Tipologia de autoridade religiosa

especialista religioso

Com base nos tipos ideais de dominação legítima e autoridade de Weber (e informado por elaborações teóricas de Max Scheler, Ernst Troeltsch, Rudolf Otto e Florian Znaniecki) o sociólogo teuto-americano Joachim Wach (1898-1955) delineou uma tipologia de especialistas religiosos. Não se trata de papéis fixos, excludentes entre si, nem é esperado encontrar na realidade empírica líderes religiosos que tenham todas essas características. Antes, são tipos para comparação entre diferentes formas de autoridade no seio de comunidades religiosas.

  • Fundador: figuras raras como Buda, Jesus, Maomé ou Confúcio. Reúne carisma e momento oportuno. Apresenta propostas complexas com uma clareza singular. Se falham a atrair adeptos, como fizeram Vidkun Quisling fundador do universismo e o imperador Akbar fundandor da Din-i-Ilahi, torna-se mera excêntrica notas de rodapé da história.
  • Reformador: um crítico que rearranja estruturas, práticas, preceitos e organizações de sua própria comunidade de crença e prática, sem pretensões de iniciar uma nova religião. Tradicionalmente reclama uma interpretação mais legítima ou pura. Lutero, os monges das reformas cluníacas e o inspirador do wahabismo Maomé ibne Abdal Uaabe são exemplos de reformadores.
  • Profeta: são porta-vozes da vontade divina. Entre os que ocuparam esse papel estão Mirza Ghulam Ahmad, os presidentes das igrejas mórmons, Herbert W. Armstrong e Antônio Conselheiro.
  • Vidente: Emanuel Swedenborg, Chico Xavier, Edgar Cayce e as sibilas dos oráculo de Delfos são representantes desse tipo. São portadores de mensagens e visionários do divino ou do outro mundo aos humanos ordinários.
  • Mago: São Gregório de Neocesareia (chamado de Taumaturgo), Santo António de Pádua, Asa Alonso Allen, Satya Sai Baba realizaram atos prodigiosos ou miraculosos. Em geral, esses atos servem para impressionar ou para resolver problemas pessoais.
  • Adivinho: As leitoras dos búzios, marabus e saltigues do Senegal, os manteis gregos e os áugures romanos eram especialistas religiosos que providenciavam respostas às questões práticas da vida. As técnicas variam desde alectomancia, cartomancia, bibliomancia, astrologia, futomani, tasseografia, dentre outras.
  • Santo: São Franscisco de Assis, Ribi Muyal e Meher Baba retratam esse tipo de religioso. A vida consagrada, a aura mística que os reveste, suas introspecção, taumaturgia ou atos de coragem os qualificam como santos. Há até mesmo santos seculares, como Gandhi para George Orwell ou Dag Hammarskjöld.
  • Sacerdote: realizam as atividades ordinárias de ritos e narração dos mitos que reforçam os preceitos fundamentais da comunidade religiosa. São os padres, pastores, imãs, shinshoku e babalorixás.
  • Religioso monásticoreligiosus, na terminologia de Wach, são monges, saddhu, dervishes e eremitas que, separados ou integrados à sociedade, decidiram levar uma vida à parte do profano, portanto, consagrada.

A tipologia de Wach não é sem críticas. Uma delas é que vários tipos são muito próximos (profeta e reformador, profeta e fundador, vidente e mago). O cientista da religião Robert S. Ellwood, Jr (1979), além desses especialistas religiosos, examina os papéis dentro das diferentes comunidades religiosas. Esse teórico aponta para os seguintes tipos:

  • Xamã: pessoa que realiza esporadicamente performance religiosa quando entra em comunhão com o sagrado e comunica essa experiência à sua comunidade.
  • Místico: Kabir na Índia, Julian de Norwich, Helena Blavatsky. São pessoas com grande capacidade de comunicar suas introspecções. Por vezes trabalham dentro da estrutura da organização religiosa ou acabam por fundar sua própria tradição.
  • Popularizador: o apóstolo Paulo, o sabatiano Jacob Frank, o líder mórmon Brigham Young. Nem sempre um místico, profeta ou reformador, mas tem o notável papel de não fazer a religião decair, especialmente nas fases iniciais.
  • Teólogo/Filósofo:  o especialista ou leigo que conceptualiza a religião. Martin Buber, Tomás de Aquino, C.S.Lewis são representantes desse tipo. Os rabinos, muftis, aiatolás e ulemás são exemplos.
  • Leigo: são o povo ordinário. Possuem diferentes graus de adesão às práticas e doutrinas religiosas, mas dão o suporte crucial para a vida da religião.

Joachim Wach (1898-1955) conviveu com diferentes formas de religião: as igrejas territoriais alemãs, as denominações americanas e as pequenas seitas pietistas e novos movimentos religiosos. Além disso, estudou profundamento religiões da Ásia e África. Como método para compreender essas manifestações religiões empregava uma síntese entre fenomenologia e empiricismo, especialmente com o uso de tipos ideais. Para solucionar a disputa dos acadêmicos pela verdade em religião, propôs a distinção entre filosofia da religião (incluindo nesse campo a teologia) e a história das religiões. Assim, ensinou sociologia da religião e Religionswissenschaft (ciências da religião) para investigar o pensamento, experiência, práxis e comunidade religiosos. Lecionou nas universidades de Chicago e Brown depois de fugir do nazismo, pois tinha ascendência judaica (o filósofo Moses Mendelssohn e o compositor Felix Mendelssohn Bartholdy eram seus antepassados).

SAIBA MAIS

WACH, Joachim. Sociology of Religion. Chicago: University of Chicago Press/ Phoenix Books, 1967, 1944, pp. 331-373.

ELLWOOD JR, Robert S. Introducing Religion: from inside and outside. Englewoods Cliff, NJ: Prentice-Hall, 1979.

 

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