Toole: Uma confederação de tolos

Ignatius Reilly e Myrna

Um romance picaresco que se tornou perene ao retratar o anti-herói Ignatius J. Reilly e sua cruzada contra o mundo moderno.

O filósofo e literato Walker Percy introduz o personagem como ‘…Mas a maior conquista de [o autor John Kennedy] Toole é o próprio Ignatius Reilly, intelectual, ideólogo, malandro, simplório, glutão, que provocaria repulsa no leitor com seus excessos pantagruélicos, sua obstinação tonitruante e sua luta solitária contra todos: Freud, os homossexuais, os heterossexuais, os protestantes, e os variados excessos dos tempos modernos. Imaginem um Tomás de Aquino arruinado, transposto para Nova Orleans, de onde parte para uma feroz incursão pelos pântanos até a Universidade do Estado da Louisiana em Baton Rouge, onde seu casaco de couro é roubado no banheiro do corpo docente enquanto ele lá está sentado absorto em seus avassaladores problemas gastrointestinais. Sua válvula pilórica se contrai periodicamente em protesto pela ausência de “geometria e teologia adequadas” no mundo moderno’.

O romance inicia-se com o protagonista reparando com desprezo o mau gosto dos transeuntes à porta da loja D. H. Holmes, enquanto esperava pela sua pacienciosa mãe, Sra. Irene Reilly, a qual leva de carro o celibatário de trinta anos por toda Nova Orleans. Vestindo um casaco de flanela, um cachecol contra os potenciais resfriados e um boné verde de abas laterais caídas, Ignatius é confundido com um vagabundo qualquer e abordado pelo inepto policial Mancuso.

Na confusão que se segue, na qual intervém um velhote anticomunista, o grupo acaba na delegacia.  O rapaz que nunca trabalhou terá agora que achar um emprego para evadir-se do delito de vadiagem. Divide a mesma sorte o malandro Burma Jones.

O medievalista bonachão passa por uma série de subempregos que, a seu ver, atrapalham sua fecunda vida intelectual. Encontra um servicinho administrativo subalterno em uma fábrica de jeans, onde se dá o pomposo título de encarregado do Departamento de Pesquisa e Referência. Na fábrica de calças Levy quase causa uma revolta de operários e escreve uma carta mal-educada para um distribuidor que resulta em problemas para seu patrão. Depois, passa a vender cachorro-quente na rua, coisa que não se farta de comer.

O asceta que louva a auto-negação de Boécio tem um desdém pela modernidade e cultura pop. Entretanto, é um cinéfilo que se entope de refrigerante e pipoca assistindo a matinês.

O mundo moderno é depravado para o tradicionalista católico que não cultiva pias devoções:

— É função da Secretaria de Segurança incomodar-me, enquanto esta cidade é uma flagrante capital do vício do mundo civilizado? — Ignatius berrava acima do vozerio que havia na frente da loja. — Esta cidade é famosa pelos jogadores, prostitutas, exibicionistas, anticristos, alcoólatras, sodomitas, viciados em drogas, fetichistas, onanistas, pornógrafos, corruptos, imorais, desordeiros e lésbicas, todos eles muito bem protegidos pelas “caixinhas”. Se dispõe de tempo, posso discutir o problema da criminalidade com o senhor, mas não cometa o erro de incomodar a mim.

Embora preconceituoso, Ignatius não se incomoda em conviver com strippers e distribuidores de pornografia ilegal em áreas decrépitas da cidade sulista dos moralizantes anos 1960.

Sua ex-colega de classe e correspondente Myrna Minkoff, beatnkick judia do Bronx, é um misto de Dulcineia e nêmese a quem Ignatius quer impressionar. Para a ativista social Myrna Minkof, o irascível amigo precisa de sexo. Aliás, ela até organiza uma palestra intitulada “Sexo na política: Liberdade erótica como uma arma contra reacionários”.

Sem nunca sair de Nova Orleans (exceto para a vizinha Baton Rouge), sua fantasia de pirata ou cigano e espada de plástico não enganam: tem um plano mirabolante para mudar o mundo. Em suas conversas e nas anotações de seu diário o homem das letras revolucionário elabora suas estratégias:

— É claro — disse Ignatius com voz séria, pensativa —, seria uma farsa de alcance mundial. — O lenço de cetim vermelho subia e descia. — A Terceira Guerra Mundial pode se transformar numa orgia generalizada. Louvado seja. Quantos líderes militares não serão sodomitas representando um papel? Aliás, isso pode ser até benéfico para o mundo. Pode significar o fim definitivo da guerra. Pode ser a solução para a paz duradoura.

— Claro que pode — disse o jovem, divertido.

