Emmanuel Lévinas nasceu em 1906 em Kaunas, na Lituânia. Cresceu em uma família judaica burguesa e estudou hebraico, a Bíblia e o Talmude, além de apreciar a literatura russa, especialmente de Dostoiévski.
Em 1923, mudou-se para Estrasburgo, na França, onde estudou filosofia com Maurice Pradines, Maurice Halbwachs, Henri Bergson e René Le Senne. Em 1928, foi para Freiburg, na Alemanha, onde assistiu às aulas de Edmund Husserl e conheceu Martin Heidegger. Em 1930, publicou sua dissertação, A Teoria da Intuição na Fenomenologia de Husserl, e naturalizou-se cidadão francês.
Serviu como intérprete no exército francês durante a Segunda Guerra Mundial. Foi capturado e mantido no campo de Fallingbostel, perto de Hanôver, em condições de trabalho forçado. Seu status de oficial francês o protegeu dos campos de extermínio. Seu pai, seus irmãos e sua sogra, que permaneceram na Lituânia, foram assassinados pelos nazistas. Sua esposa, Raïssa, e sua filha, Simone, sobreviveram escondidas em um mosteiro na região de Orléans, com ajuda de Maurice Blanchot, que manteve contato com Lévinas durante o cativeiro.
Ao longo de sua carreira, publicou Da Existência ao Existente (1947), O Tempo e o Outro (1948), Totalidade e Infinito (1961), Liberdade Difícil (1963), Além do Ser (1974) e De Deus que vem à ideia (1986). Passou a maior parte de sua vida profissional como diretor da École Normale Israélite Orientale da Alliance Israélite Universelle, em Paris. Só ingressou no sistema universitário francês em 1961, aos 55 anos, como professor em Poitiers. Depois lecionou em Nanterre e na Sorbonne. A partir de 1957, dedicou-se também ao estudo do Talmude, oferecendo leituras anuais no Colloque des Intellectuels Juifs de Langue Française, que resultaram em cinco volumes de comentários.
Entre as influências mais importantes de seu pensamento estão Husserl, Heidegger, Bergson, Rosenzweig, Kant e Descartes. De Husserl, recebeu o método fenomenológico, a noção de intencionalidade e a redução transcendental, embora tenha adaptado esses conceitos e rejeitado a constituição do Outro como um alter ego. De Heidegger, herdou temas como a ontologia fundamental e o ser-para-a-morte, reconhecendo essa estrutura como ontológica, porém situando-a abaixo do horizonte ético. De Bergson, assimilou as ideias de duração, tempo e intuição. De Franz Rosenzweig, especialmente por meio de A Estrela da Redenção (1921), recebeu a crítica da totalidade e a ênfase na relação. Essa influência consolidou-se de forma mais decisiva após a guerra, quando Lévinas leu a obra em alemão antes de traduzi-la para o francês em 1964. De Kant, preservou a noção de respeito pelas pessoas, radicalizando-a para além da reciprocidade. De Descartes, apropriou-se da ideia do Infinito apresentada na Terceira Meditação, entendendo-a como evidência do traço do Outro. Para Lévinas, o cogito cartesiano pressupõe a relação com o Outro e não constitui um ponto de partida autossuficiente.
Em Da Existência ao Existente (1947), Lévinas desenvolve uma crítica a Heidegger influenciada por sua experiência durante a guerra. A ontologia heideggeriana é apresentada como incapaz de proteger a alteridade. Os seres humanos são reduzidos a funções dentro de um projeto totalizante. Nesse contexto, surge o conceito de il y a (há), entendido como uma existência anônima e impessoal, uma indeterminação caótica que precede toda doação. Essa condição caracteriza-se pelo horror, pela ausência de sentido e pela perda da individualidade. Pode ser comparada à insônia, à fadiga e à existência anônima. A crítica explícita a Heidegger se aprofundaria nas obras posteriores, especialmente em Totalidade e Infinito.
