Zoroastrismo: o louvor ao Bem

Bons pensamentos, boas palavras e boas ações.

O zoroastrismo é uma das mais antigas religiões organizadas e, certamente, a mais antiga das religiões fundamentadas na crença de um deus supremo.

Concebendo a realidade como um constante enfrentamento entre o Bem — representado por Ahura Mazda — e o Mal — Arimã–, o zoroastrianismo prescreve uma vida ética: bons pensamentos, boas palavras e boas ações.

Desejosos de estarem no lado do Deus supremo digno do máximo louvor, Ahura Mazda, nessa batalha, os zoroastrianos buscam o bem mediante o esforço pela manutenção da vida e no aborrecimento do mal. Por efeito, há o ideal de viver em uma pureza ritual e em um comportamento ético, integrando as boas ações em benefício do bem.

Esse culto monoteísta ético resulta das pregações de Zoroastro ou Zarathustra ocorridas no I milênio a.C. entre povos irânicos. Os cerca de 300 mil seguidores modernos de Zoroastro — metade deles vivendo na Índia — acreditam que os bons pensamentos, palavras e ações realizadas pelo livre arbítrio das pessoas, reproduzem a batalha cósmica entre o Bem e o Mal. Essas escolhas afetarão o destino individual no mundo vindouro, conforme dita seus textos sagrados, o Avesta.

Essa religião compartilha de elementos de cosmologia das religiões do Ocidente e do Oriente. E com elas houve uma influência recíproca. Ainda assim, retém práticas peculiares, como o uso cerimonial do fogo como símbolo da pureza divina ou a disposição dos defuntos nas “torres do silêncio”.

Vários conceitos zoroastrianos são correntes nas religiões abraâmica, como a crença em um domínio espiritual povoado por anjos e demônios, a oposição entre o bem e o mal, vinda do Saoshyant, um messias, o fim do tempo presente culminando em um juízo final, no qual as almas ressurretas serão destinadas ou ao paraíso ou ao tormento eterno. Crenças que —    sem contar a narrativa de “mocinhos” versus “vilões” que permeia toda a cultura popular — estão enraizadas na visão de mundo ocidental. Apesar disso, a religião permanece virtualmente desconhecida no ocidente.

Após essa breve introdução, a quem quiser se aprofundar nos aspectos históricos, conceituais, sociais e organizacionais do zoroastrismo –bem como sua relação com as religiões abraâmicas — seguem essas notas.


 

faravahar 2

DESIGNAÇÃO

Apelidada de “boa religião” ou behdin, é conhecida também de zoroastrianismo, mazdaísmo,  mazdaianismo, masdeismo e outras variações que remetem ao culto de Ahura Mazda. As designações etnorreligiosas de pársi ou parsismo na Índia e de gabar no Irã também são empregadas. No entanto, a designação zoroastrismo é a mais conhecida.

Os antigos gregos e romanos atribuíam aos sacerdotes zoroastrianos (e por extensão, toda a religião) o nome de magos, a raiz etimológica para nossas palavras mágica, meigo e mago. Nessa forma, o termo al-Majul é citado no Alcorão 22:17 como sendo um dos povos “dos livros”, religiões monoteístas pré-islâmicas. Mas as alusões aos “magos” não devem ser relacionadas aos zoroastrianos sem um exame crítico, pois o uso do apelativo na antiguidade e no medievo se confundia também com os astrólogos e com as religiões da mesopotâmia.

HISTÓRIA E SOCIEDADE

Fontes e região de origem

Na Antiguidade a região cultural dos povos irânicos do II milênio a.C. em diante compreendia o moderno Irã, Afeganistão, Cáucaso, Ásia Central e áreas adjacentes aos mares Negro e Cáspio. Habitado por povos indo-europeus de economias diversas (horticultores sedentários e pastoralistas nômades), não desenvolveram o uso da escrita ao mesmo tempo que seus vizinhos, as civilizações mesopotâmicas e do vale do rio Indo, assim sendo, as fontes sobre a origem e desenvolvimento iniciais do zoroastrismo são escassas.

