O homem de um livro só

O Senhor Maurice[1], em suas animadas Memórias, recentemente nos mostrou um fato que parece importante na vida de um literato. Ele diz, “fomos informados que Sir William Jones lê invariavelmente toda a obra de Cícero, cuja vida de fato é um grande exemplo para ele”. A mesma paixão pelas obras de Cícero é partilhada por outros. Quando perguntaram ao erudito Arnauld quais seriam os melhores meios de formar um bom estilo, aconselhou o estudo de Cícero. Mas quando observaram que o objetivo era melhorar o estilo em francês e não em latim, Arnauld[2] respondeu: “nesse caso, você deve ler Cícero”.

U59290274-elderly-man-reading-the-biblema predileção por algum grande autor, dentre o vasto número dos que temporariamente ocupam  nossa atenção, parece ser um grande meio de preservar nosso gosto: acostumados com aquele excelente autor a quem escolhemos como favorito, poderíamos nessa intimidade assemelharmos a ele. Há quem tema que se nos ligamos permanentemente, possamos estar adquirindo conhecimento enquanto nosso gosto se torna a cada vez menos vivaz. O gosto embalsama o conhecimento o qual não poderia se manter por si mesmo. Quem tem sido íntimo com um grande autor terá sempre um formidável antagonista: saturou sua mente com as excelências do gênio; moldou suas faculdades insensivelmente com seu modelo. É como um homem que nunca dorme, que fica com a armadura, pronto a qualquer momento! O velho provérbio latino nos lembra deste fato, Cave ab homine unius libri: Cuidado com o homem de um livro só!

Plínio e Sêneca dão conselhos muito seguros sobre a leitura: que devemos ler muito, mas não muitos livros — mas eles não tinham nenhuma “lista mensal das novas publicações!” Desde a época deles outras pessoas nos têm favorecido com “métodos de estudo” e “listas de livros que todos devam ler”. Vãs tentativas de circunscrever aquele círculo invisível de conhecimento humano que se amplia continuamente! A multiplicidade de livros é um mal para muitos, pois agora encontramos um helluo librorum[3] não só entre os eruditos, mas, com seu perdão, entre os incultos. Há aqueles que, mesmo em prejuízo de sua saúde, persistem apenas em ler as novidades incessantes do livro de nosso próprio tempo, depois de muitos anos adquirem uma espécie de ignorância educada. Estamos agora na falta de uma arte para ensinar como os livros devam ser lidos, em vez de não os ler: tal arte é praticável. Mas, no meio dessa multidão, deixemos de ser “o homem de um livro só”, e preservemos um intercâmbio ininterrupto com aquele grande autor com cujo modo de pensar simpatizamos, cujos encantos de composição podemos reter habitualmente.

É notável que cada grande escritor pareça ter uma predileção por algum autor favorito. E, como Alexandre, se eles possuíssem um caixão de ouro, teriam consagrado as obras que tão constantemente se debruçaram. Demóstenes sentiu tal prazer na história de Tucídides que, para obter um domínio familiar e perfeito de seu estilo, recopiou sua história oito vezes. Enquanto Bruto não só estava constantemente observando Políbio, mesmo nos períodos mais agitados de sua vida, mas ainda assim folheava uma cópia desse autor na terrível última noite de sua existência, quando no dia seguinte ele estava a tentar o seu destino contra Antônio e Otávio. Selim II tinha os Comentários de César traduzidos para seu uso; como registrado, seu ardor militar foi aumentado pela leitura. Dizem-nos que Cipião Africano foi feito um herói pelos escritos de Xenofonte. Quando Clarendon foi empregado em escrever sua história, estudada constantemente Lívio e Tácito para adquirir o estilo cheio e fluido do primeiro e a descrição pitoresca do outro: registra esta circunstância em uma carta. Voltaire tinha geralmente em sua mesa a Athalie de Racine e o Petit Carême de Massillon. As tragédias de um autor eram o modelo mais fino do verso francês, os sermões do outro os da prosa francesa. “Se fosse obrigado a vender a minha biblioteca”, exclamou Diderot, “iria manter Moisés, Homero e Richardson”; e, pela oração elogiosa que este escritor entusiástico escreveu sobre o nosso romancista inglês, é duvidoso, se o francês tivesse sido obrigado perder dois deles, se Richardson não tenha sido o favorito eleito.