— Paz a qualquer preço. Dois terminais nervosos no cérebro de Ignatius uniram-se para formar uma associação imediata. Talvez ele tivesse acabado de encontrar um meio de enfrentar as afrontas de M. Minkoff. — Os líderes, enlouquecidos pelo poder, ficariam surpresos quando descobrissem que os oficiais e as tropas eram apenas sodomitas mascarados, ansiosos para se encontrar com os exércitos de sodomitas mascarados dos outros países, para promoverem festas e trocarem novos passos de dança. (…) Preciso dedicar mais espaço a esse assunto nos meus escritos. A matéria exige a atenção de um pensador em profundidade, que tenha uma certa perspectiva do desenvolvimento cultural do mundo. Fico muito contente por você ter me dado a ideia.

(…)

Ao colocar no fundo de minhas botas uma simples palmilha de borracha, sentado nos velhos bancos de cimento do Bairro Francês, em minha batalha febril pela subsistência contra uma sociedade desprovida de raciocínio e precaução, fui abordado por um velho conhecido (afastado). Em pouco tempo de conversa, na qual estabeleci facilmente minha superioridade moral sobre aquele degenerado, encontrei-me mais uma vez considerando a crise de nossa era. Meu intelecto, incontrolável e caprichoso como sempre, sugeriu-me um ardil tão magnífico e ousado, que me sinto tenso só em pensar nele. ‘Pare!’, supliquei à minha mente genial. ‘É loucura.’ Mas ouvi até ao fim o conselho do meu cérebro. Era-me oferecida a oportunidade de salvar o mundo por meio da degeneração. Ali, nas velhas pedras do bairro, requisitei a colaboração daquela flor decaída, em forma de ser humano, para reunir seus companheiros de afectação sob o estandarte da fraternidade.

Nosso primeiro passo será eleger um de seus pares a uma alta posição — a presidência, se a Fortuna nos for favorável. Infiltrar-se- ão entre os militares. Os soldados ficarão assim tão ocupados em confraternizar, em confeccionar novos uniformes, em desenhar roupas para os diversos tipos de batalhas, em promover festividades, etc., que não terão tempo para lutar. Aquele que finalmente conseguirmos elevar a chefe do estado-maior só poderá preocupar-se com o guarda-roupa, que lhe permita alternadamente ser comandante ou debutante, dependendo do humor do dia.

A degeneração, ao invés de significar a decadência da sociedade, como antes o foi, é hoje um sinal de paz para nosso mundo conturbado. Precisamos de novas soluções para novos problemas. Atuarei como uma espécie de guia e mentor do movimento, com minha bagagem de história, economia, religião e estratégia política transformada em reservatório, que de facto é, de onde essas pessoas possam drenar as normas operacionais. O próprio Boécio desempenhou papel semelhante na degeneração de Roma. Como disse Chesterton a respeito de Boécio: ‘Assim, foi ele um verdadeiro guia, filósofo e amigo de muitos cristãos; precisamente porque, sendo corrupta sua época, era completa sua cultura’.

Desta vez hei mesmo de transtornar a ninfeta Myrna. Meu plano é surpreendente para a liberal e literal mente mimosa, metida no clamor claustrofóbico dos clichês. A Cruzada pela Dignidade Moura, meu primeiro e brilhante ataque aos problemas da nossa era, seria o golpe decisivo na visão de mundo burguesa das pessoas simples que compunham a vanguarda. Desta vez, porém, o trabalho será feito com quem abomina a insípida filosofia da classe média, com quem está ansioso por assumir posições controversas, por defender uma causa, não importa quão impopular seja, ou o quanto ameace a presunção da burguesia. M. Minkoff quer sexo na política? Eu lhe darei sexo na política — e muito! Sem dúvida vai se sentir esmagada demais para rebater a originalidade do meu projeto. Ao final, há-de fervilhar de inveja. (Essa moça precisa tratar-se. Tamanha desfaçatez não pode permanecer irreprimida.)

O debate entre o Pragmatismo e a Moralidade se desenrola em meu cérebro. Será que o glorioso fim, a Paz, vale o terrível meio, a Degenerescência? Como duas personagens de um auto medieval, o Pragmatismo e a Moralidade digladiam-se em meu cérebro. Mal posso esperar pelo resultado da contenda; estou por demais obcecado pela Paz. (Se algum produtor cinematográfico atento se interessar em comprar os direitos autorais deste diário, faria aqui uma anotação sobre a sequência da contenda. Uma serra musical produziria o acompanhamento ideal, e o globo ocular do protagonista devia ser superposto à cena da disputa para um maior simbolismo. Decerto um novo talento pode ser encontrado em um balcão de loja, ou em qualquer outro lugar onde se ‘descobrem’ pessoas, para ser o Trabalhador. O filme pode ser feito na Espanha, Itália ou em outra locação que o elenco esteja interessado em conhecer, como a América do Norte.)