Uma das principais fontes é uma coleção de textos litúrgico, o Avesta, transmitido provavelmente por tradição oral na língua avesta até atingir uma forma canônica escrita em persa médio ou pahlavi, no século VI d.C. Comentários (zand), resumos e notas (denkard e bundashin) sobre o Avesta, lendas pias e práticas complementam o corpus zoroastriano. Contudo, essas fontes extensas são tardias, mais próximo da época de Zoroastro somente restaram registros arqueológicos, inscrições e monumentos da era aquemênida, além de referências de escritores não irânicos, principalmente gregos, romanos, siríacos e bizantinos — os quais contém um viés anti-persa.

Religião irânica antes de Zoroastro – 2º milênio a.C.

Povos pastoralistas indo-irânicos ou arya migram da Ásia Central para o norte da Índia, planalto iraniano e oeste da Anatólia. Socialmente, estavam divididos entre castas de guerreiros-pastores e de sacerdotes. A matriz religiosa (inferida a partir de dados arqueológicos, monumentos persas, crenças populares, religiões de Mitani e da Índia, dados etnográficos e na comparação dos Vedas e do Avesta) desse povo pressupunha:

  • A existência de uma força universal do Bem e da Verdade (rta em sânscrito e asha no Avesta),
  • Panteão politeísta cujos deuses guerreiros Mitra, Vayu, Twashtar, Varuna, Indra e os gêmeos Nasatyas ocupavam um espaço dominante.
  • *daywas ou daeva (cognato de divinos e deuses) uma classe de divindades ou espíritos que seria malévola para os iranianos, mas benéfica para os indianos, vivia em conflito contra os asura, o conjunto de espíritos maléficos que atuavam nos poderes ocultos.
  • *hasuras, asura, outra classe de divindades ou espíritos, inversamente benéfica para os iranianos e malévola para os indianos.
  • O chefe do panteão estava Ahura Mazda — suas manifestações abstratas os “anjos” Amasha Spantas — e suas esposas, especialmente Spanta Armaiti, auxiliados pela deusa Anahita.
  • Outros deuses eram *Yamas, deus solar, *Bhaga, deus da riqueza, *Mitra, deus dos juramentos e da ordem.
  • Ritualmente, era composta de culto do fogo, sacrifício de animais, consumo de uma bebida intoxicante (soma/haoma).
  • Os rituais eram realizados por uma casta hereditária de sacerdotes treinados nas complicadas liturgias.
  • O ser humano possuía um número de espíritos orientados por uma alma individual e protegidos por um espírito guardião, além de um duplo.
  • Após a morte, a alma atravessava a ponte Tchinwad, vigiada por cachorros. A ponte se estreitava até o ponto de se tornar uma lâmina a qual as almas dos ímpios não resistiam, sendo partidos e lançados ao abismo. Os puros chegam aos céus, sendo saudados por espíritos femininos.
  • O universo era concebido em três níveis: a terra, a atmosfera e os céus. Sete continentes concêntricos existiriam na terra, com o monte Alborz no centro servindo de eixo do mundo. Os céus estavam contidos em um firmamento, enquanto a terra flutuava sobre os oceanos do caos.
  • O mundo passou por três ou quatro eras, cada uma durando um milênio e terminando em cataclismo.

Muitas dessas crenças foram absorvidas pelas pregações de Zoroastro. De certa forma, suas profecias foram uma reforma religiosa do antigo culto indo-ariano.

Zoroastro

Pouco se sabe sobre ele. Nem quando ou onde viveu. Os detalhes de sua missão religiosa também estão envoltos em lendas, a maioria hagiografias desenvolvidas após a conquista muçulmana do Irã. Seu nome em persa moderno é Zartosht, sendo a forma antiga Zarathushtra. Zoroastro é a forma helenizada.

