Os estágios morais de Kohlberg

Kohlberg, Lawrence (1963). The development of children’s orientations toward a moral order: sequence in the development of moral thought. Vita Humana, 6, 11-33.

Como nos tornamos seres morais? Como aprendemos distinguir entre o certo e o errado? As respostas filosóficas são tão díspares quanto interessantes. Agostinho afirmava que já nascemos depravados[1] e inclinados a naturalmente escolher o mal, enquanto Rousseau contesta que originalmente o ser humano é bom, mas nos corrompemos mediante o contato social[2]. Mais tarde, em uma abordagem psicodinâmica, Freud dava explicações como a repressão das pulsões (a influência do superego) para a origem da moral. O psicólogo Jean Piaget deu um grande passo ao notar que a formação moral é construída e difere entre a construção da moralidade extrínseca e a internalizada.

Caberia ao psicólogo norte-americano Lawerence Kohlberg (1927—1987) demonstrar o processo da construção da moral.  Em um notável experimento, Kohlberg descobriu que a construção da moral ocorre por estágios, paralelos aos estágios desenvolvimentais então estudados por Piaget. Ainda mais, para uma criança atingir certo estágio de desenvolvimento moral, deveria antes alcançar um estágio intelectual que a permitisse assimilar as questões morais e produzir seu próprio raciocínio.

O meio pelo qual Kohlberg descobriu esses estágios desenvolvimentais nem foi tão elaborado. Entrevistou 72 garotos de 10, 13 e 16 anos dos arredores de Chicago. Metade era de classe média alta e a outra metade, classe média trabalhadora. Acompanhou longitudinalmente alguns dos sujeitos por cerca de 20 anos. Apresentou-lhes uma série de dez dilemas morais, sem importar em encontrar a resposta “correta”, mas que eles o explicassem como chegaram a conclusões.

Os problemas morais eram do tipo do “dilema de Heinz”. Imagine qual seria a reação do pobre Heinz ao descobrir que sua mulher está morrendo de câncer e o único remédio foi descoberto pelo farmacêutico local. Entretanto, o farmacêutico está interessado em fazer dinheiro com a descoberta, inflacionando o preço de modo que Heinz não o possa pagar. Desesperado, Heinz rouba a farmácia. Deveria ter feito isso?

NÍVEL 1. NÍVEL PRÉ-MORAL OU MORALIDADE PRÉ-CONVENCIONAL

Estágio 1. Obediência e punição. As consequências das ações determinam o certo e o errado

Estágio 2. Hedonismo instrumental ingênuo. O individualismo e a transação passam a serem consideradas. No caso de Heinz, as crianças davam opções que reconheciam os interesses e necessidades diversos.

NÍVEL 2. NÍVEL DE MORALIDADE CONVENCIONAL OU DA CONFORMIDADE COM OS PAPÉIS SOCIAIS

Estágio 3. Relações interpessoais. O ideal de “bom garoto”, ou seja, o que agrada aos outros é bom.

Estágio 4. Autoridade mantém a ordem social. Atitude deondológica, cumprir os deveres.

NÍVEL 3. MORALIDADE PÓS CONVENCIONAL OU DA ACEITAÇÃO DOS PRINCÍPIOS MORAIS.

Estágio 5. Contrato social. Acordos democraticamente alcançados sobre valores são bons, cabendo ao indivíduo determinar o certo e o errado dentro dos parâmetros desses valores.

Estágio 6. Princípios universais. Os princípios de justiça e ética são parte da consciência, sendo questões de escolhas individuais dentro de princípios axiológicos universais, mesmo que contra as leis e regras socialmente estabelecidas.

Para Kohlberg nem todos progrediam por esses estágios. Somente uns poucos (citou Gandhi, Thoureau e Martin Luther King) chegam ao estágio 6. Mas todos em potencial podem alcançar esses estágios, que progridem conforme a idade.

Impactos

As descobertas de Kohlberg consolidaram o entendimento que a moral não é inata. Todavia, as atitudes morais tampouco reduzem-se a adesão a parâmetros heteronômicos. Fruto da socialização, os estágios do desenvolvimento moral ocorrem em fases diferentes para pessoas distintas. Sendo fruto de socialização, há implicações éticas e jurídicas quanto ao julgamento do comportamento moral alheio.

Críticas

O estudo de Kohlberg acendeu críticas imediatas. A amostra teria o viés masculino e de classe média da região central dos Estados Unidos, sem considerações com mulheres e outras culturas.  A psicóloga Carol Gilligan (1982) argumentou que mulheres tendem a raciocinar a moralidade diferentemente dos homens, considerando fatores interpessoais como a compaixão e afeto. Também, o teste de Kohlberg media questões de justiça e não relações de confiança ou lealdade. Todavia, estudos bibliográficos como o de Snarey (1987) não encontrou divergências significativas entre culturas e gêneros diversos. Outros psicólogos, como Nancy Eisenberg (1982) refina a teoria de Kohlberg ao propor avaliar os raciocínios morais próprios e alheios das crianças. Também se deve considerar a distinção a priori/ a posteriori: o que disseram fazer e o que efetivamente fariam nas situações dos dilemas.

O psicólogo

Nascido de uma família afluente, Kohlberg desfiou as leis de sua época quando transportou refugiados judeus para a Palestina. Formando em Chicago e em Harvard, fez carreira como psicólogo pesquisador nessa última universidade. Depois de adquirir uma infecção parasitológica que o atormentava, enfrentou o dilema do suicídio: morreu afogado na Baía de Boston.

Obras citadas

Gilligan, C. (1982) In a different voice : psychological theory and women’s development. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Snarey, J. G. (1987) A question of morality. Psychology Bulletin. 97, 202-32.

Eisenberg, N (1982) The development of reasoning regarding prosocial behavior. In N. Eisenberg (Ed.) The development of prosocial behavior . Academic Press.

[1] Confissões, Livro I, capítulo VII.

[2] A citação atribuída a Rousseau de que “O homem nasce puro; a sociedade o corrompe” não aparece verbatim em seus escritos. Mas essa ideia é presente em A origem da desigualdade entre os homens e Emílio ou a Educação.

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