O culto de Mitra e sua pesquisa acadêmica

Imagine um pesquisador do futuro tentando entender o cristianismo do século XX com base somente em:

  • Algumas alusões em textos judaicos;
  • Plantas baixas e ruínas de alguns prédios que foram igrejas;
  • Restos de altares e fragmentos de vitrais;
  • Poucas páginas de livros de batismos;
  • Cerca de 700 representações artísticas da crucificação.

Pois bem. É com uma limitada disponibilidade de evidências análoga que o investigador da religião de Mitra tem de lidar. [1] Algumas ruínas de mitreus (templos), alusões esparsas de autores clássicos, moedas, estátuas e nenhum texto narrativo ou explicativo dos próprios mitraístas constituem a base para entender um dos mais fascinantes cultos romanos.

Tão fascinante quanto essa religião que atingiu seu ápice em tempos coincidentes com o apogeu do Império Romano é seu estudo acadêmico. Há muitas especulações, muitas divagações espúrias, mas os estudos mitraicos são um exemplo de rigor metodológico adotado por estudiosos das ciências da religião e estudos clássicos.

Para conhecer mais sobre Mitra e o mitraismo, vale atentar-se como as investigações produziram inferências sobre essa religião.

tauroctonia

Mitra de Cabra (Mithras Tauroktonos). Encontrado em Córdoba, Espanha. Mármore.

Desvendando o mistério mitraico

Plutarco (Vita Pompeii 24) atribui a origem do culto de Mitra à importação de soldados romanos durante estada na Cilícia, na Anatólia. Também esse escritor romano (de Iside et Osiride 45-47) propõe uma interpretação de sincretismo da religião persa com o helenismo, sendo esse culto centrado na luta do Bem contra o Mal cosmológico e cotidiano. Essa teoria foi aceita quase sem reflexão crítica e expandida por comparativistas da religião e da mitologia no final do século XIX.

O problema da teoria reside na inconsistência dos diversos personagens chamados de Mithras, Mitra, Mioro e Mihr em diversas línguas indo-europeias. Mithra aparece nos escritos hititas de Mitani (Anatólia centro-oriental) no 2º Milênio a.C. como o guardião dos juramentos e contratos. Aliás, o nome da divindade é cognato ao termo pacto, além de servir de nome para uma dinastia de reis do Ponto, os Mitrídates. Já na Índia védica quem assume esse papel é Indra, com Mitra sendo o protetor da ordem, verdade e da amizade. Já na religião irânica aparece a tríade Ahura Mazda, Anahita e Mitra. A reforma zoroastriana consagra um hino do Avesta (Yasth 10) a essa manifestação divina (yazata) que assegura a asha (verdade e ordem, o princípio subjacente à realidade última). Para o maniqueísmo, Mitra seria o tertius legatus (um dos enviados do Bem) ou o Espírito da Vida. No ocidente romano, no entanto, é intimamente vinculado ao deus solar, tendo um caráter guerreiro.

Embora inspirada na figura de Mitra dos persas, não é uma importação oriental. Os rituais, os mitos, o espaço sagrado do mitraísmo é uma inovação romana. Da mesma forma que o Espiritismo Kardecista fala em um Deus criador, em Jesus Cristo, mas não é uma ramificação do catolicismo francês do século XIX, o mitraísmo nasceu com temas compartilhados com as religiões indo-iranianas, anatólicas e mesopotâmicas, mas se trata de um novo movimento religioso. Além do mais, não há magos, culto do fogo ou representação de Mitra como protetor dos contratos ou da asha, elementos essenciais da religião persa, zoroastriana ou não. Do mesmo modo, não há mitreus ou taractonias presentes no mundo persa e praticamente nada em ambientes culturais grego ou arameu, onde as evidências são encontradas em colônias romanas.

As evidências arqueológicas e literárias apontam o surgimento do culto de Mitras em Roma por volta do ano 80 d.C. Embora há alguns sinais isolados de vandalismo, não há praticamente sinais de destruição violenta, os lugares de culto do mitraísmo caíram em desuso e esquecimento a partir do século IV d.C. e sobreviveram – espetacularmente – por um milênio quando no Renascimento apareceu interesse pelo tema.

No Renascimento, o humanista italiano L. G. Giraldi em seu De deis gentium (1548) compilou as referências nos clássicos enquanto os antiquários Martin Smetius (c. 1525–1578) e Staphanus Pighius (1520–1604) compilaram as informações de epigramas e outros artefatos sobre o deus.