As evidências linguísticas do Avesta, se consideramos os Gathas como composição de Zoroastro, indicam que era da região ao sul do Mar de Aral. A dinâmica da propagação do zoroastriansmo, lenta e progressiva até sua adoção pelos aquemênidas, indica ser viável cronologicamente dizer que viveu no século VI a.C.

Nascido em uma família pastoralista da casta sacerdotal (zaotar), teria tido uma revelação para concentrar-se no culto de Ahura Mazda e combater a Mentira (Druj) contra a Verdade (Asha). Por dez anos pregou suas ideias sem sucesso, a não ser um prosélito, até que um chefe trial (kavi) chamado Vishtaspa converteu-se e promoveu sua doutrina. Viveu até os setenta e sete anos.

Essa figura misteriosa inspirou o personagem de Nietzsche em Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, cujos aforismos não representam a visão de mundo da religião persa.

1200 a.C.- 600 a.C.

Épocas plausíveis para a vida de Zoroastro, com base em evidências internas do Avesta. Se considerarmos como válida a tradição sassânida de que Alexandre, o Grande, conquistou o Império Aquemênida 258 anos antes do nascimento de Zoroastro, seria possível datar sua vida entre c.628 e c.551 a.C.

Zoroastro teria vivido em algum lugar no noroeste do Irã, na região entre o sul do Mar de Aral, Uzbequistão, Turcomenistão e oeste do Afeganistão. Hoje é tido como lenda de que era membro de um clã dos magos entre os medos do noroeste do Irã. O rei Vishtapas (provavelmente um chefe tribal) converte à mensagem de Zoroastro e lentamente a doutrina ganha adeptos no planalto iraniano.

600-330 a.C. Período Aquemênida

O surgimento do estado da Média, em reação ao expansionismo assírio, a marca a transição da sociedade tribal para a sociedade de estado. Ao sul da Média, os persas fundam o Império Aquemênida que, eventualmente, unificaria os povos irânicos, conquistaria a Mesopotâmia e o Levante e fariam investidas na Grécia.

É difícil avaliar a extensão da influência zoroastriana nos dirigentes do Império Aquemênida, mas os testemunhos dos autores gregos e dos vestígios arqueológicos permitem inferir que a religião era dominante. A partir de Dário I (522–486 a.C.), os xás da Pérsia incluíam em seus títulos o epíteto de adorador de Ahura Mazda.

Na necrópole real de Naqsh-e Rustam, há o edito de Dário, o Grande: “Pela graça de Ahura Mazda, sou assim: amigo daquilo que seja certo, inimigo daquilo que seja errado. Não é meu desejo que o fraco seja tratado erroneamente pelo forte, nem que o forte seja tratado erroneamente pelo fraco; aquilo que é certo, isso é meu desejo.”

Nessa época propagou-se o símbolo zoroastriano do faravahar – um círculo alado com uma figura humana, representado a alma, a imortalidade, a ética, o bem e o mal. Todavia, não há menções da pessoa de Zoroastro nos monumentos persas desse período (nem em Heródoto, um dos primeiros estrangeiros a notar a religião sem ídolos dos persas).

As políticas de Dário I e Ciro II resultaram em um império multiétnico, com a adoção da escrita cuneiforme e do aramaico como língua franca. Era também um estado multi-religioso e tolerante. Entre os persas aparentemente não havia competição entre os cultos do panteão politeísta – Mitra e Anaíta – e o culto monoteísta de Ahura Mazda. Aliás, o zoroastrismo aquemênida é mais antropomorfo e henoteísta que o estrito monoteísmo ético contido nos Gathas. Nessa época, teria tido o possível contato entre hebreus e persas zoroastrianos na Mesopotâmia e na Pérsia, com Esdras, Neemias, Zorobabel enviados à Jerusalém com apoio dos xás persas. Remontam dessa época os livros de Daniel, Ester, Ageu, Zacarias, Malaquias e Tobias na Bíblia.

