Althusser: ideias em poder

Louis Althusser (1918–1990), filósofo marxista francês cuja influência — e controvérsia — marcaram profundamente o pensamento do século XX, propunha resgatar o marxismo como uma ciência da história. Nesse projeto, expurgou as teorias sociais das leituras humanistas e hegelianas que, em sua visão, haviam desviado o legado de Marx na concepção científica da sociedade. Paradoxalmente, ao invés de reproduzir um penamento “cientifizado” de Marx, Althusser produziu uma análise sofisticada de como poder, ideologia e instituições garantem a reprodução das relações sociais nas sociedades capitalistas, propondo uma distinção rigorosa entre ciência e ideologia que seria central em sua leitura do “Marx maduro”.

O pensador

Nascido na Argélia em 1918, Althusser cresceu sob circunstâncias familiares traumáticas: sua mãe pretendia casar-se com seu tio — morto na Primeira Guerra Mundial — e Althusser foi, em certo sentido, visto como um “substituto” para o noivo perdido. Esse contexto emocional, somado à sua posterior luta contra a depressão maníaca (hoje reconhecida como transtorno bipolar), moldou profundamente sua trajetória intelectual e pessoal.

Durante a Segunda Guerra Mundial, foi capturado em 1940 e permaneceu cinco anos em um campo de prisioneiros de guerra alemão. Após a libertação, ingressou na École Normale Supérieure (ENS) em Paris, onde acabou tornando-se maître de conférences e permanecendo por toda sua carreira. Filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF) em 1948, adesão que manteve apesar de frequentes divergências teóricas e críticas contundentes à linha oficial do partido.

Entre o início dos anos 1960 e 1970, Althusser tornou-se uma figura de destaque na vida intelectual francesa. Seus seminários na ENS atraíam estudantes brilhantes — muitos deles futuros ícones da teoria crítica francesa. O “astro” da teoria marxista do período buscava restaurar a ciência “pura” de Marx, livre tanto das leituras humanistas quanto das deformações stalinistas. Defendia que apenas os escritos tardios, lidos de modo “sintomático”, poderiam revelar a nova ciência fundada por Marx.

Sua vida, porém, terminou em tragédia. Em 1980, durante um episódio psicótico, assassinou sua esposa e companheira de décadas, Hélène Rytman. Considerado inimputável, foi internado em um hospital psiquiátrico. Passou sua última década em reclusão, dedicando-se sobretudo à escrita autobiográfica, incluindo a marcante obra O Futuro Dura Muito Tempo, até sua morte em 1990.

O contexto intelectual

A obra althusseriana é inseparável das grandes convulsões políticas e intelectuais do pós-guerra. Ele se posicionou no cruzamento de quatro grandes crises ou movimentos:

1. A Crise do Marxismo (1950–1960)

Após o Discurso Secreto de Khruschov em 1956 revelar os crimes de Stálin, muitos marxistas ocidentais voltaram-se às obras juvenis de Marx, centradas na alienação e no humanismo. Althusser considerou esse movimento um equívoco fatal: para ele, tratava-se de abandonar a ciência descoberta por Marx em O Capital. Ele defendeu que o verdadeiro Marx rompeu com o humanismo em torno de 1845 — o famoso corte epistemológico — iniciando uma nova ciência: o materialismo histórico. A partir desse corte, a história deveria ser entendida não como expressão do sujeito, mas como processo sem sujeito, governado por estruturas e contradições.

2. A ascensão do estruturalismo

O ambiente intelectual francês era dominado por figuras como Lévi-Strauss e Lacan, que buscavam estruturas profundas por trás dos fenômenos sociais. Althusser, apesar de rejeitar o rótulo “estruturalista”, incorporou o método estrutural: analisar a problemática de um autor — o conjunto de questões que torna certas respostas possíveis e outras impossíveis. Essa noção, derivada da epistemologia francesa, permite compreender como a teoria é comandada por pressupostos invisíveis que definem seu campo de perguntas legítimas. Seu foco, porém, não era a estrutura em abstrato, mas a totalidade social marxista, complexa e sobredeterminada.

3. O desafio hegeliano e humanista

A influência de Hegel — que concebe a história como a realização do espírito humano — ainda dominava tanto o jovem Marx quanto autores contemporâneos, como Sartre. Althusser atacou essa tradição, insistindo que Marx havia rompido com o hegelianismo e fundado uma nova ciência. Daí sua tese: a história é um processo sem sujeito, movida por estruturas, não pela consciência humana. Sua defesa dessa ruptura também implicava rejeitar o humanismo teórico e político que via no sujeito o centro da análise histórica.

4. Maio de 1968

As revoltas estudantis de 1968 foram profundamente influenciadas por conceitos althusserianos, especialmente sua teoria da ideologia. Paradoxalmente, Althusser e o PCF viam o movimento como uma revolta pequeno-burguesa, e não como uma verdadeira revolução proletária.

