Neruda: dois poemas sobre saudade

A mais peculiar emoção do universo linguístico da lusofonia inspira a arte para contrapor sua dificuldade em traduzir-se em conceitos. A janela de Almeida Júnior é moldura para o que Neruda tentou capturar em letra: o vulto de uma ausência que insiste em ter corpo. A mulher não lê o papel, ela lê o tempo. Na tela, o luto é luz; no poema, a memória é sombra. Ambos revelam que o longe não é distância, é um lugar onde o coração se demora enquanto o corpo padece no agora.

A saudade é um desestrangeiro. É o modo de o ontem vir morar no hoje, sem pedir licença ou lugar. Quem sente, desvive um pouco para que o outro, partido, possa reexistir. Não é falta que esvazia, é sobra que transborda. Sofre-se a saudade como quem guarda um fogo: para não deixar morrer o que, em nós, ainda quer ser vida.

fado

Saudade, 1899, óleo sobre tela, 197 cm x 101 cm., Almeida Júnior, Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Saudade

Saudade — O que será? … Não sei … Procurei
em alguns dicionários empoeirados e antigos
e em outros livros que não me deram o significado
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
E que nela se obscurecem os amores longíguos,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
Ele a denomina num tremor de tranças e mãos.

E hoje em Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma borboleta com um corpo estranho e fino
sempre longe — até agora! — das minhas redes silenciosas.

Saudade … Ei, vizinho, você conhece o significado
desta palavra em branco que, como um peixe evade?
Não … E me treme na boca seu tremor delicado…
Saudade …

Pablo Neruda (1904 – 1973)

VEJA TAMBÉM

Deseje amar alguém

Desejos

Atualizado em 15 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Neruda (2018)
  • Citação com autor não incluído no texto: (NERUDA, 2018)

Na referência:

NERUDA, Pablo. Dois poemas sobre saudade. Tradução e notas de Leonardo Marcondes Alves. Ensaios e Notas, 2018. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2018/02/06/saudade/. Acesso em: 15 jan. 2026.

2 comentários em “Neruda: dois poemas sobre saudade

Adicione o seu

  1. E incomensurável,comentar por um sentimento chamado saudade porque cada um tem sua ninguém mais que Neruda tem o medidor da saudade de cada um de nós no tamanho certo para cada sentimento.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Um site WordPress.com.

Acima ↑