330 a.C – 224 d.C. Dinastias selêucida e arsácida

Em 330 Alexandre, o Grande, derrota o Império Persa e manda queimar e destruir Persépolis. Os registros zoroastrianos e grande porção do Avesta, escrito em couro de vaca, teria sido perdido nesse evento. Sendo uma cultura eminentemente oral que tinha adotado a escrita cuneiforme – demasiadamente complicada para os pastoralistas indo-europeus irânicos – os preceitos religiosos zoroastrianos seriam transmitidos por hinos litúrgicos e rituais até os meados do século IX d.C.

Os sucessores gregos de Alexandre, os selêucidas e os arsácidas não atribuíram tanta importância à religião zoroastriana, então associada ao império persa. Todavia, no século I aparecem moedas com designações sincréticas helenistas como Zeus Oromazdes, Apollo Mithra, Helios Hermes e Artagnes Herakles Ares. Autores gregos e latinos (Heródoto História 1.131-2; Estrabão Geografia 15.3.13-15; Dião Cássio Oração 36.40; Plínio, o Velho História Natural 30.2.3) começaram a esboçar a biografia de Zoroastro, retratando-o envolto em lendas e exoticismos como profeta, filósofo, mágico e astrólogo. Vem desse período a representação errônea que os zoroastrianos seriam adoradores do fogo ou do sol.

Nesse período teria começado a personificação do bem e do mal. Aristóteles em seu livro perdido Sobre a Filosofia teria dito que na religião dos magos há dois espíritos chefes, um bom, Zeus ou Oromasdes, e um espírito maligno, Hades ou Arimanus (Diógenes Laércio, 1.8).

A eventual crise da dinastia selêucida por volta de 240 a.C. levou à consolidação de vários estados, como o Império Parta, o Reino da Armênia e o Reino Greco-Báctrio, onde o zoroastrismo voltou a ganhar força. Entre os armênios o zoroastrismo foi assimilado, existindo a comunidade arewordik até o genocídio no início do século XX.

Império Sassânida   224 d.C.–651 d.C.

O império Sassânida foi um reavivamento nacional dos persas. Existiu em tempos de competição com o império romano (e bizantino). Nesse reavivamento, o zoroastrismo assume um papel de religião de estado, em detrimento de outras religiões que pululavam entre os persas, como o mitraísmo, gnosticismo e, o radicalmente dualista e inspirado no zoroastrismo, o maniqueísmo.

No reinado de Artaxes I Pabaco (ca. 224-240 d.C.), fundador da dinastia sassânida, houve a uniformização doutrinária e ritual, a construção sistemática de templos do fogo e a hegemonia de uma variante do zoroastrismo com o status de oficialidade, o zurvanismo.  No zurvanismo (e curiosamente ausente no Avesta compilado nesse período), Ohrmazd (Ahura Mazda) e Ahriman (Angra Mainyu) são retratados como dois gêmeos, filhos de Zurvan – o espaço/tempo – engajados em constante batalha. As crenças no destino e no equilíbrio de forças entre Ohrmazd e Ahriman contrastavam com a prévia ênfase no livre-arbítrio e na onipotência de um Ahura Mazda não antropomorfo.

Dois líderes religiosos tomaram frente a essa reforma. Tansar foi o executor das políticas religiosas de Artaxes I e empregou a escrita avestana, um alfabeto derivado da escrita aramaica, para dar início da canonização dos textos do Avesta e sua divisão em nasks (capítulos). Outro líder foi Karter ou Kirder, sacerdote que sobreviveu a vários reis e estabeleceu uma burocracia religiosa. Kirder moveu perseguições contra outros cultos de extração zoroastriana (zandik), judeus, cristãos, nasoreus (judeu-cristãos?), maktaks (religião desconhecida hoje), maniqueístas, budistas e hindus.