Sinto muito. Os que estiverem interessados nas últimas notícias sobre salsichas contaminadas nada encontrarão. Ando demasiado ocupado com a magnitude desse projeto. Preciso agora me comunicar com M. Minkoff e fazer anotações para a palestra na reunião de formação do partido.

Nota social: minha desocupada mãe saiu mais uma vez, o que aliás é uma sorte. Suas impetuosas arremetidas contra meu ser têm produzido um reflexo negativo em minha válvula. Disse que ia a uma Coroação do Mês de Maria em uma igreja qualquer, mas, como não estamos em Maio, inclino-me a duvidar da veracidade dessa assertiva.

Uma comédia sofisticada, apresentando minha estrela favorita, entra neste momento em exibição em um cinema do centro da cidade. Eu tenho que ir de qualquer jeito à estreia. Mal posso imaginar os horrores do filme, a exibição de vulgaridade diante do bom gosto e da decência, da teologia e da geometria. (Não compreendo essa compulsão de ir ao cinema; até parece que, em mim, o cinema ‘está no sangue’.)

Os coloridos personagens de Toole não foram convertidos em enlatados pela indústria cultural americana. Retratados com um punhado de estereótipos? Sim. Todavia, não são planos.

Ignatius J. Reilly é um egocêntrico que se vê como gênio incompreendido e perseguido pelo mundo moderno. Em meio a multidão virtual e real, a busca pela individualidade é uma cruzada moderna.  O paradoxo de almejar aceitação social e ao mesmo tempo ser único tornou-se um dilema contemporâneo quase universal. O título do livro vem de uma citação de Jonathan Swift “Quando surge no mundo um verdadeiro gênio, pode-se identificá-lo por este sinal: contra ele se juntam em uma confederação todos os tolos”. Ao terminar o livro, fica patente o duplo sentido: não é só o erudito flatulante que está cercado de tolos; o rol de personagens do qual toma parte Ignatius faz jus ao título.

O romance retrata com esmero tanto cidade como os habitantes de Nova Orleans. Em inglês dá-se para apreciar a linguagem que incorpora o dialeto Yat. A estrutura que incorpora prosa com trechos em outros gêneros mimetiza A consolação da Filosofia de Boécio.

Tem muito de Ignatius J. Reilly no autor, John Kennedy Toole (1937–1969), um inteligente e bem-educado nativo de Nova Orleans que lecionou literatura. Como o personagem, trabalhou em um carrinho de comida de rua (vendendo tamales, um tipo de pamonha) e em uma confecção. Gostava de discutir filosofia, especialmente sobre a roda da Fortuna de Boécio, com o desajeitado professor Bob Byrne (outra inspiração para Ignatius J. Reilly). Morou com os pais até cometer suicídio aos 31 anos, depois de muitas rejeições por várias editoras. Sua mãe se empenhou para ver o manuscrito publicado, o que aconteceu em 1980 pela Louisiana State University Press. A obra foi um sucesso imediato, ganhou um Pulitzer, a tiragem vendida passou dos milhões e foi traduzido para cerca de duas dezenas de línguas. Junto de Flannery O’Connor’s e William Faulkner, Toole entrou para o cânone dos clássicos do gótico sulista. (Quem diria que uma editora universitária publicaria um clássico e best-seller?).

A obra seria lançada no Brasil com título Uma Confraria de Tolos, primeiro com tradução de Cristina Boselli (Círculo do Livro, 1987) e depois em uma nova tradução para a BestBolso (2012) por Alice Xavier.

Hoje uma estátua de Ignatius espreita a multidão com desprezo na calçada da antiga loja D.H. Holmes em Nova Orleans.

A conspiração dos tolos.jpg

2 thoughts on “Toole: Uma confederação de tolos

  1. Muito boa a resenha. E A Confraria de Tolos ficou ainda mais contemporânea.

    O típico coxinha é um Ignatius J. Reilly: olavette, obeso, barbudo, virgem de trinta anos, brigando com meio-mundo pelas redes sociais.

    Paga pau para pensadores medievais obscuros, mas tem fantasia de ser comido por minas gostosas empoderadas de esquerda.

    Pensa que é um erudito, mas sua fonte é a wikipédia e o youtube.

    Se diz católico tradicionalista mas nunca vai à missa. Ao invés disso, passa mais tempo com pornografia e com maratona no Netflix usando senha emprestada do que lendo.

    Conservador e patriarcal que não só explica, mas tem a solução para a economia, a cultura e a política do Brasil e do mundo, mas ainda mora com a mãe e não tem trabalho certo.

    Raciocina por memes enquanto baixa um monte de livros piratas que jamais lerá.

    Sua coragem resume em bater panelas e fazer dancinhas.

    Tolo! Mal sabe que não tem futuro…

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