O poder invisível

No centro do pensamento althusseriano está a defesa de que o marxismo é uma ciência, não uma filosofia moral. Sua teoria visa explicar como as sociedades capitalistas conseguem reproduzir as condições de sua própria existência.

1. Reproduzir as condições de produção: para que um sistema capitalista perdure, é preciso mais que produzir bens: deve-se reproduzir a força de trabalho e as relações sociais que tornam a produção possível.

2. Aparelhos repressivos e ideológicos de Estado. Althusser distingue dois tipos de aparelhos que garantem essa reprodução. Uns seriam os aparelhos repressivos de Estado (AREs) — polícia, exército, tribunais, prisões — que operam pela força. Já os aparelhos ideológicos de Estado (AIEs) — escola, família, igreja, mídia — operam por meio da ideologia. Os AREs coagem; os AIEs convencem. Essa análise deriva de sua concepção da sociedade como uma “estrutura de estruturas”, em que economia, política e ideologia são relativamente autônomas, mas mutuamente determinadas.

3. A ideologia e a interpelação. Sua contribuição mais famosa é a teoria da interpelação: a ideologia funciona “chamando” indivíduos, constituindo-os como sujeitos.Ao ouvir “Ei, você aí!”, o indivíduo que vira reconhece-se como o interpelado — e assim se reconhece como sujeito da lei. A ideologia, para Althusser, não é mera ilusão, mas a relação imaginária dos indivíduos com suas reais condições de existência.

4. Sobredeterminação. Inspirado em Freud, Althusser argumentou que nenhum evento histórico resulta de uma causa única. Toda conjuntura é um entrelaçamento de múltiplas contradições — econômicas, políticas, ideológicas. A história é sempre o resultado desta sobreposição de causas. Assim, nenhuma contradição é “pura”: toda crise histórica é múltipla e complexa.

5. Filosofia como luta de classes. A filosofia não é neutra. Para Althusser, ela é a luta de classes no campo da teoria — o terreno onde se decide qual concepção do mundo prevalecerá.

A ideologia

Althusser desenvolveu uma distinção fundamental entre ciência e ideologia, que para ele era essencial para compreender o verdadeiro alcance da obra madura de Marx. Segundo Althusser, Marx rompeu com o humanismo filosófico que marcava seus escritos juvenis e, em seus trabalhos posteriores, especialmente O Capital, fundou de fato uma nova ciência: a ciência da história, ou materialismo histórico. Essa ciência difere radicalmente da ideologia porque não se limita a fornecer explicações espontâneas ou intuitivas sobre o mundo social, mas opera com conceitos rigorosos capazes de revelar a estrutura real dos processos históricos.

Nesse sentido, Althusser redefiniu o próprio conceito de ideologia. Longe de entendê-la como uma simples ilusão ou como uma representação falsa da realidade, ele a concebia como a relação imaginária que os indivíduos estabelecem com suas reais condições de existência. A ideologia funciona, portanto, não por enganar, mas por oferecer um modo de relação simbólica e emocional com o mundo, de forma tão naturalizada que os sujeitos a vivenciam como algo espontâneo e inevitável. É assim que ela molda as identidades e papéis sociais, garantindo a estabilidade das relações de produção.

Para explicar como diferentes teorias se estruturam e quais tipos de perguntas podem responder, Althusser introduziu também o conceito de problemática (problématique). Cada teoria, segundo ele, está organizada em torno de um conjunto profundo de pressupostos e conceitos que definem o campo de questões que ela é capaz de formular — e, igualmente importante, aquilo que ela não pode sequer imaginar perguntar. A problemática, portanto, constitui o horizonte intelectual que comanda tanto as respostas quanto as próprias perguntas de uma teoria. Esse conceito permitiu a Althusser mostrar que a maturidade científica de Marx se ancorava numa problemática completamente distinta daquela que orientava seus escritos iniciais, motivo pelo qual defendia a existência de um corte epistemológico na formação do pensamento marxista.

Legado

A obra de Althusser forneceu um vocabulário novo para compreender o funcionamento do poder na vida social. Sua influência chega a correntes pós-estruturalistas, estudos culturais, teoria crítica, teoria política e análises contemporâneas da ideologia.

Mais que um intérprete de Marx, Althusser se tornou um dos arquitetos das teorias contemporâneas sobre como o poder se oculta, se reproduz e se torna natural aos olhos daqueles que ele molda. — embora continue sendo, entre os pensadores franceses da segunda metade do século XX, um dos autores mais difíceis de ler, justamente pela densidade conceitual e pelo hibridismo entre estruturalismo e marxismo que ele próprio ajudou a formular.

SAIBA MAIS

ALTHUSSER, Louis. Análise crítica da teoria marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado. 4. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

ALTHUSSER, Louis. Filosofia e filosofia espontanea dos cientistas. Lisboa: Editorial Presença; [Rio de Janeiro]: Martins Fontes, 1979.

ALTHUSSER, Louis. Freud e Lacan Marx e Freud. 3.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991.

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