O fascínio do Orientalismo no século XIX reacenderia os estudos mitraicos. O erudito belga Franz Cumont (1868–1947) produziu uma obra monumental (1896, 1899) reunindo todas as informações disponíveis, mas suas interpretações imaginativas não corroboram com os dados. Para Cumont, os magos zoroastrianos incorporados ao mundo helênico e romano transmitiram o culto desde o Irã via Mesopotâmia e Anatólia até Roma. É também de Cumont as especulações acadêmicas que associaram o mitraísmo ao cristianismo.

Sabe daquela teoria da conspiração de que o cristianismo é uma versão plagiada do mitraísmo, um culto romano no qual o deus sol teria nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro, morreu sacrificado e ressuscitou? Pois é, essa teoria à la Zeitgeist e History Channel nada mais é que imaginação fértil sem evidências históricas.

Cumont “leu” os afrescos, arquitetura, epigrafia e baixos-relevos da seguinte forma. Mitra, portando uma tocha e um punhal, nasceu de uma rocha coberta de folhas. Quando um dilúvio e uma seca feroz assolaram a humanidade, Mitra fez jorrar água de um rochedo. Para garantir a vida, Mitra persegue e encurrala o touro cósmico em uma gruta, na qual o sacrifica. Do sangue nasce o trigo e do sêmen as plantas e os animais. Em suas aventuras, o deus era acompanhado por dois auxiliares, Cautes e Cautopates, que também vestem barretes frígios e, caracteristicamente, portam tochas: um com a tocha voltada para cima, outro para baixo. O Sol presta homenagem a Mitra e ambos se unem em um banquete, proporcionando a harmonia dos opostos e o balanço da vida. Mitra sobe aos céus em um carro de fogo e há de voltar para salvar seus aderentes.

Ainda fundado em especulações, na linha de pensamento de Cumont, o estudioso Salomon Reinach (1905) argumentava que o cristianismo era uma derivação do mitraísmo. Supostamente o mitraísmo tinha as práticas de se acender velas e tilintar sinos, cantar hinos, praticar uma refeição ritual de pão e vinho, cultuar um Deus-Pai supremo retratado como Leontocéfalo. Cada congregação ou mitreu seria presidida por um padre, repetiam rituais de confissão, batismo, observância do domingo e pregava um juízo final. Mas, essas são meras especulações.

Para o estudioso sueco Martin P. Nilsson (1929) o mitraísmo foi uma invenção totalmente independente de um romano anônimo que aproveitou elementos diversos. É uma teoria audaz, mas sem suficientes evidências, ainda que eruditos como Beck (2005) e Merkelbach (1994) a consideram plausível.

encouraged by the emperors, especially Commodus (180–192), Septimius Severus (193–211), and Caracalla (211–217). Most adherents of Mithra known to us from inscriptions are soldiers of both low and high rank, officials in the service of the emperor, imperial slaves, and freedmen (who quite often were very influential people)—persons who probably knew which god would lead them to quick promotion.

Mithraic sanctuaries and dedications to Mithra are numerous at Rome and Ostia, along the military frontier, in Britain, and on the Rhine, the Danube, and the Euphrates. Few dedications are found in peaceful provinces; when they do occur, the dedicator is usually a provincial governor or an imperial official. Within a few generations, the Roman world had completely assimilated the Persian god. When Diocletian attempted a renewal of the Roman state and religion, he did not forget Mithra. In 307 CE, in a dedication from Carnuntum (at the Danube, near Vienna), Diocletian and his colleagues dedicated an altar to Mithra as the patron of their empire (fautori imperii sui).

Ambientada em um contexto cultural romano, como outros cultos iniciáticos ou religiões de mistérios (Cibele, neo-pitagóricos, Isis, Attis), o mitraísmo providenciava uma atmosfera íntima e voluntária sem entrar em conflitos com a religião estatal romana. Essa harmonia era tanta que o culto do Sol Invictus no século III d.C. passou a ser associado a Mitra. Às vezes Mitra e o Sol Invictus são os mesmos deuses, mas em outras referências aparecem como seres distintos. Mais tarde, a partir do séc IV, alguns ramos do cristianismo ainda se apropriariam da data 25 de dezembro, o dia do Sol Invictus, para marcar o natal. Essa apropriação também foi material, pois algumas igrejas em Roma, como a de São Clemente e de Santa Prisca, foram construídas sobre mitreus. Ocupando o mesmo nicho de inovação religiosa, Tertuliano, Justino Mártir, Orígenes e Jerônimo viam nessa religião iniciática um competidor ao cristianismo.