A divisão complexa dos rituais e da administração religiosa foi possível pela formação de uma hierarquia de diferentes ordens religiosas. As diferentes classes sacerdotais eram lideradas por sumo sacerdotes – mobadan mobad, herbadan herbad, magupatan magupat– treinados nas herbedestans, escolas religiosas.  Nesse período surgiram a Escola de Nisibis, a Biblioteca Sarouyeh em Isfahan, a Escola de Reishahr e a Academia Gundishapur, centro de estudos de matemática, medicina e religião, bem como trocas de conhecimento grego e indiano. Dessa forma, a continuidade do ensino superior não foi obliterada como no Ocidente.

Na busca pela ortodoxia e oficialidade zoroastriana, consolidou uma divisão rígida de casta (peshag), reservando rituais para as famílias sacerdotais e papéis com maior importância para os nobres. Em reação surgiu um movimento popular, tido como herético, o mazdaquismo, que liderado pelo sacerdote zoroastriano Masdaces visava uma isonomia social e religiosa, além da redistribuição igualitária da propriedade dos bens. O movimento ganhou até a simpatia do xá Cavades e por um período insurgente controlou boa parte do Irã. Todavia, Masdaces seria morto por Cosroes I, filho de Cavades, em um banquete em 528 d.C., reprimindo violentamente o mazdaquismo.

O zoroastrismo pós-islâmico 650 d.c.—1500

No ano 635 d.C. os persas são derrotados pelos árabes muçulmanos e o último monarca sassânida Yazdagird III é morto em 651. A teologia oficial que ligava o zurvanismo ao trono não fez mais sentido para os persas. Sem apoio oficial para a hierarquia religiosa, o zoroastrismo voltou a ser descentralizado. Entretanto, houve uma progressiva conversão em massa dos povos do Irã à fé islâmica, relegando os zoroastrianos ao status de dhimmi, minoria religiosa tolerada, geograficamente restrita às áreas de Yazd e Kerman no leste do país.

A parte de uma breve citação dos magos no Alcorão e dos feitos de Salman, o Persa – um companheiro de Maomé –  pouco a tradição muçulmana menciona o zoroastrismo.  Assim, surgiram várias lendas criando detalhes sobre a vida de Zoroastro, retratando-o como um profeta na tradição abraâmica e como predecessor de Maomé. Desse contato houve uma convergência entre outras doutrinas, principalmente um monoteísmo estrito, o juízo final, os anjos, bem como de práticas, como as cinco orações diárias.

Durante o século IX e início do X houve um florescimento da produção intelectual zoroastriana. Como as antigas escolas herbedestans se converteram em nizamias e madrassas para uso muçulmanos, líderes zoroastrianos começaram a compilar enciclopédias, tratados e hagiografias para preservar o conhecimento costumeiro de sua religião.

Entre o período da dominação mongol (1219-1256) e dos timúridas (1370-1507), a situação dos zoroastrianos piorou. Confinados em enclaves, pagavam o imposto jezed, eram obrigados a portar diferentes roupas, e como pessoa possuíam menor peso perante a lei.

A alternativa à discriminação era imigrar. Seguindo a rota da seda, uma comunidade zoroastriana foi estabelecida na China, na qual existiu até o século XIV. A Índia passou a receber ondas migratórias de zoroastrianos, especialmente no século XI, estabelecendo-se em Gujarate, onde formaram a comunidade parsi.

Império Safávida 1501–1736 e início da modernidade (1736-1925)

O xiismo consolidou-se durante o período safávida, época que houve uma restauração do estado irânico à sua influência e poder semelhante ao período sassânida. Com a adoção de uma forma do islã como oficial e ortodoxa para o Estado, intensificou-se a pressão para os zoroastrianos abandonarem sua religião. Templos foram transformados em mesquitas, os altares do fogo escondidos, ocorriam execuções das lideranças e conversões forçadas.