A fuga do il y a não pode ser alcançada apenas por meio da consciência. O pensamento conceitual reduz o Outro ao Mesmo. A solução proposta é ética. O eu deve depor sua soberania. A existência autêntica emerge por meio do ser-para-o-Outro e da responsabilidade ética. A existência humana deixa de ser compreendida como ser-para-a-morte e passa a ser entendida como ser-para-o-Outro.
Em O Tempo e o Outro (1948), Lévinas critica a subjetividade solitária. O tempo não é a experiência de um sujeito isolado. O tempo é fundamentalmente relacional. Ele abre o eu para o Outro e para uma transcendência que não pode ser reduzida às categorias do presente. O conhecimento permanece no âmbito da imanência, e sua comunicação não supera o isolamento. A solução encontra-se na socialidade. A relação genuína com o Outro transcende o conhecimento. O tempo torna-se relação com a alteridade e interrupção da existência fechada sobre si mesma. Nessa obra, Lévinas explora temas como eros, paternidade e transcendência.
Em Totalidade e Infinito (1961), considerada sua principal realização filosófica, Lévinas desenvolve uma crítica sistemática da totalidade. A obra exerceu influência sobre a Filosofia da Libertação na América Latina, mediada especialmente pelo trabalho de Enrique Dussel. Segundo sua análise, a filosofia tradicional reduz o Outro ao Mesmo. A ontologia absorve a alteridade em sistemas conceituais.
O conceito central da obra é o rosto (visage). O rosto revela a vulnerabilidade do Outro. Ele aparece como pobre, estrangeiro, peregrino, fraco e indefeso. O encontro com o rosto emite uma exigência ética expressa no mandamento: não matarás.
A linguagem constitui o lugar do encontro com o Outro. O Outro sempre excede qualquer interpretação. Não pode ser plenamente capturado pela psicologia, pela sociologia ou por qualquer estrutura conceitual. A relação face a face estabelece proximidade, e a própria subjetividade surge por meio da responsabilidade. Essa responsabilidade é anterior ao conhecimento e anterior à consciência.
Lévinas distingue necessidade (besoin) e desejo metafísico. A necessidade busca satisfação, apropria-se do mundo e termina no gozo. O desejo metafísico é desejo do Outro enquanto Outro. Trata-se de desejo pelo infinito, pelo mistério e pela transcendência. Nunca é satisfeito e aprofunda-se continuamente em vez de se encerrar.
O eros combina necessidade e desejo. Trata-se de uma relação ambígua que tanto revela quanto oculta o rosto do Outro, introduzindo a feminilidade como categoria filosófica. A paternidade introduz a criança como continuação e alteridade, funcionando como metáfora da fecundidade temporal. Nessa perspectiva, a ética é mais fundamental que a metafísica ou a política. Quando reduz o Outro ao Mesmo, a ontologia transforma-se em uma filosofia da dominação.
A relação ética é assimétrica. O Outro ocupa uma posição superior à do eu. O eu é julgado pelo Outro. A justiça permanece sempre incompleta.
A figura do terceiro (le tiers) introduz a dimensão da justiça e da política, exigindo que o eu compare sua responsabilidade infinita por um único Outro com a presença de outros outros. A paternidade e o terceiro operam em registros distintos: enquanto a primeira exprime a fecundidade do tempo, o segundo impõe a necessidade de mediar entre múltiplas demandas éticas.
Em Além do Ser (1974), Lévinas procura ir além da autenticidade. Sua reflexão já não descreve apenas um modo diferente de ser, mas um movimento para além do próprio ser. A responsabilidade constitui o eu. O sujeito torna-se sujeito por meio da responsabilidade.
O rosto ordena e interpela simultaneamente. A resposta adequada é: eis-me aqui. A responsabilidade é incondicional e independe da resposta do Outro. Surge então o conceito de substituição. O eu torna-se responsável no lugar do Outro. Essa ideia é inspirada em Dostoiévski e na afirmação: sou mais culpado do que todos.