Esses pontos comuns com o cristianismo fizeram com que nos séculos XVIII e XIX alguns autores argumentarem que essa relação seria de causalidade. Antecedendo a Cumont, mas amadores, polemistas e antiquários como Charles Francois Dupuis (1794), Godfrey Higgins (1836), Doane (1910) disseminaram ideias de que Mitra tinha tido doze discípulos, foi visitado por magos, clamava ser mediador entre Deus e os homens, instituiu uma refeição eucarística, foi crucificado, ressuscitou e prometeu retornar no juízo final. Consequentemente, o cristianismo seria uma derivação do mitraísmo. Entretanto, tais teses não foram baseadas em quaisquer fatos disponíveis.

A descoberta, escavação e mapeamento dos artefatos materiais, desde moedas até os mithraeum ou mitreus, no século XX permitiram construir uma visão mais crítica.

O mitreu, o local sagrado, consistia em uma construção híbrida de casa e caverna, cheia de conotações e simbolismos. Eram espaços pequenos, íntimos, em média com 10 metros de comprimento. Os mitreus imitavam grutas e nas laterais haviam motivos que representavam versões do zodíaco enquanto na parede central dominava a cena da execução do touro, a tauroctonia. Tipicamente, essa cena onipresente em mitreus, grafiti, estátuas e moedas retrata Mitra como um jovem com um capuz frígio, com a cabeça levemente voltada para trás, ajoelhado sobre o touro no qual crava um punhal no pescoço. A precisão das posições desses dois personagens levou a diversos autores a enxergarem na tauroctonia um mapa astral (Beck 2005, Speidel 1980, Ulansey 1991).

Entre 1930 e 2017 cerca de 60 mitreus foram descritos por arqueólogos, sendo o mais novo descoberto em Mariana, Córsega. Tais centros são encontrados no território que correspondia a extensão do Império Romano: de Duras-Europos na Mesopotâmia até as províncias frias da Germânia romana, mas com concentrações nos arredores de Roma, Numídia, Balcãs e na bacia do Reno e do Danúbio. Enquanto os locais permanentes de culto cristãos floresceram a partir do século IV d.C. no mundo romano, os mitreus já eram locais sagrados desde o século II d.C. O nome mitreu é moderno. As inscrições indicam que na península italiana eram chamados de spelaeum (caverna) e localizavam-se frequentemente em prédios públicos enquanto fora dela eram chamados de templum. Apesar dos retratos e testemunhos clássicos, não há indícios que a taurobolia, ou o sacrifício de touro, tenha sido um ritual praticado nos mitreus.

Conforme os testemunhos arqueológicos, os fiéis do mitraísmo – divididos em sete graus, (corvo, ninfo, soldado, leão, persa, mensageiro do Sol e o patriarca) – eram iniciados nus, ajoelhados, com punhos atados e com vendas nos olhos. Os mitreus era o local onde realizavam um banquete com pão e vinho. Essa refeição era comparável com o Simpósio de Platão, o seder judaico, a cena de Trimalquião no Satyricon de Petrônio. Todavia, pela disposição das mesas o banquete mitraico seria mais semelhante ao ágape que à eucaristia cristã.

Nos anos 1970, com base na monumental compilação das evidências realizadas pelo sucessor intelectual de Cumont, Martin Vermaseren, surgiu um grupo de estudos mitraicos que organizou conferências em Manchester (1971), Teerã (1975) e Roma (1978). Um Journal of Mithraic Studies teve três volumes entre 1976 e 1980. Nessa fase, as teses de Cumont foram rejeitadas, embora o trabalho desse acadêmico como compilador e catalogador passou a ser tido como autoridade. Desde então, o assunto se exauriu. A pouca produção de teses e dissertações e um círculo muito restrito de estudiosos limitaram os estudos mitraicos até os meados da década de 2000, quando a internet e novas descobertas arqueológicas injetaram novos ares a esse campo de estudo.

A complexidade para esses estudiosos da religião em interpretar os escassos dados do mitraísmo revela o quanto trabalhoso é o trabalho de um cientista da religião. Beck (2005) construiu um complexo argumento para relacionar a figura da tauroctonia de Mitra com um mapa astral. Segundo ele, os dois axiomas do mitraísmo (1-Deus Sol Invictus Mitras; 2-A harmonia das tensões em oposições) presentes em motivos nas artes; nos domínios de história sagrada, mundo imanente, cosmos, destino das almas; organizados nas estruturas do ícone físico da tauroctonia, na arquitetura dos mitreus e nos sete graus iniciáticos; expressos em quatro modos: ações rituais, percepção de significados na iconografia, transmissão de palavras (logia, explicações, ensinos) e comportamento ético refletiam em um idioma que poderia ser resumido em um discurso estelar ou astral. (Ufa!). É um argumento bem diferente das teses do tipo “X possui correlação positiva com Y.”