Na confusão após a queda dos safávidas, houve alternância entre períodos de tolerância (durante a dinastia Zand) e perseguição (dinastia Qajar). Um viajante em 1865 relata que o zoroastrianos eram obrigados a usarem roupas ou identificadores amarelos, não podiam usar sombrinhas ou óculos, nem montar em animais na presença de muçulmanos e eram obrigados a morarem em casas com teto baixos, com pouca ventilação e grande calor. Um herdeiro que se convertesse ao islã se tornava o único a receber a herança se os outros herdeiros fossem zoroastrianos. Houve outra leva de refugiados para a Índia, sendo chamados de irani, em distinção dos parsis. Também nessa época, os parsis indianos começaram a articular com os ingleses pelos direitos de seus correligionários iranianos.

Século XX: Reinado Pahlavi (1925–1979) e a Revolução islâmica de 1979

A dinastia Pahlavi concedeu igualdade jurídica aos zoroastrianos. Com o apoio material dos parsi, a comunidade no Irã teve uma pequena ascensão social nas grandes cidades e as condições nas aldeias no oeste do país também melhoraram. Porém, com a Revolução de 1979, ainda que constitucionalmente protegidos e com direito a um assento na Assembleia Nacional, os zoroastrianos passaram a sofrer novamente discriminações. Atualmente, há templos do fogo em Tehran, Yazd, Kerman e Isfahan. Em 2012, o censo feito pela Federation of Zoroastrian Associations of North America (FEZANA) estimou que havia 15 mil zoroastrianos no Irã, embora haja estimativas que a comunidade possa chegar a 50 mil, visto que muitos mantêm uma discrição ou ocultam sua filiação religiosa.

Houve também o renascimento das comunidades pós-soviéticas no Uzbequistão, Tadjiquistão e Azerbaijão, além de novas comunidades formadas pela diáspora iraniana nos países do Golfo Pérsico, América do Norte, Suécia e Alemanha.

A diáspora zoroastriana levou à formação de comunidades em vários países. Um notável membro da religião foi Freddie Mercury. O vocalista do Queens nasceu em uma família parsi do Zanzibar. No Brasil, há uma Comunidade Asha in Goiânia, formada nos anos 2000, com ligações com os zoroastrianos reformistas da Califórnia.

Zoroastrianos no Subcontinente Indiano: Os parsis

A presença dos zoroastrianos no subcontinente indiano remonta de contatos comerciais desde o século V d.C. Chamados de “persas” – parsee ou parsi –  a comunidade teve o ápice imigratório no século X, em fuga às perseguições no Irã. Na Índia algumas práticas religiosas foram modificadas, como o fim de sacrifício de animais. Inicialmente eram agricultores no Gujarat onde eram vistos como uma casta dentro do sistema hindu. No regime de casta, passaram a ser uma religião étnica na qual o único caminho de integrar-se à comunidade seria pelo nascimento.

Durante o Raj, adotaram costumes, educação e trajes britânicos e se tornaram prósperos mercadores e provedores de serviços na região portuária de Bombaim durante o domínio britânico. Diante do confronto doutrinário com missionários cristãos e do escrutínio filológico de suas escrituras por eruditos ocidentais, os parsis passaram por uma reforma que fragmentou a comunidade por questões a respeito do papel das mulheres, calendários, rituais, conversão, interpretação racionalista ou mística das escrituras e doutrinas. Hoje, entre 60-150 mil zoroastrianos parsi e irani vivem na Índia.

ENSINOS E PRÁTICAS COMUNITÁRIAS

O avesta

O livro sagrado do zoroastrismo é uma compilação de hinos, mas que somente uma parte sobreviveu, cerca de 1/4 do original. Estão divididos em cinco partes:

  1. Yasna: contém explicações em 72 capítulos de como conduzir os rituais. Contém o Gatha, a parte do Avesta, que se acredita ser o trabalho do próprio Zoroastro, com meditações, sermões e exortações em uma linguagem arcaica. O Yasna 12 é o principal sumário de crenças do zoroastrismo.
  2. Visprat: é um conjunto de invocações aos seres espirituais.
  3. Vendidad: fórmulas complexas para manter a pureza e rituais exclusivos dos sacerdotes. Contém os Yashat, hinos dedicados às 21 manifestações do Divino.
  4. Khorda Avesta: um livro usado principalmente pelos leigos, com orações e fórmulas de bênçãos.
  5. Fragmentos

