Utopistas sempre sonharam em refazer o mundo. Poucos, no século XX, perseguiram esse ideal com intensidade metódica, quase de engenharia, como Kang Youwei, Buckminster Fuller, Georges Mougin e Jacques Fresco. Separados por oceanos, épocas e tradições intelectuais — do reformismo confuciano do fim do império chinês ao design de sistemas americano, da engenharia pragmática francesa à socioeconomia cibernética — compartilharam uma convicção audaciosa. Para eles, os males da humanidade poderiam ser resolvidos por meio de um redesenho abrangente da própria sociedade, em vez de revolução ou resignação.

Na virada do século passado, o erudito chinês Kang Youwei (1858–1927) publicou Datongshu (O Livro da Grande Unidade), um projeto confuciano-budista para um mundo sem as “nove fronteiras” de nação, raça, classe, família e propriedade privada. Crianças seriam criadas pelo Estado, casamentos funcionariam como contratos renováveis e um parlamento global se orientaria pela elevação moral, mais do que por mudanças materiais. A tecnologia ocupava posição secundária. O motor era a transformação ética, estendida ao longo de milênios até que o amor universal se tornasse hábito.
Este intelectual e calígrafo, Kang Youwei teve oportunidade de implantar algumas ideias quando foi reformador político no final da dinastia Qing. Seria o principal articulador da Reforma dos Cem Dias de 1898, uma tentativa de modernizar o governo e o sistema educacional chinês sob uma monarquia constitucional. Após o fracasso das reformas, interrompidas por um golpe liderado pela imperatriz viúva Cixi, direcionou o pensamento chinês em direção ao modernismo e ao mundo global.
Do outro lado do mundo, décadas depois, Buckminster Fuller (1895–1983) tratou a Terra como “Espaçonave Terra” (Spaceship Earth), um sistema fechado que exigia ciência do projeto antecipatório. Dos anos 1920 até sua morte desenvolveu cúpulas geodésicas, estrutura leve e resistente baseada na distribuição de tensões em triângulos. Também desenhou o carro Dymaxion e o World Game, uma simulação conectada por satélites voltada à otimização dos recursos globais sem coerção política. A “efemerização”, fazer mais com menos, constituía seu caminho para a cooperação sem violência. Sua influência se estende ao design sustentável e ao pensamento sistêmico, e a molécula de carbono fulereno recebeu esse nome em referência à semelhança com suas estruturas.
O engenheiro francês Georges Mougin (1933– ) estreitou o foco utópico para um gargalo específico e vital: a água. Em colaboração com o explorador polar Paul-Émile Victor, fundou o projeto IceDream. Nos anos 1970, propôs rebocar icebergs da Antártida até as costas áridas do Saara, com o uso de simulações 3D, mantas geotêxteis e frotas de rebocadores. A Dassault Systèmes modelou o projeto como tecnicamente viável. Faltava um manifesto social abrangente. A utopia de Mougin avançava por etapas verificáveis: irrigar o deserto, produzir alimentos, estabilizar populações. Fragmentos dessa visão persistem hoje em projetos como The Line e nas ilhas artificiais de Abu Dhabi e Dubai.
Jacques Fresco (1916–2017) levou mais longe o ethos da máquina. Fresco foi um projetista estrutural autodidata, engenheiro social e futurista.A partir de meados do século XX, seu Projeto Vênus propôs uma “economia baseada em recursos”. Defendeu uma economia baseada em recursos, na qual o dinheiro é abolido e a gestão dos bens ocorre por meio de tecnologia e automação, visando à abundância. Projetou cidades circulares sustentáveis com habitações modulares e fazendas verticais. Essas cidades integrariam sistemas automatizados e elementos naturais, partindo da premissa de que o comportamento humano deriva do ambiente e pode ser aprimorado por meio do design. Manteve uma crítica constante à escassez produzida pelos sistemas econômicos modernos. Frequentemente descrito como um “Buckminster Fuller popular”, Fresco construiu um centro de pesquisa na Flórida repleto de maquetes em escala. Suas cidades, porém, permaneceram como representações. Permanece como referência para debates sobre sociedades pós-escassez.
Seus projetos sociais divergem de forma acentuada. Kang dissolveu a família em estruturas coletivas e flexibilizou papéis de gênero sob um parlamento mundial. O World Game de Fuller ultrapassou fronteiras por meio de uma lógica de dados, tratando cidadãos como membros de uma tripulação com recursos finitos. Mougin contornou a política: icebergs chegam, colheitas crescem, assentamentos se formam. A utopia cibernética de Fresco confiou a alocação a um sistema central, liberando os humanos para o lazer e a ciência.
O papel da tecnologia constitui o ponto de convergência. Para Kang, ela atua como suporte discreto de uma ética pós-escassez. Fuller a eleva ao instrumento principal de intervenção. Mougin a emprega com precisão para validar seus icebergs. Fresco a coloca no centro, com a promessa de abolir escassez e conflito.
Os legados variam em materialidade. O texto de Kang alimentou o fervor republicano na China e ecoou em Sun Yat-sen e Mao Zedong. As cúpulas de Fuller ainda aparecem em festivais e na Antártida, enquanto a metáfora da “Espaçonave Terra” sustenta parte do ambientalismo contemporâneo. Os icebergs de Mougin permaneceram no plano do projeto, embora suas técnicas de modelagem influenciem debates sobre dessalinização. Seguidores de Fresco visitam o centro do Projeto Vênus, enquanto críticos apontam a distância entre desenho e construção.
Céticos classificam os quatro como ingênuos: a moralidade de Kang seria elevada demais, as cúpulas de Fuller excêntricas, os icebergs de Mougin arriscados, a inteligência artificial de Fresco centralizada em excesso. Essa crítica ignora um padrão mais profundo. Esses autores atuaram como utopistas aplicados. Trataram a sociedade como problema de projeto e produziram protótipos, simulações e etapas verificáveis. Em uma era marcada por crise climática e avanços acelerados em inteligência artificial, esse exemplo ganha nova relevância.
A escolha central deixa de opor utopia e realismo. Ela contrapõe adaptações fragmentadas, que preservam lógicas de escassez, nacionalismo e extração, a um redesenho sistemático como o que esses quatro propuseram. Sem esse redesenho, permanecemos presos aos sistemas que geram as crises atuais. Com ele, surge uma possibilidade concreta: um caminho para abundância, equidade e desenvolvimento humano que reformas graduais ainda não alcançaram.
Essa é a aposta que esses pensadores mantêm em aberto. Redesenhar o mundo com ousadia suficiente implicaria redesenhar também aqueles que o habitam.
Atualizado em 15 de abril de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Arquitetos de utopias. Ensaios e Notas, 2018. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2018/02/14/arquitetos-de-utopias/. Acesso em: 15 abr. 2026.

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