedor da Casa da Moeda enriquecido no ciclo do ouro mineiro, e de Catarina de Orta, Teresa pertencia à elite colonial. Mudou-se para Lisboa por volta de 1717, aos seis anos, sendo educada no Convento das Trinas. Ali, teve acesso a uma formação intelectual refinada, incomum para mulheres leigas, dominando o francês e o italiano, além de travar contato com os clássicos. Seu irmão, Matias Aires, autor de Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, compartilhava do mesmo ambiente de circulação de ideias ilustradas que caracterizava os reinados de D. João V e D. José I, sob a influência de figuras como o diplomata Alexandre de Gusmão. A recepção de As Aventuras de Telêmaco, de François Fénelon, foi decisiva para Orta. A obra francesa, que defendia o rei filósofo contra o absolutismo, serviu de molde para que Teresa Margarida articulasse sua própria visão crítica, declarada explicitamente no subtítulo de sua obra.
A vida pessoal de Teresa Margarida espelha a persistência resiliente de suas personagens. Casada com Pedro Jansen Moller van Praet e mãe de doze filhos, enfrentou a viuvez por volta de 1753. Sua autonomia civil foi testada no conflito direto com o Marquês de Pombal. Acusada de mentir ao rei ao intervir no casamento de seu filho caçula, foi condenada a sete anos de reclusão no Mosteiro de Ferreira de Aves entre 1760 e 1777. Na clausura, sua produção literária não cessou, resultando em manuscritos como o Poema épico-trágico, a Novena do Patriarca S. Bento e a Petição que a presa faz à rainha N. Senhora. Libertada apenas com a subida de D. Maria I ao trono, Teresa manteve o protagonismo civil, utilizando correspondências para dialogar com autoridades e garantir que sua herança não fosse transferida a tutores masculinos, reafirmando sua capacidade jurídica.
No plano literário, Aventuras de Diófanes apresenta questões filológicas complexas. O uso do pseudônimo Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira, um anagrama perfeito de seu nome, não impediu que, em 1790, a autoria fosse erroneamente atribuída a Alexandre de Gusmão. O consenso acadêmico contemporâneo identifica este episódio como um caso de apagamento histórico da autoria feminina. O romance, uma epopeia em prosa, narra a viagem de Diófanes (Rei de Tebas), Climeneia e Hemirena a Delfos. Após um ataque e o naufrágio da embarcação, a família real é dispersada e vendida como escrava. A princesa Hemirena, protagonista central, assume a identidade masculina de Belino para sobreviver, configurando o arquétipo da “donzela guerreira”. O enredo conduz o leitor por reencontros e disfarces até a restauração final da ordem e da posição social da linhagem.
Os temas centrais da obra revelam o ideário protofeminista e iluminista de Orta. Ela defende abertamente a educação igualitária, contestando a exclusão das mulheres das ciências ao afirmar que a ausência de obrigação em ser sábia não implica um voto de ignorância, pois haveria igualdade de almas e direito aos conhecimentos. Hemirena não é um objeto passivo de negociação matrimonial, mas agente da própria salvação através da inteligência. Paralelamente, a autora critica a ociosidade da nobreza e as hierarquias fixas; ao transformar nobres em escravos, expõe a fragilidade do sangue perante o mérito e a virtude. Sua crítica política ecoa o antiabsolutismo, propondo um paternalismo esclarecido em oposição ao rigor joanino.
A influência de Teresa Margarida foi vasta, embora descontínua. Bebeu na cultura clássica e possivelmente no empirismo de Locke, mantendo um didatismo moralizante como fio condutor. Após um recebimento elogioso no século XVIII, a obra caiu no esquecimento durante o século XIX, sendo redescoberta apenas nas décadas finais do século XX. O trabalho de Ceila Montez em 1993, com a organização da Obra Reunida, e as análises de Nelly Novaes Coelho, Sofia de Melo Araújo e Tânia Furquim consolidaram sua importância. Hoje, a Academia Brasileira de Letras a reconhece como a primeira romancista do Brasil, sendo sua trajetória um exemplo de resistência contra o memoricídio. Sua contribuição rompe o monopólio masculino na prosa de ficção e antecipa em 150 anos o feminismo organizado, unindo vida e obra como instrumentos de defesa da emancipação intelectual.
SAIBA MAIS
ARAÚJO, Sofia de Melo. Aventuras de Diófanes», de Teresa Margarida da Silva e Orta: os ideais de Climenéia e Diófanes à luz dos tempos. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, série II, vol. 23, 2006-2008, p. 103-126.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras. São Paulo: Escrituras, 2002.
ENNES, Ernesto. Dois paulistas insignes: Teresa Margarida da Silva e Orta e o primeiro romance brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1952
FLORES, Conceição. Gênero(s) na obra de Teresa Margarida da Silva e Orta. In: Anais do XIV Seminário Mulher e Literatura, 2012.
MARTINS, Ana Margarida. Teresa Margarida da Silva Orta (1711–1793): A Minor Transnational of the Brown Atlantic. Portuguese Studies, v. 35, n. 2, 2019.
ORTA, Teresa Margarida da Silva e. Obra Reunida. Organização de Ceila Montez. Rio de Janeiro: Graphia, 1993.

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