Monsieur Thomas, escritor francês, que às vezes exibe grande eloquência e pensamento profundo, nos conta Hérault de Sechelles, estudou principalmente um autor, mas esse autor era Cícero. E nunca foi ao campo desacompanhado por algumas de suas obras. Fénélon estava constantemente empregado em seu Homero. Deixou uma tradução de grande parte da Odisseia, sem qualquer projeto de publicação, mas apenas como um exercício de estilo. Montesquieu era um estudante constante de Tácito, de quem deve ser considerado um imitador forçado. Ele tem, à maneira de Tácito, caracterizado seu autor favorito como “aquele historiador”, diz ele, “que abreviou tudo, porque viu tudo”. O famoso Bourdalou reexaminava todos os anos São Paulo, São Crisóstomo e Cícero. “Esses”, diz um crítico francês, “foram as fontes de sua eloquência viril e sólida”.

Grócio tinha tal gosto por Lucano[4], que sempre carregava uma edição de bolso consigo, e foi visto beijando seu manual com o arrebatamento de um verdadeiro devoto. Se esta anedota fosse verdadeira, os sentimentos elevados do romano severo eram provavelmente a atração para o republicano da Batávia.

A leitura diversificada de Leibniz é bem conhecida. Mas ele ainda se apegava a um ou dois favoritos: Virgílio estava sempre na sua mão quando estava à vontade. E Leibniz tinha lido Virgílio tantas vezes que mesmo na sua velhice podia repetir livros inteiros de cor. Argenis de Barclay era seu modelo para a prosa. Quando foi encontrado morto em sua cadeira, o Argenis tinha caído de suas mãos.

Rabelais e Marot eram os favoritos perpétuos de La Fontaine. De um tomou emprestado seu humor e de outro seu estilo. Quevedo gostava tanto do Don Quixote de Cervantes, que muitas vezes, ao ler aquela obra inigualável, sentia um impulso de queimar suas próprias composições inferiores: ser um admirador sincero e um rival desesperado é um caso de autoria mais difícil de se imaginar. Poucos escritores podem aventurar-se a antecipar o prêmio da posteridade. Mas talvez Quevedo não tivesse sido o que era sem a excitação perpétua que recebia de seu grande mestre. Horácio era amigo íntimo para Malherbe, colocou o poeta romano no travesseiro, levou-o para os campos e chamou Horácio de seu breviário. Plutarco, Montaigne e Locke eram os três autores constantemente nas mãos de Rousseau, e deles tirou o fundamento de suas ideias em seu Emile. O autor favorito do grande Conde de Chatham era Barrow; e em seu estilo formou sua eloquência, e tinha lido seu grande mestre tão constantemente, como para ser capaz de repetir seus sermões elaborados de memória. O grande Lorde Burleigh sempre carregava os De officiis de Túlio [Cícero] no bolso. Carlos V e Bonaparte tinham Maquiavel frequentemente em suas mãos. E H.C. Davila era o estudo perpétuo para John Hampden: parecia ter descoberto naquele historiador de guerras civis aquilo que antecipava na terra de seus pais.

Esses fatos ilustram suficientemente a circunstância registrada do hábito invariável de Sir William Jones de ler seu Cícero através de cada ano, e exemplificam o feliz resultado para ele, que, em meio à multiplicidade de seus autores, continua assim a ser “o homem de um livro só”.

 Isaac Disraeli. The Man of One Book. Curiosities of Literature. 1835.


[1] Thomas Maurice (1754-1824) orientalista britânico, autor de  Memoirs of the Author of Indian Antiquities. Londres: Rivington, 1820.

[2] Antoine Arnauld (1612 – 1694), gramático, matemático e teólogo jansenista francês.

[3] helluo librorum: um glutão de livros.

[4] Marco Aneu Lucano (39 d.C.-65.d.C) foi um jovem poeta romano cuja obra-prima inacabada Farsália retrata epicamente a guerra civil entre Júlio César e as forças de Pompeu. Ao contrário de outros épicos, no poema de Lucano não há intervenção divina nos negócios humanos. O teólogo arminiano e jusnaturalista Hugo Grócio rejeitava um determinismo divino nesse mundo, algo que explica sua predileção por Lucano.

* * *

A expressão “cuidado com o homem de um livro só” ou sua variante timeo hominem unius libri é atribuída diversamente a Sêneca, Quintiliano, Agostinho, Tomás de Aquino ou Bertrand Russell. Não se sabe ao certo quem disse ou quando surgiu, mas aparece no final da Idade Média.

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