O linchamento dos desgraçados

As reações violentas do Estado e da população contra movimentos populares com organizações sociais divergentes são capítulos amargos na história de qualquer país. Incidentes como o Ramo Davidiano em Wacco, o movimento giurisdavídico de Monte Amiata, o Contestado e a Guerra de Canudos no Brasil são incômodos, pois contaram com uma opinião pública que lincha. Digeridos em representações culturais, desde teatro, quadrinhos ou filmes, por vezes acabam idealizados posteriormente, dando uma consciência de moralidade.

Em tempos em que o devido processo legal vira letra morta, pós-verdade torna-se credos, a imprensa compromete-se com agendas obscuras  e a crueldade dissemina-se rapidamente pelas mídias sociais, é preciso ser prudente.

A crítica literária Walnice Nogueira Galvão (1999, pp.165-168) resume os sentimentos de antes e depois da tragédia de Canudos. Após a humilhante derrota da bem-equipada expedição de Moreira César pelos sertanejos  o Brasil urbano reagiu:

A celeuma provocada por mais essa derrota é incalculável. Manifestações de rua nas duas principais cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, acabaram se transformando em motins em que o furor da multidão se desencadeou sobre os alvos mais óbvios. (…) Todos clamavam pelo aniquilamento dessa ameaça nacional contra a república. Os estudantes assinaram uma petição exigindo a liquidação dos sequazes do “degenerado”. Deputados e senadores não discutiam outra coisa no Parlamento. O célebre jurista Rui Barbosa, campeão do liberalismo e do direito, futuro delegado brasileiro à Conferência da Paz em Haia bem como candidato à presidência, proferiu palestra pública na qual chamou os canudenses de “horda de mentecaptos e galés”, dizendo que não passava de um caso de polícia, a qual deveria bastar para eliminá-los. Os jornais trataram a derrota como uma calamidade nacional, disseminando a insegurança e o alarme em toda parte, multiplicando notícias falsas, cartas forjadas e focos conspiratórios até internacionais.

(…)

Após uma guerra que se revelou ingloriamente como uma chacina de pobres-diabos, ficou evidente que não houvera conspiração e que esse bando de sertanejos miseráveis não tinha nenhuma ligação com os monarquistas instruídos — gente branca, urbana e de outra classe social, que tinha horror a “jagunço” e “fanáticos” pobres como aqueles —, nem apoio logístico, seja no país, seja no exterior.

Verificou-se então uma notável reviravolta da opinião, que mudou de lado. Os estudantes se manifestam de novo, mas desta vez para protestar contra o massacre. O jurista Rui Barbosa agora chama os canudenses de “meus clientes” e promete obter um habeas corpus para eles — depois de mortos. Descobre-se que o noticiário jornalístico era tendencioso e em grande parte falsificado. Segue-se um mea culpa generalizado, cujo exemplo mais perfeito é o livro Os sertões, que procura reabilitar os injustiçados e resgatá-los para a história.

Irônico o papel da “massa pensante”— que não confessa, mas sente-se superior às massas— na fermentação da crueldade. O público não é passivo quando fomenta a violência. Compartilha a responsabilidade do sangue derramado, como na música de Bob Dylan, Who killed Davey Moore. Por essa razão, é sensato não compartilhar coisas das quais não se tenha uma certeza fundamentada criticamente.  Antes de bater panelas, pense.

canudos2bpor2bangelo2bagostini

OBRA CITADA

GALVÃO, Walnice Nogueira. “Euclides da Cunha: Os sertões” em MOTA, Lourenço Dantas (org.) Introdução ao Brasil: um banquete no trópico. São Paulo: Senac, 1999.

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A isenção da imprensa: Napoleão e o Le Moniteur

Os sertões

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