A justiça exige consideração pelos outros para além do encontro imediato. Ela deve preservar o desinteresse ético. Há também uma dimensão religiosa em sua filosofia. A responsabilidade testemunha a glória de Deus. A responsabilidade ética precede a lei religiosa. A ética conserva seu significado mesmo sem promessas messiânicas.
Entre os principais conceitos da filosofia de Lévinas está o encontro face a face, entendido como o acontecimento ético fundamental e como reconhecimento da vulnerabilidade e da humanidade. A ética é concebida como filosofia primeira e precede a ontologia e a epistemologia. O Outro é irredutivelmente diferente e constitui a fonte da obrigação ética. O infinito opõe-se à totalidade porque o Outro excede qualquer contenção conceitual. A responsabilidade é imediata e incondicional, anterior à liberdade e à escolha. O ser é reinterpretado a partir da relação com o Outro. A linguagem funciona como meio do encontro ético. O dom consiste em dar sem expectativa de retorno. O traço é o sinal residual da transcendência irredutível do Outro. A intersubjetividade tem suas raízes em uma relação ética originária e baseia-se na fraternidade e na responsabilidade, não na cognição.
A conclusão central de sua filosofia sustenta que a subjetividade humana é constituída pela responsabilidade para com o Outro. O Outro não pode ser reduzido a um conceito, objeto ou categoria. A ética tem origem no encontro face a face. A responsabilidade precede o conhecimento, a ontologia, a política e até mesmo a religião. A vocação humana fundamental consiste em ser-para-o-Outro.
A influência de Lévinas estende-se por diversas áreas. Jacques Derrida, em seu ensaio inicial Violência e Metafísica (1967), critica e dialoga com Lévinas. A desconstrução derridiana compartilha a preocupação com a alteridade. Jean-Luc Marion desenvolve a fenomenologia da doação e do fenômeno saturado, embora relacione-se criticamente com Lévinas, a quem considera ter parado a meio caminho. Maurice Blanchot, amigo próximo de Lévinas, compartilha interesses relacionados ao exterior, ao neutro e ao outro. Na teologia, sua influência alcança pensadores como John D. Caputo e Richard Kearney. Jean-Luc Nancy dialoga com Lévinas a partir de uma ontologia do ser-com, embora desenvolva uma desconstrução do cristianismo que se distancia do horizonte teológico levinasiano. Na psicanálise, contribuiu para reflexões sobre intersubjetividade, trauma e o Outro, com destaque para a influência sobre teóricos como Bracha Ettinger. No feminismo, recebeu críticas de Luce Irigaray, que identificou um falocentrismo na concepção do rosto como figura masculina e denunciou a exclusão da dimensão da sexualidade feminina do horizonte ético. Na filosofia política, foi criticado porque a assimetria ética dificulta a fundação de uma teoria política da igualdade. Seus defensores argumentam que a justiça emerge da ética por meio da figura do terceiro, embora muitos considerem essa passagem subdesenvolvida.
Lévinas faleceu na noite de 24 para 25 de dezembro de 1995, em Paris. Seu pensamento continua a influenciar a filosofia, a teologia, a teoria literária, a teoria política, a psicanálise, a educação e o serviço social. Os debates em torno de sua obra permanecem ativos. Discute-se se a responsabilidade pode ser infinita, se sua ética é politicamente ingênua e se seu pensamento é excessivamente teológico.
SAIBA MAIS
DAVIS, Colin. Levinas: an introduction. John Wiley & Sons, 2013.
DE MELO, Nelio Vieira. A ética da alteridade em Emmanuel Levinas. EDIPUCRS, 2003.
PELIZZOLI, Marcelo Luiz. Levinas: a reconstrução da subjetividade. EdiPUCRS, 2002.

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