Diferença entre ciências da religião, estudos bíblicos e teologia

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A religião é uma das mais multiformes e complexas instituições humanas. Para estudá-la, várias disciplinas científicas ou humanísticas se consolidaram, acumulando um corpo significativo de conhecimento. Cada disciplina com escopo de estudar os fenômenos da religião possuem seus objetos e métodos. Porém, a diferença entre teologia, ciências da religião, formação pastoral e ciências bíblicas é negligenciada no Brasil.

Por essas bandas, a graduação chamada de “teologia” abarca essas disciplinas, mas com uma tendência marcadamente denominacional cristã. Seria melhor se fossem chamadas de “cursos de formação clerical”. Esse cenário de confusão faz jus à acepção popular de a teologia ser “o curso para ser padre ou pastor”.

De forma sucinta, a diferença entre essas abordagens pode ser apresentada pelo objeto de seus estudos:

Teologia: o estudo da compreensão humana das “coisas divinas”. Portanto, apesar de títulos tradicionais como DD, doutor em divindades, é uma disciplina de ciências humanas. No uso desse termo há um viés cristão de considerar essa disciplina como um corpo de concepções abstratas (teóricas) sobre o Deus abraâmico. O darshana no hinduísmo, o kalam no islã e o pensamento rabínico no judaísmo seriam os equivalentes nessas religiões.

Estudar teologia como uma forma de pensamento ou história das ideias independe de crença pessoal ou filiação religiosa. Foi o caso da filósofa (judia, mas secular) Hannah Arendt que estudou teologia cristã nas universidades de Berlim e Marburgo. Muitos que se se interessam pela teologia seguem carreira clerical, mas não necessariamente, como o escritor de romances juvenis John Green que formou-se em teologia e trabalhou em capelania hospitalar antes de virar youtuber e autor de sucesso.

Especialmente na vertente cristã, a teologia é confusa aos não iniciados pelas terminologias técnicas. E dá-lhe tantas “logias”: escatologia, bibliologia, angeologia, harmatologia, pneumatologia, soterologia, etc.

Conhecer teologia gera ramificações em outras áreas. As artes, o direito e a política são campos que recebem contínuo reflexo de conceitos teológicos. No Brasil, há deficiência de uma teologia pública (com notáveis exceções os trabalhos de teólogos da libertação, teólogos da Missão Integral e Neo-Calvinistas) e pode-se dizer que não se produz teologia no país.

Sob uma perspectiva católica, há cursos de teologia abertos a crentes (ou não) de qualquer confissão nas PUCs e no Claretiano, Católica de Petrópolis, Faculdade Jesuíta em Belo Horizonte e Dom Bosco. Nos seminários católicos o curso chamado de teologia volta-se à formação pastoral dos presbíteros católicos, requerendo adesão doutrinária e passar por testes vocacionais diocesanos ou das ordens religiosas.

Ainda no país, sob uma perspectiva protestante, há as instituições filiadas ao ASTE – Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, que reúnem tanto cursos pastorais de formação interna das diferentes confissões evangélicas do Brasil como os poucos cursos de teologia no sentido estrito, como os da adenominacional Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina e a luterana Escola Superior de Teologia em São Leopoldo.

Não há cursos de teologia em instituições públicas de ensino no Brasil. Em 1962 Darcy Ribeiro junto com os dominicanos liderado por frei Mateus Rocha idealizaram o Instituto Teológico da Universidade de Brasília (UnB), mas o golpe militar destruiu a iniciativa, resultando no incêndio do instituto. A Universidade Federal do Piauí manteve por anos um curso superior de teologia em convênio com a Diocese de Parnaíba, mas também foi extinto.

Ciências da Religião ou Ciências das Religiões: é o estudo interdisciplinar dos fenômenos religiosos.  Difere da teologia acadêmica por sua perspectiva “etic”, ou seja, externa aos fenômenos, enquanto na teologia se prioriza as visões internas de cada grupo religioso. Chamado em alemão de Religionswissenschaft (um bom trava-línguas), reúne abordagens da sociologia da religião, da história das religiões, da antropologia da religião, da filosofia da religião, da psicologia da religião, estudos de religiões particulares e religiões comparadas.