YASNA 12 – o Credo Zoroastriano

1. Amaldiçoo os daevas. Declaro-me um adorador de Mazda, um seguidor de Zaratustra, hostil aos daevas, afeiçoado aos ensinamentos de Ahura, um precursor do Amesha Spentas, um adorador do Amesha Spentas. Atribuo todo o bem a Ahura Mazda, o sumo bem, dotado de Asha, esplêndido, dotado de Glória, de quem é o gado, de quem é Asha, de quem é a luz, “cujas áreas abençoadas possam estar cheias de luz”.
2. Escolho a boa Spenta Armaiti para mim. Deixo-a ser minha. Renuncio ao roubo e ao roubo do gado e ao dano e pilhagem dos assentamentos dos mazdeus.
3. Desejo a liberdade de movimento e a liberdade de moradia para aqueles que possuem propriedades, para aqueles que habitam nesta terra com seu gado. Com reverência por Asha, e (oferendas) oferecidas, eu juro que nunca mais danificarei ou saquear os assentamentos mazdeus, mesmo que eu tenha que arriscar a vida e meus membros.
4. Rejeito a autoridade dos daevas, o maligno, o ruim, o que não tem lei, o ignorante, o mais terrível dos seres, o mais sujo dos seres, o mais prejudicial dos seres. Eu rejeito os daevas e seus companheiros, eu rejeito os demônios (yatu) e seus companheiros. Rejeito qualquer um ser que prejudique. Eu os rejeito com meus pensamentos, palavras e ações. Eu os rejeito publicamente. Mesmo quando eu rejeito as autoridades, também rejeito os seguidores hostis do druj.
5. Como Ahura Mazda ensinou Zaratustra em todas as discussões, em todas as reuniões, nas quais Mazda e Zaratustra conversaram;
6. Como Ahura Mazda ensinou Zaratustra em todas as discussões, em todas as reuniões, nas quais Mazda e Zaratustra conversaram — mesmo quando Zaratustra rejeitou a autoridade dos daevas, também eu rejeito, como adorador de Mazda e partidário de Zaratustra, a autoridade dos daevas, assim como ele, o Zaratustra dotado de Asha, os rejeitou.
7. Como a crença das águas, a crença das plantas, a crença da vaca primeva perfeita; como a crença de Ahura Mazda que criou a vaca e o homem dotado de Asha; como a crença de Zaratustra, a crença de Kavi Vishtaspa, a crença de Frashaostra e Jamaspa; como a crença de cada um dos Saoshyants — cumprindo o destino e de dotada de Asha — então sou um adorador Mazda, desta crença e ensino.
8. Professo ser um adorador de Mazda, um zoroastriano, tendo jurado e professado isso. Eu me comprometo com o pensamento bem ponderado, com a palavra bem falada e com a ação bem feita.
9. Eu me comprometo com a religião mazdeísta que faz com que o ataque seja adiado e que as armas sejam destruídas;  dotado de Asha; a qual de todas as religiões que existem ou a existirem, é a maior, a melhor e a mais bela: zoroastrista. Atribuo tudo de bom a Ahura Mazda. Este é o credo da religião mazdeísta.

O conceito do divino

Para o zoroastrismo há o culto do deus supremo Ahura Mazda, auxiliado pelos yazatas. Os yazatas são espíritos benevolentes, “traduzidos” como anjos nas religiões abraâmicas, que representam tanto elementos concretos (sol, fogo, lua, haoma), seres espirituais  Amesha Spentas e enfrentam os demônios daeva e Arimã (Ahirman, Angra Mainyu), o oponente maligno.

Os Amesha Spentas são seis (ou sete, dependendo da leitura do Avesta).