O que sabemos sobre o mitraismo

Qualquer assertiva sobre o mitraísmo deve lidar com dois problemas. O primeiro, já mencionado, é a falta de narrativas ou explanações dos próprios mitraístas. Outro problema é se houve unidade através do espaço e tempo. As inferências a partir de dados difusos geralmente assume esse pressuposto, mas a fusão de Mitra com o Sol Invictus não é universal. Em alguns casos, aparece como dois deuses distintos. Há também confusão com outros mitos e deuses, como Júpiter, Apolo e Attis. Com esses problemas em mente, dá-se para inferir algumas coisas sobre esse culto iniciático.

  • Os artefatos e registros materiais negam que a o mitraísmo seria uma derivação do Mitra das religiões indo-arianas dos persas e povos do Oriente Médio.
  • A arqueologia desaprova a tese que o mitraísmo era uma religião de soldados. Antes, era uma fraternidade masculina, com apelo às classes médias urbanas (comerciantes, fazendeiros, funcionários públicos, inclusive de oficiais militares) com grande distribuição pelo interior do Império.
  • O mitraísmo compartilhou com o cristianismo sua época de emergência na Roma Imperial, seu caráter reservado de seus rituais (mas não secretos), a transcendência geográfica e étnica, o uso de refeições rituais comuns nos eventos sociais greco-romanos. Fora esse contexto comum, os paralelismos atribuídos entre as duas religiões são especulações sem bases.
  • Apesar da falta de dados, indubitavelmente sobre o mitraísmo podemos inferir três aspectos fundamentais:
  1. Havia a importância conceitual do “Deus sol invictus Mithras”;
  2. Centralidade da tauroctonia como símbolo.
  3. Caráter íntimo, liminar, dos rituais realizados no mitreus, fazendo-a uma religião privada, iniciática e hierárquica.

 

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SAIBA MAIS

BECK, Roger L., and Richard L. Gordon. Mysteries of the Unconquered Sun: The Cult of Mithras in the Roman Empire. Oxford, 2005.

BIVAR, A. D. H. The Personalities of Mithra in Archaeology and Literature. New York, 1998.

BOYCE, Mary. “On Mithra’s Part in Zoroastrianism.” Bulletin of the School of Oriental and African Studies 32 (1969): 10–34.

CLAUSS, Manfred. The Roman Cult of Mithras: The God and His Mysteries. Edinburgh, 2000. [Mithras: Kult und Mysterien, 1990].

CUMONT, Franz. Textes et monuments relatifs aux Mystères de Mithra. Brussels, 1896–1899.

DOANE, T.W. Bible Myths and their Parallels in other Religions. 7th ed., 1910.

DUMÉZIL, Georges. Les dieux souverains des Indo-Européens. Paris,1977.

DUPUIS, Charles Francois. Origene (de tous les cultes). 1794.

Google Maps: Map of the locations of Mithraea

HIGGINS, Godfrey. Anacalypsis. 1836.

MARTENS, Marleen; DE BOE, Guy (org.) Roman Mithraism: The Evidence of the Small Finds. Archeologie in Vlanderen, Monogr. 5. Brussels, 2004.

MERKELBACH, Reinhold. Mithras: ein persisch-römischer Mysterienkult, 1994.

NILSSON, Martin Nils Persson. Den grekiska religionens historia. Norstedt: Stockholm, 1921.

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PEARSE, Roger. Mithras. http://www.tertullian.org/rpearse/mithras/display.php?page=main

SPEIDEL, Michael P. Mithras-Orion: Greek Hero and Roman Army God. Leiden: Brill, 1980.

TURCAN, Robert. Mithra et le mithriacisme. Paris, 2000 [1981].

ULANSEY, David. The Origins of the Mithraic Mysteries: Cosmology and Salvation in the Ancient World. New York and Oxford, 1991 [1989]. *Ler com cautela.

VERMASEREN, Maarten J. Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae, 2 vols. Haia, 1956–1960.

NOTAS

[1] A analogia é de A.D.Nock. Early Gentile Christianity and its Hellenistic Background. New York: Harper and Row, 1964 [1928].

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