Como no estudo acadêmico da teologia, não há requisitos de filiação ou crença para envolver-se com essa disciplina, a qual utiliza uma metodologia científica.

Refletindo a inserção do Ensino Religioso no currículo escolar, várias universidades estaduais do Norte e Nordeste, além de universidades comunitárias em Santa Catarina, oferecem cursos de licenciatura em Ciências da Religião. Em universidades federais, a UFJF e a UFPB possuem esse curso. Nas privadas, os programas de pós-graduação da Universidade Metodista em São Bernardo do Campo e da PUC-Minas se destacam.

Embora haja significantes trabalhos científicos sobre religião —  principalmente das ciências sociais  —  no país esse curso é relativamente novo, remontando dos anos 1970. Um dos notáveis pesquisadores é Frank Usarski, que obteve a primeira livre-docência em Ciências da Religião no país em 2009.  Por aqui, o trabalho do cientista da religião é realizado por sociólogos que estudam o catolicismo e o protestantismo, bem como por antropólogos que estudam as religiões afro-brasileiras, populares e indígenas.

Estudos Bíblicos, Ciências Bíblicas, Bíblia como Literatura, Letras Bíblicas, Literatura Bíblica: em inglês Bible Scholarship ou Bible Studies, trata-se de um exame multidisciplinar da Bíblia. Esse livro, um dos mais impactantes da história, possui cursos específicos para seu estudo na América do Norte, Europa e até mesmo na Índia e na China. Entre os brasileiros não há graduação ou sequer linhas de pesquisas em pós-graduações para o exame não denominacional da Bíblia. Como consequência, não há biblicistas no país, exceto alguns lobos solitários, como Luiz Sayão.

Nessa abordagem, a Bíblia é estudada pela teoria literária, arqueologia, linguística, história, antropologia, ciências políticas e outras perspectivas. Como nas disciplinas anteriores, não há requerimento de fé para esses estudos, com um dos mais famosos biblicistas atuais, Bart D. Ehrman, sendo ateu.

Formação Pastoral, Estudos Ministeriais: são estudos profissionalizantes para formação de ministros religiosos, capelães, assistentes sociais religiosos  (diaconia), músicos litúrgicos, especialistas em rituais religiosos e educadores confessionais. Consiste intrinsecamente na formação superior de profissionais para atuar dentro de organizações religiosas. Em razão disso, a adesão a esses credos é pré-requisito. Não se trata de uma ciência, mas uma formação humanística. Há uma miríade de cursos desse tipo, desde filiação católica, protestante e, recentemente, umbandista.

O Padre António Vieira epitomiza essa formação. Pe.Vieira trilhou o típico currículo da formação sacerdotal jesuíta, o ratio studiorum, com grande dose de retórica, homilética e humanidades. Aplicou seu conhecimento na cura de seus congregados indígenas e portugueses.

***

Talvez por uma herança do republicanismo positivista, retirou-se da esfera pública do Brasil o estudo acadêmico – científico ou humanístico – da religião. No  país, como na maioria dos países da América e Europa Latina, a distinção entre ciências da religião, teologia, estudos bíblicos e formação pastoral torna-se menos visível. Isso se deve tanto pela herança hegemônica católica quanto pela tentativa do estado em criar uma sociedade laica. No Brasil não há ensino de graduação voltado à religião como não há teologia ou estudos bíblicos em instituições públicas, exceto os recentes e poucos cursos de licenciatura em ciências da religião. Por outro lado, instituições confessionais voltam para a formação pastoral. Em geral, nesses cursos de graduação busca-se a indoutrinação denominacional e evita-se a inquirição crítica.

Ainda há temores que o ensino religioso nas escolas públicas nos níveis fundamental e médio seja canalizado ao proselitismo.

E o preço a pagar por essa negligência acarreta em diversos malefícios, como a manipulação religiosa no pleito eleitoral e a disseminação do preconceito contra religião em geral e contra grupos minoritários. O debate do ensino da religião (ou ensino religioso) no ensino fundamental e médio fica travado com questões fundamentais há tempos dissecadas por essas disciplinas. Para início de conversa, seria necessário conscientizar os diferentes meios de se conhecer a religião, como na distinção acima.

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