  • Spenta Mainyu: o espírito de santidade;
  • Asha Vahishta: verdade ou ordem eterna;
  • Vohu Manah: o bom pensamento;
  • Spenta Armaiti: devoção;
  • Khshathra Vairya: o bom governo;
  • Haurvatat: perfeição;
  • Ameretat : imortalidade.

Originalmente o universo era perfeito, mas no estado atual a presença do Mal corrompeu essa perfeição. No final, haverá uma restauração do estado ideal. Os seres humanos devem se aliar a Ahura Mazda — que abre mão de sua onipotência para que haja o exercício do livre-arbítrio — para combater o mal.

Há um grande interesse em praticar a justiça e na preservação da Terra. Os seguidores de Ahura Mazda devem casar preferencialmente entre parentes próximos. Tradicionalmente os parsi são estritamente endógamos e não aceitam a conversão de estranhos. Já os zoroastrianos do Irã e da diáspora são mais abertos à receptividade de filhos de casamento mistos e de conversos.

A vida sociorreligiosa

Idealmente todos os homens zoroastrianos são iniciados entre sete e dez anos. Nesses rituais iniciáticos e purificatórios, os meninos vestem uma camisa (sadre) e um cinto de cordão (kusti) e realizam abluções. O principal festival é o noruz, o ano-novo persa.

Mantém altares de fogo os quais devem ser alimentados cinco vezes ao dia e mantidos acesos eternamente. No Irã e na Índia há templos que servem de congregações e receptáculos dos altares do fogo.

Os mortos são idealmente colocados nas “torres do silêncio”, dakhma, para não contaminar a terra ou o fogo. Mas na Índia e entre os muçulmanos, os parsi começaram a cremar seus mortos e esse se tornou um meio aceito de destino do corpo.

COMPARAÇÃO COM OUTRAS RELIGIÕES

Tanto na geografia quanto na tipologia, o zoroastrismo encontra-se entre as famílias das religiões abraâmicas – das quais o judaísmo, cristianismo e islã são as principais representantes – e as religiões dhármicas – dentre elas, o hinduísmo, jainismo e budismo. Consequentemente, há elementos comuns entre elas.

Em comum com as religiões abraâmicas, o zoroastrismo crê em um deus supremo, no céu e inferno, na existência de seres espirituais bons e maus (anjos e demônios, um estado prístino de natureza, na contaminação da Terra pelo Mal, na vinda de um messias, na ressurreição, no dia de julgamento, na restauração da vida no Paraíso (uma palavra persa, por sinal).

O livro de Ester possui relações espantosas com o zoroastrismo. Há a leitura alegórica de que Mardoqueu seria Marduk, Artaxerxes seria Ahura Mazda, Ester Anahita, Amã seria Arimã.

Outros pontos em comum:

  • Paralelos entre Isaías 40-48 e Yasna 44;
  • Menção dos magos no nascimento de Jesus;
  • Cinco orações diárias (compare com o salat do islã);
  • Rejeição do culto de imagens;
  • Uso do trope dualista: luz x trevas;
  • Obrigação de ajudar o pobre (caridade, zakat, tsedakah).

Com as religiões dhármicas compartilha uma concepção de pureza ritual, alinhada a uma ordem cósmica, rituais e preceitos éticos para manter esta pureza.

SAIBA MAIS

BOYCE, Mary. A History of Zoroastrianism. Leiden, 1975.

ENCYCLOPAEDIA Iranica. Zoroastriansm.

HERZFELD, Ernst. Zoroaster and His World. Princeton, 1947.

RINGER, Monica M. Pious Citizens: Reforming Zoroastrianism in India and Iran. Syracuse: Syracuse University Press, 2011.

WEST, Martin Litchfield (Ed.). The Hymns of Zoroaster: a new translation of the most ancient sacred texts of Iran. IB Tauris, 2010.

ZAEHNER, Robert C. The Dawn and Twilight of Zoroastrianism. Londres, 1961.

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