A emergência: a soma do todo é mais do que as partes

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Gregório de Matos

No poema teológico de Gregório de Matos em epígrafe há a velha questão da relação entre as partes e a totalidade. Desde de Descartes costumou-se dividir-se conjuntos complexos em unidades elementares as mais simples possíveis e a partir daí inferir explicações sobre o conjunto inteiro.

Só que não dá para inferir de uma amostra um retrato fiel de um objeto amplo. Em outras palavras, se eu provar, medir, descrever, caracterizar uma colher de trigo, não será o mesmo que descrever um bolo de chocolate. Contudo, um farelo de bolo poderia me informar com certa segurança sobre o objeto maior. Sei que era de um bolo de chocolante e potencialmente não um bolo de laranja. Mas, e se for um bolo mesclado ou formigueiro e dei o azar (ou sorte) de encontrar justo a migalha da parte de chocolate?

Especulações calóricas à parte, definir a emergência em termos como “John Stuart Mill, em seu A system of Logic (1843), conceituou emergência como o fato de um todo não necessariamente ter propriedades presentes em qualquer uma das partes” não revela o caráter complexo desse fenômeno.

O filósofo inglês percebeu que fenômenos naturais podem ser agrupados em dois tipos, de acordo com as leis que regem a confluência de causa e efeito:

Leis homopáticas: a soma das partes comunicam propriedades ao todo. É tipico da física e mecânica clássicas.  Stuart Mill deu o exemplo do veleiro. Se sabemos as propriedades (intensidade da força e direções) dos vetores (vento ao norte, corrente impulsionando para leste), teremos segurança em afirmar que a direção será para o nordeste.

Leis heteropáticas: a soma das partes não comunicam propriedades ao todo. É típico da química. As propriedades de uma partícula sub-atômica é diferente de uma molécula que é diferente de um isótopo. Um carvão e um diamente podem ter a mesma substância, mas são distintos. (Por essa razão, cloreto de sódio  — sal de cozinha — em pequenas doses é inócuo, mas o cloro é corrosivo e o sódio queima em contato com a pele).

Às leis heteropáticas, o filósofo e crítico literário George Henry Lewis (1817 –  1878) deu o nome de emergente. A partir daí as implicações na biologia, nas ciências sociais, na filosofia e na psicologia foram imensas.

No final do século XIX essa observação alimentou uma posição vitalista ou mentalista, meio caminho entre os dualistas proponentes de uma mente separada da matéria e os monistas naturalistas, defensores de um plano de realidade material único. A mente humana não seria uma mera reações químicas ou pulsos elétricos, mas um fenômeno além de suas bases fisiológicas. As ciências do espírito do pensador Wilhelm Dilthey passaram a ser levadas com maior consideração por terem métodos próprios em oposição às ciências naturais.

Na psicologia a Gestalt demonstrou que mesmo partes desconexas podem ser percebidas como dotadas de significados.

Nas artes o impressionismo e mais tarde a pop-art de Roy Lichtenstein retratam esses fenômenos de percepção.

E nas ciências sociais o conceito de emergência sustenta a ontologia e epistemologia desses estudos. Ao contrário do que dizia Margaret Thatcher (que como química conhecia efeitos emergentes muito bem), não existe só indivíduos, mas fenômenos sociais cujos comportamentos vão além das somas das ações isoladas.

O economista Veblen foi um dos primeiros a aplicar  de forma consistente o conceito de propriedade emergente nas ciências sociais. Conseguiu identificar como as instituições se comportam e funcionam sem lançar mão de explicações reducionistas.

Roy Lichtenstein

O pontilhismo de Roy Lichtenstein (1923 — 1997) revela um fenômeno emergente

Desde Aristóteles que o fenômeno da merologia — relação parte/todo — vem sendo analisado. Hegel, Marx, Engels deram também seus pitacos, mas somente com a economia e a biologia no século XX que o fenômeno passou a ser estudado com maior profundidade.

Ironicamente emergindo de forma independente (embora hajas as influências de Bergson dos conhecimentos da biologia do nascente século XX), o teólogo e paleontólogo Pierre Teilhard de Chardin propôs em seu O Fenômeno do Homem (1955) que a evolução das espécies daria lugar a uma identidade coletiva das ideias, emoções e tecnologia. Surgiria uma camada ou esfera da consciência, a noosfera. Soa um tanto quanto a internet, né?! Só que para Teilhard depois vem o apocalíptico Ponto Ômega…

Vale ainda contrastar emergência com superveniência. A superveniência seria a propriedade de duas ou mais entidades no nível macro não assumir identidade no nível micro constituinte, mas a identidade no nível micro garante a identidade no nível macro. Para ilustrar, se um programa de computador funciona (um ente macro) é porque depende da escrita em uma linguagem de programação (nível micro). Pode-se alterar a linguagem, trocar JavaScript, Python ou C Sharp uma pela outra, ter resultados semelhantes ou não. Contudo, qualquer programa para existir depende de suas partes, mas não há uma correspondência necessária com o nível micro e o macro, pois o programa finalizado possui diferenças qualitativamente radicais das linguagens que o fez.

Já a emergência pressupõe existência independente das partes, ou seja, não determinada por elas. Inclusive, a emergência pode agir por outras lógicas, como a autopoiesis. A cultura, sendo superorgânica para o antropólogo A. Kroeber, existiria e teria sua própria lógica separada de suas bases biológicas.

Para estudar um fenômeno emergente deve-se atentar para o nível de investigação e análise. Por essa razão, nas amostragens estatíticas aumentam sua confiança seguindo técnicas que compensem viéses ou limitações das amostras.

Voltado às analogias gastronômicas, chocolate é bom, pipoca é saborosa e cerveja vai bem. No entando, um shake desses ingredientes há de ter um gosto horrível.

SAIBA MAIS

ARCHER, Margaret S.. 2000. For Structure: its Reality, Properties and Powers: A Reply to Anthony King. The Sociological Review, 48(3), 464–472.

DAMÁSIO, António. O sentimento de si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, v. 5, 2000.

HODGSON, John Geoffrey. The Concept of Emergence in Social Science: Its History and Importance. Emergence: Complexity and Organization. 2000 Dec 31 [last modified: 2016 Nov 21]. Edition 1. 10.emerg/10.17357.b073f7de6ef72acaa3c366bc9b5e7e8d.

HOFSTADTER, Douglas R. Godel, Escher, Bach: um entrelaçamento de gênios brilhantes. Brasília: UnB, 2001.

SAWYER, R. Keith. Social Emergence: Societies as Complex Systems. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

STROGATZ, Steven H. Sync: How order emerges from chaos in the universe, nature, and daily life. Hachette UK, 2012. A tendência fantástica de coisas vivas ou não em se agruparem em ordem, com exemplos na biologia, matemática e física.

STUART MILL, John. A System of Logic. [Sistema de lógica dedutiva e indutiva ]. 1843.

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Subdeterminação na ciência: a tese Duhem-Quine

 

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